EUA: recuperação real ou novas bolhas financeiras?

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Nos EUA, retorna o medo de novas bolhas semelhantes à das hipotecas subprime, que, em 2008, foi a principal causa da eclosão da crise financeira global. Muitos empréstimos foram concedidos sem se levar em conta a capacidade de pagamento real de muitos dos tomadores. Em seguida, estes títulos foram usados ​​como base para outras operações de alto risco e para a criação de derivativos financeiros. A montanha de títulos virtuais assim criada entrou em colapso quando a proporção de inadimplência tornou-se insustentável. Agora é história.
Porém, uma situação similar está sendo recriada em vários setores da economia, incluindo as vendas de automóveis e os cartões de crédito. Também, neste caso, o precedente estadunidense aponta o caminho que, apesar de perigoso, a Europa não hesita em seguir.

Quem comprou um carro nos últimos anos, nos EUA, o fez a crédito e, assim, se tornou parte integrante da muito badalada recuperação econômica estadunidense. Ou seja, como se diz, o cavalo voltou a beber. O total de empréstimos para a compra de automóveis chegou a um trilhão de dólares. Os bancos e outros intermediários financeiros, neste caso, “empacotaram” essas dívidas em obrigações especiais vendidas no mercado, criando uma multiplicidade de diferentes instrumentos financeiros para assegurar uma cobertura de garantias para os empréstimos.

Enquanto isso, a própria mídia estadunidense começa a evidenciar que um número crescente de compradores não consegue mais pagar as parcelas de suas dívidas. Em algumas instituições financeiras, pelo menos 12% dos empréstimos feitos já registram atrasos superiores a 30 dias. De fato, em 2,6% dos casos, já foram acionados processos de recuperação judicial dos veículos.

Novamente, as agências de classificação de risco são chamadas para avaliar a qualidade desses títulos e obrigações garantidos por ativos (derivativos) emitidos pelos bancos, com base em empréstimos contraídos para a compra de carros. A Fitch Ratings informa que, nos últimos cinco anos, os títulos “empacotados” com atrasos de pagamento de 60 dias atingiram  nível de 5,16%, o mais alto em 20 anos. À luz desses dados, pode-se dizer que as vendas de automóveis não refletem a saúde real da economia estadunidense. No máximo, elas representam um acesso mais fácil ao crédito para a compra de automóveis.

Outro setor delicado parece ser o dos cartões de crédito, cujo montante de dívidas também se aproxima da marca do trilhão de dólares. Apenas no último trimestre de 2015, registrou-se uma disparada de 52 bilhões de dólares, superior ao crescimento ocorrido no triênio 2009-2011.

E, infelizmente, há também o risco de uma bolha no crédito educativo. Tratam-se de empréstimos garantidos pelo Estado, que devem ser reembolsados ​​durante a vida futura de trabalho dos que os contraíram para assegurar seus estudos universitários. O montante estimado já ultrapassa bastante a casa do trilhão de dólares e poderá atingir 3,3 trilhões, até 2024.

Naturalmente, o temor se deve ao fato de que, como nos casos anteriores, os bancos emitiram sobre esses empréstimos uma série de títulos ABS [asset-based securities, títulos baseados em ativos – n.e.], cujos valores estão estreitamente vinculados aos fluxos de caixa dos pagamentos contínuos. E a situação se agrava de tal forma que se tornou um dos temas da campanha presidencial em curso.
Na verdade, a lista poderia ser muito maior, porque existem no horizonte numerosas outras bolhas “pequenas” – na casa dos trilhões de dólares, embora não na das centenas de trilhões, como é o caso dos derivativos OTC ou “de balcão”.

Todos esses dados têm sido crescentemente avaliados e discutidos pelos responsáveis por tais setores. Dadas as reverberações que, objetivamente, as finanças globais podem acarretar nos diferentes países, seria bastante conveniente que as autoridades governamentais e de supervisão financeira, tanto nacionais como internacionais, prestassem a devida atenção a elas. A começar pela própria Itália, onde, como se sabe, o problema dos créditos em atraso e questionáveis é de primeira grandeza, pois já atinge a casa de 200 bilhões de euros.

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