Europa enfrenta verão de caos

Abalada pelas contradições internas do processo que converteu a União Europeia em uma instituição burocrática submissa à alta finança globalizada e à agenda estratégica da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a Europa se vê às voltas com os problemas simultâneos da falta de estadistas, as consequências das sanções impostas à Rússia e a pior seca em décadas, marcada por grandes incêndios florestais, água reduzida em rios e lagos e uma ameaça à agricultura, que se soma aos problemas no fornecimento de fertilizantes, dos quais as sancionadas Rússia e Bielorrússia são grandes fornecedoras.

Em essência, o Velho Continente experimenta um verão caótico, com problemas que tendem a agravar-se com a aproximação do inverno. A seguir, uma breve lista deles.

Escassez de estadistas

A ausência de um grande líder está levando o mundo à beira do precipício de uma grande guerra pela Ucrânia e Taiwan. A afirmativa é do ex-secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, em entrevista publicada no Wall Street Journal de 14 de agosto.

“Estamos à beira da guerra com a Rússia e a China por questões que criamos em parte, sem nenhum conceito de como isso vai acabar ou ao que vai levar”, disse ele.

Kissinger descreveu a decisão da Rússia de enviar tropas à Ucrânia como motivada pela sua própria segurança, já que a pretendida adesão da Ucrânia à OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) levaria as forças ofensivas a Aliança para uma distância de 480 quilômetros de Moscou.

Semanas atrás, Kissinger, que acaba de completar 99 anos, havia criado uma controvérsia ao sugerir que o governo do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky abandonasse algumas de suas reivindicações territoriais para encerrar o conflito com a Rússia.

E é emblemático que Kissinger tenha selecionado três europeus entre os seis líderes aos quais dedicou seu novo livro, Leadership: six studies in world strategy (Liderança: seis estudos em estratégia mundial, ainda não lançado no Brasil): o alemão Konrad Adenauer, o francês Charles de Gaulle e a britânica Margaret Thatcher (os outros são o estadunidense Richard Nixon, o egípcio Anwar Sadat e o cingapurenho Lee Kuan Yew). Até mesmo com as restrições que se possam fazer a Thatcher, deve-se admitir que, com exceção do húngaro Viktor Orbán, nenhum chefe de Estado ou de governo europeu em serviço sequer se aproxima deles.

A reduzida estatura dos homens de Estado europeus diante do acúmulo de problemas foi demonstrada pelo chanceler da União Europeia (UE), Josep Borrell, que, em entrevista ao jornal El País, os justificou como uma exigência da guerra na Ucrânia. “Os cidadãos têm que estar dispostos a pagar um preço para manter o apoio à Ucrânia e à unidade da UE. Estamos em guerra: essas coisas não são gratuitas, pois o conflito nos afeta diretamente, mesmo que nossos soldados não morram lá”, disse ele.

Grã-Bretanha: inverno de pobreza

“Sejam bem-vindos ao Reino Unido contemporâneo, onde nada funciona, tudo é caro, enquanto todos nós estamos demasiado preocupados com as discussões sobre as razões das nossas próprias confusões para encontrar quaisquer decisões.”

O lamento irônico é do jornalista Ben Wright, em sua coluna de 9 de agosto no jornal Daily Telegraph. Segundo ele, o Estado britânico deixou de funcionar de maneira normal, devido ao acúmulo de tensões causadas pela escalada de preços de energia, a onda de calor, a estagnação dos salários nos últimos dez anos, as quebras nas cadeias de suprimentos decorrentes da pandemia, a invasão da Ucrânia e, também, ao envelhecimento da população.

Uma pesquisa feita pelo jornal demonstrou que, nos últimos três anos, a polícia não conseguiu desvendar nenhum roubo em oito das dez zonas da Inglaterra e do País de Gales. Além disso, o número de pessoas na fila de espera do Serviço Nacional de Saúde subiu de 4,4 milhões, antes da pandemia, para 6,6 milhões, ao mesmo tempo em que aumenta o número de greves, inclusive de profissionais de saúde.

O lamento de Wright veio três dias depois de uma dramática advertência do ex-premier Gordon Brown em um artigo no jornal The Observer (06/08/2022), de que o governo deveria estabelecer de imediato um orçamento emergencial para enfrentar a escalada do custo de vida, sob pena de “condenar milhões de crianças e pensionistas vulneráveis e inocentes a um inverno de terrível pobreza”.

“A realidade é sombria e inegável: uma bomba-relógio financeira explodirá para as famílias em outubro, quando uma segunda rodada de aumentos de preços dos combustíveis em seis meses envia ondas de choque por todos os lares e coloca milhões no limite”, escreveu.

O prognóstico é confirmado pelo Banco da Inglaterra, para quem um terço das famílias britânicas está ameaçado de pobreza energética, gastando 10% ou mais de sua renda com energia, o que também se reflete no custo dos alimentos. “Acho que o pior está por vir… este inverno será determinante”, disse Kona Haque, da corretora ED&F.

Para complicar, a Noruega deverá reduzir a exportação de eletricidade ao Reino Unido, devido aos efeitos da seca que afeta o continente e reduziu a geração das usinas hidrelétricas responsáveis por mais de 90% da eletricidade do país.

Alemanha: convulsões sociais à vista

A Alemanha pode experimentar convulsões sociais, na medida em que o inverno se aproxima. A avaliação é de ninguém menos que Stephan Kramer, diretor do BfV, a polícia federal alemã. Em entrevista à rede de televisão ZDF, ele afirmou que as autoridades esperam protestos pela “falta de gás, problemas de energia, dificuldades de abastecimento, possível recessão, desemprego, mas também a pobreza crescente que chega até à classe média (RT, 12/08/2022)”.

Segundo ele, devido às consequências da pandemia de Covid-19 e ao impacto econômico das sanções impostas à Rússia pela UE, “estamos lidando com uma disposição na sociedade altamente emocionalizada, agressiva e pessimista quanto ao futuro, cuja confiança no Estado, suas instituições e atores políticos está carregada com dúvidas enormes. Este ânimo altamente emocional e explosivo poderá escalar facilmente”. Se isto ocorrer, disse, os protestos ocorridos durante a pandemia, “provavelmente, parecerão bricadeiras de criança”.

Há prognósticos de que um terço dos alemães de baixa renda não conseguirão pagar suas contas de energia no inverno. “É muita gente, estamos falando de milhões”, adverte o presidente da Associação Alemã de Inquilinos, Lukas Siebenkotten.

Kramer observa que, para evitar o que chama um “outono quente”, será preciso uma gestão de crise efetiva e cooperação entre as forças de todos os quadrantes do espectro político. Porém, ressalta, o mais importante para evitar tais tumultos é restaurar a confiança dos cidadãos alemães nas autoridades.

Convenhamos que essa não é uma tarefa das mais fáceis. Enquanto a população e as empresas alemãs se debatem com a alta dos custos de vida e de produção, o governo de Berlim continua se empenhando em sustentar a condição de serviçal das agendas ditadas de Washington e Bruxelas, não apenas na guerra por procuração contra a Rússia, mas agora também contra a China. Não é por outro motivo que a Força Aérea acaba de enviar uma esquadrilha de aviões de combate à Austrália via Cingapura, para manobras conjuntas. “Queremos demonstrar que podemos estar na Ásia em um dia”, disse o general Ingo Gerhartz, chefe do Estado-Maior da Luftwaffe (RT, 16/08/2022).

Bem que a revista The Economist saudou o rearmamento e o fim do “pacifismo” alemão, em uma reportagem oportunamente intitulada “A nova Alemanha”, publicada na semana passada (11/08/2022). Estarão tanto alemães como britânicos saudosos das décadas de 1930 e 1940? Ou, talvez, pensarão que os chineses ficarão apavorados com a presença da Luftwaffe na Ásia?

Em 1938, Londres apoiou o expansionismo da Alemanha hitlerista para orientá-la contra a União Soviética. Agora, deliram em usar novamente a Alemanha como aríete contra a Rússia. Pelo visto, querem ressuscitar o fantasma de Neville Chamberlain, sem o disfarce do pacifismo e sem o célebre guarda-chuva.

Todavia, pode ser que a perspectiva de uma dura realidade invernal produza uma mudança.  Na semana passada, o chanceler Olaf Scholz afirmou que o ex-chanceler Gerhard Schroeder poderia ser um intermediário “recomendável” em negociações com a Rússia sobre o fornecimento de gás. Ele é diretor da empresa que construiu o Nord Stream 2 e está processando o Parlamento alemão, que em maio retirou a verba e as prerrogativas do seu escritório de ex-chanceler, em represália pelos seus laços com a Rússia. Agora, ele volta a ser “recomendável”.

Aliás, semanas atrás, Schroeder reiterou o que seria a solução mais simples para grande parte dos problemas energéticos europeus: simplesmente, iniciar a operação do Nord Stream 2; em 24 horas, o gás estaria chegando à Alemanha e a outros países vizinhos. Mas isto parece ser pedir muito a um governo submisso como o de Scholz.

Espanha: alimentos na estratosfera

Como outros países europeus, a Espanha enfrenta uma inflação de preços de alimentos não vistos em décadas. Os indicadores mostram que 75% dos produtos alimentícios consumidos pelos espanhóis tiveram preços majorados em mais de 10%. Os aumentos, inicialmente confinados às matérias-primas, se estenderam a toda a cesta de consumo familiar. As explicações oficiais, “por supuesto”, remetem às sanções contra a Rússia e à seca.

Moldávia: lenha subsidiada

Na Moldávia, a alta dos preços do gás natural estão levando a população a recorrer à lenha e ao carvão, cujo consumo aumentou em cerca de 50%. No início de agosto, o governo de Chisinau anunciou que, no inverno, os consumidores domésticos poderão comprar lenha diretamente da agência florestal Moldsilva aos preços do ano passado, que serão subsidiados pelo governo (Moldpress, 04/08/2022).

“Famílias terão que escolher entre comer ou se aquecer”

A colunista da agência Bloomberg, Maria Tadeo, afirmou que as autoridades europeias estão tentando evitar que os cidadãos se apercebam dos perigos que rondam o próximo inverno, pelo que a maioria deles não tem uma ideia completa do que poderá ocorrer no período mais frio. Segundo ela, “é difícil até imaginar quais serão as consequências para as famílias de baixos rendimentos, que terão de escolher entre a comida e o aquecimento (Bloomberg, 12/08/2022)”.

Problemas da seca

Como se não fosse pouco, a Europa enfrenta a seca mais severa em décadas. Embora longe de ser inusitada, como trombeteiam alguns arautos do alarmismo climático, a aridez está trazendo sérias consequências, com temperaturas altas, grandes incêndios florestais, quebras de colheitas e redução dos níveis de rios importantes, como o Reno, uma das principais artérias hidroviárias do continente.

Segundo o Observatório Europeu da Seca, 47% do território da UE encontram-se em estado de “advertência” e 17 em “alerta” (RT, 12/08/2022).

Na Alemanha, o Reno está perto de ser interrompido perto de Frankfurt, o que acarretaria uma interrupção que prejudicaria enormemente o transporte de carvão e óleo diesel, além de uma série de outras mercadorias.

Na França, o serviço meteorológico Météo-France informa que se trata da pior seca no país desde 1958, quando começaram os registros. Em 5 de agosto, o governo ativou um gabinete de crise para enfrentar a situação, com 80% do território nacional submetido a restrições ao consumo de água. Segundo o ministro da Transição Ecológica, Christophe Béchu, mais de 100 municípios em todo o país estão sem água potável, que está sendo fornecida por caminhões-tanque.

Para piorar, o país enfrenta uma sucessão de grandes incêndios florestais, como o que assolou a região da Gironda na semana passada, provocando a evacuação de 10 mil pessoas.

Os incêndios florestais também atingem a Espanha, que teve o seu mês de julho mais quente desde 1961. Em várias regiões, como a Galícia, Catalunha e Andaluzia, foram impostas restrições ao consumo de água.

Na Itália, o presidente da Sociedade Meteorológica da Itália, Luca Mercalli, afirmou que a seca no país é a maior dos últimos 230 anos. O fenômeno está afetando particularmente a bacia do rio Po, no norte do país, que secou em vários trechos, na qual é colhida mais de um terço da produção agrícola italiana. Em toda a região norte, foram estabelecidas medidas de racionamento de água.

Diante da emergência, o governo da Holanda decretou uma “escassez nacional de água”. O problema já está afetando a agricultura e o transporte marítimo, segundo o ministro da Infraestrutura e Gestão de Água, Mark Harbers.

A Bélgica experimentou o mês de julho mais seco em 137 anos e restringiu o consumo de água na região da Valônia.

Na Suíça, a seca está ameaçando seriamente o setor de laticínios. Em Fribourg, Neuchatel e nos cantões de Jura e Obwalden, pastos secaram e as autoridades se viram obrigadas a usar até mesmo helicópteros militares para levar água a áreas mais distantes.

E a Inglaterra teve o seu julho mais quente desde 1935, com numerosos rios e tanques reduzidos a zero, levando o governo a decretar oficialmente a seca no Centro, Sul e Leste do país.

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