Quem bancou o Fórum Social Mundial 2018?

N. dos E. – Para os visitantes deste sítio, não é novidade que as organizações não-governamentais (ONGs) que integram o aparato dos assim chamados movimentos sociais, aí incluído o aparato ambientalista-indigenista, são largamente financiadas por fundações privadas e órgãos de ajuda internacional de governos das potências industriais do Hemisfério Norte. E que, junto com as “doações”, costumam vir também as orientações quanto às linhas de ação a serem priorizadas. Desde o início dos nossos trabalhos, ainda na década de 1990, temos nos empenhado em divulgar tais fatos, os quais evidenciam a instrumentalização política de grande parte daqueles movimentos, para atuar como “tropas de choque” da agenda hegemônica das potências lideradas pelo eixo anglo-americano. O objetivo central é criar obstáculos para o pleno desenvolvimento de países como o Brasil, fomentando dissensões internas e estabelecendo limitações de soberania dos Estados sobre a utilização dos recursos naturais dos seus territórios.

Não obstante, é sempre relevante dar publicidade a contribuições de outras fontes para tal entendimento, como é o caso do artigo que reproduzimos a seguir, do economista canadense Michel Chossudovsky, professor da Universidade de Ottawa, fundador do Center for Research on Globalization (GRF) e editor do sítio Global Research, sobre os financiadores da última edição do Fórum Social Mundial (FSM), realizado em Salvador (BA), entre 13-17 de março. Desde a década passada, Chossudovsky tem sido um dos mais ativos e argutos críticos da agenda hegemônica estabelecida pelo Establishment oligárquico “globalista”. O texto original em inglês foi publicado em 28 de março.

Nos últimos anos, o FSM perdeu boa parte da vitalidade demonstrada na sua fase inicial, o que refletiu no encontro de Salvador, onde 80-90% dos participantes eram brasileiros, a presença europeia foi reduzida e a asiática, quase inexistente (Revista IHU, 28/03/2018). Ainda assim, o artigo é relevante por dissecar a sua estrutura de financiamento e controle indireto, a qual se estende a uma grande parte dos “movimentos sociais”.

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Ativismo social financiado pelo capitalismo global serve à ordem mundial neoliberal. O Fórum Social Mundial em Salvador, Brasil

Michel Chossudovsky

No Fórum Social Mundial (FSM), em Salvador, Bahia, milhares de pessoas saíram às ruas “em nome da democracia”: o movimento das mulheres, Vidas Negras Importam, ambientalistas, organizações de povos indígenas, o Movimento dos Sem Terra, organizações da juventude, estudantes, LGBT, entre outras. Como parte do 13º Fórum Social Mundial, eles marcharam com as palavras de ordem: “Resistir é criar, resistir é transformar.”

A minha pergunta é: resistir a quem?

Os líderes e organizadores do FSM, em Salvador, Brasil, estão em uma negação persistente: seguramente, eles já deveriam reconhecer que os caminhos do FSM – inclusive as despesas de viagens – são financiados pelos mesmos interesses corporativos que são objeto das disseminadas “RESISTÊNCIA” e dissensão políticas e sociais.

Que conveniente! As corporações estão financiando a dissidência, com vistas a controlar a dissensão, e os organizadores do FSM são cúmplices.

“O movimento antiglobalização se opõe a Wall Street e às gigantes petroleiras do Texas controladas por Rockefeller et alii. Porém, as fundações e organizações benemerentes de Ford, Rockefeller et alii financiam generosamente as redes anticapitalistas progressistas, bem como os ambientalistas (opostos a Wall Street e às grandes do petróleo) etc., com o objetivo de, em última análise, supervisionar e formatar as suas diversas atividades (M.C., 2016)”.

Diz-se que o FSM transformou os movimentos progressistas, ensejando o que é descrito como a emergência da “esquerda global”. Bobagem. Os movimentos progressistas reais foram esmagados, em grande medida, como resultado do financiamento da dissensão.

O que é essa esquerda global, será que ela tem um movimento de base?

Ela é grandemente constituída por “intelectuais de esquerda” e “organizadores”. Eles dizem que estão combatendo o neoliberalismo.

Mas o seu movimento do FSM é largamente financiado pelo neoliberalismo!

As pessoas que participaram no FSM não sabiam que “resistir ao capitalismo global” é financiado pelo – capitalismo global.

Elas foram enganadas pelos organizadores do FSM.

Em outras palavras, apesar do seu significado, o lema do FSM, “resistir para transformar”, na prática, é também redundante.

Na reunião de Salvador, foram contempladas “reparações coloniais”. O tema foi tratado nas oficinas sobre Reparos ao Colonialismo, na Assembleia Mundial dos Povos, Movimentos e Territórios em Resistências, e Ágora dos Futuros. Nestas atividades, participaram centenas de pessoas, muitas das quais representantes de outras organizações. Foi discutida a situação das reparações nos últimos anos, na tentativa de se identificarem ações mais promissoras para o futuro.

A quem deveriam ser encaminhadas essas exigências de reparações coloniais?

As corporações e governos ocidentais (“ex”-potências coloniais) que, generosamente, financiaram o FSM, bem como as ONGs participantes, estão rotineiramente envolvidas em um processo de destruição social neocolonial e pilhagem de recursos, para não mencionar as guerras.

Quando o FSM foi realizado em Mumbai, em 2004, o comitê organizador indiano confrontou, corajosamente, os organizadores do FSM e declinaram do apoio da Fundação Ford (que é ligada à CIA). O fato, em si, não modificou a relação do FSM com os doadores corporativos. Enquanto a Fundação Ford se retirou formalmente, outras fundações se posicionaram, junto com o Ministério de Desenvolvimento Exterior de Tony Blair.

Tornando o mundo seguro para o capitalismo

A propósito, a Fundação Ford reconhece, candidamente, o seu papel no “financiamento da resistência e da dissensão”:

Tudo o que a Fundação fez pode ser considerado como “tornar o mundo seguro para o capitalismo”, reduzindo as tensões sociais, ao ajudar a dar conforto aos afligidos, proporcionar válvulas [de escape] aos raivosos e melhorar o funcionamento do governo (McGeorge Bundy, conselheiro de Segurança Nacional dos presidentes John Kennedy e Lyndon Johnson, 1961-1966, presidente da Fundação Ford, 1966-1979).

O movimento antiguerra esteve notoriamente ausente do FSM 2018

O FSM de Salvador publicou uma declaração vazia, sob a bandeira “Contra a Militarização e as Guerras”:

Como parlamentares e representantes de forças progressistas e internacionalistas, nós estamos preocupados com o desperdício de imensos recursos na recente maré montante de militarização e na elevação dos orçamentos militares em muitos países em todo o mundo (texto integral aqui).

SIM, GUERRAS SÃO DISPENDIOSAS. Apesar de o “desperdício de recursos” ser relevante, por que não mencionar os nomes dos “muitos países” que estão ameaçando a paz mundial (ou seja, EUA, Estados membros da OTAN, Israel, Arábia Saudita)? Para não mencionar os milhões de pessoas que têm sido mortas como resultado das guerras encabeçadas pelos EUA-OTAN.

NÃO HÁ “RESISTÊNCIA” na narrativa acima citada. O texto evita, cuidadosamente, mencionar os nomes dos países que estão encabeçando essas guerras (imperiais) de conquista econômica e destruição social.

Desnecessário dizer que as vítimas dessas guerras (no Iraque, Síria, Iêmen etc.), assim como os interesses corporativos por detrás dessas guerras não são identificados.

RESISTIR não se aplica às guerras encabeçadas pelos EUA, na Síria, Iraque, Ucrânia e Iêmen. De fato, pelo programa do Fórum, pareceria que o tema das guerras encabeçadas pelos EUA-OTAN não é um objeto de debate e discussão nos simpósios do FSM.

O mosaico de oficinas do FSM

O mecanismo de “fabricação da dissensão” requer um ambiente manipulador, um processo de queda de braço e cooptação sutil de um pequeno grupo de indivíduos-chave dentro das “organizações progressistas”. De certa maneira, muitos líderes destas organizações atraiçoaram as suas bases.

O que prevalece é um mosaico de oficinas. Os ativistas sociais participantes do FSM têm sido ludibriados. Essas oficinas não ameaçam a ordem mundial imperial; elas constituem apenas um ritual de dissensão e resistência.

Em última análise, o mosaico de oficinas separadas do FSM, a relativa ausência de sessões plenárias, a criação de divisões dentro e entre os movimentos sociais, sem falar na ausência de uma plataforma coesa e unificada, servem aos interesses das elites corporativas de Wall Street, que estão financiando generosamente o FSM.

A agenda corporativa não declarada é “fabricar a dissensão”. Os “limites” da dissensão são estabelecidos pelas fundações e governos que financiam essa multimilionária expansão do FSM.

O mosaico de oficinas é imposto pelos que financiam o FSM. O formato das oficinas não constitui uma ameaça ao capitalismo global, muito pelo contrário.

O financiamento do FSM

Esta seção se baseia, em grande medida, em um artigo anterior de 2016 sobre o 12º FSM, realizado em Montreal, em 2016. Entretanto, os esquemas de financiamento referentes ao FSM de Salvador são bastante similares e dependem das mesmas entidades doadoras.

O FSM é apoiado por um consórcio de fundações corporativas agrupado sob o guarda-chuva dos Doadores Engajados para a Equidade Global (Engaged Donors for Global Equity-EDGE). Para maiores detalhes, ver Michel Chossudovsky, 2016.

Esta organização, anteriormente denominada Rede de Financiadores para o Comércio e a Globalização (The Funders Network on Trade and Globalization-FTNG), tem desempenhado um papel central no financiamento de sucessivos eventos do FSM. Desde o início, em 2001, ela tem o status de observadora no Conselho Internacional do FSM.

Em 2013, o representante do Fundo dos Irmãos Rockefeller (Rockefeller Brothers Fund), Tom Kruse, era o vice-presidente do comitê de programas da EDGE. No Fundo, Kruse era responsável pela “governança global”, no programa de “Prática Democrática”. As doações do Fundo dos Irmãos Rockefeller às ONGs são aprovadas pelo programa “Reforçando a Democracia na Governança Global”, que é, em linhas gerais, similar ao implementado pelo Departamento de Estado dos EUA.

Em 2016, um representante da Iniciativa para a Europa da Open Society tinha assento no conselho de diretores da EDGE. O Fundo Global Wallace (Wallace Global Fund-WGF) também está no conselho. O WGF é especializado em proporcionar apoio a ONGs da “corrente principal” [mainstream, no original] e à “mídia alternativa”, incluindo a Anistia Internacional, Democracy Now (que apoiou a candidatura de Hillary Clinton à presidência dos EUA.

Em um dos seus documentos-chave (2012), intitulado “Aliança de redes de financiadores de apoio a organizações de base e construção de movimentos” (o link já não está disponível), a EDGE admitia o seu apoio aos movimentos sociais que desafiam o “fundamentalismo neoliberal de mercado”, inclusive o FSM:

Desde o levante zapatista em Chiapas (1994) à Batalha de Seattle (1999) e à criação do Fórum Social Mundial em Porto Alegre (2001), os anos TINA [acrônimo de “não existe alternativa”, em inglês – n.e.] de Reagan e Thatcher foram substituídos pela convicção crescente de que “um outro mundo é possível”. Contracúpulas, campanhas globais e fóruns sociais têm sido espaços cruciais para a articulação de lutas locais, o compartilhamento de experiências e análises, desenvolver competências e construir formas concretas de solidariedade internacional entre movimentos progressistas pela justiça social, econômica e ecológica.

Mas, ao mesmo tempo, há uma contradição óbvia: um outro mundo não é possível quando as campanhas contra o neoliberalismo são financiadas por uma aliança de doadores corporativos firmemente comprometidos com o neoliberalismo e com a agenda militar dos EUA-OTAN.

Por conseguinte, os limites da dissenção social são determinados pela “estrutura de governança” do FSM, que tiveram o consentimento tácito das agências financiadoras, desde o início, em 2001.

“Sem líderes”

O FSM não tem líderes. Todos os eventos são “autoorganizados”. A estrutura de debates e ativismo é parte de um “espaço aberto” (ver Francine Mestrum, “The World Social Forum and its governance: a multi-headed monster”, CADTM, 27 April 2013,  http://cadtm.org/The-World-Social-Forum-and-its).

Essa estrutura compartimentalizada é um obstáculo para o desenvolvimento de qualquer movimento de massas significativo e articulado.

Como controlar melhor a dissenção das bases contra o capitalismo global?

Assegurem-se que os seus líderes possam ser facilmente cooptados e que as tropas não desenvolvam “formas de solidariedade internacional entre movimentos progressistas” (para usar as próprias palavras da EDGE), que possam de alguma maneira significativa prejudicar os interesses dos capitais corporativos.

O mosaico de oficinas separadas do FSM, a relativa ausência de sessões plenárias, a criação de divisões entre os movimentos sociais e dentro deles, para não mencionar a ausência de uma plataforma coesiva e unificada contra as elites corporativas de Wall Street, contra a falsa “guerra global ao terrorismo” promovida pelos EUA, que tem sido usada para justificar as “intervenções humanitárias” dos EUA-OTAN (Afeganistão, Síria, Iraque, Iêmen, Líbia, Ucrânia etc.), não representa uma dissensão legítima.

O que prevalece, em última análise, é um ritual de dissensão que não ameaça a Nova Ordem Mundial. Os integrantes das bases que comparecem aos eventos do FSM são, frequentemente, desorientados pelos seus líderes. Ativistas que não compartilham o consenso do FSM acabam sendo excluídos:

Ao proporcionar o financiamento e o arcabouço de políticas às muitas pessoas preocupadas e dedicadas que trabalham no setor sem fins lucrativos, a classe dirigente é capaz de cooptar as lideranças das comunidades de base… e de fazer os componentes de financiamento, contabilidade e avaliação serem tão dispendiosos de tempo e onerosos, que a justiça social é virtualmente impossível sob tais condições (Paul Kivel, You Call this Democracy, Who Benefits, Who Pays and Who Really Decides, 2004, p. 122).

No entanto, “um outro mundo é possível” é um conceito importante, que caracteriza a luta dos movimentos populares contrários ao capitalismo global, bem como o compromisso de milhares de ativistas.

O ativismo está sendo manipulado. Um “outro mundo possível” não será conseguido sob os auspícios do FSM, desde o seu início financiado pelo capitalismo global e organizado em estreita ligação com os seus doadores corporativos e governamentais.

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