EUA querem “proteger” Amazônia – ou seus produtores?

Em sua recente visita à Colômbia, o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, anunciou que seu país está preparando um acordo regional para a proteção da Amazônia. O objetivo do plano é a formação de uma “nova parceria regional focada especificamente em lidar com o desmatamento impulsionado por commodities”, fornecendo “informações” a empresas, para que possam reduzir a dependência do desmatamento, segundo informou a Folha de S. Paulo (21/10/2021).

A iniciativa deverá, também, incluir apoio financeiro para ajudar na manutenção de terras indígenas e na subsistência de pequenos agricultores.

O plano está em sintonia com o projeto da Lei Florestal 2021 (Forest Act 2021), que está em discussão no Congresso estadunidense, com o objetivo oficial de reduzir os índices de desmatamento no mundo, visando ao impedimento de importações de commodities de países com elevados índices de desmatamento e sem comprovação de que os produtos não estejam ligados ao desmatamento ilegal. Na lista, estão borracha, cacau, madeira, carne bovina, soja e óleo de palma. Como alvos primários, admitidos por um dos proponentes do projeto de lei, o deputado democrata Earl Blumenauer, o Brasil e a Indonésia, países detentores de vastas extensões de florestas tropicais.

“Temos alguns desafios reais para lidar com o Brasil… Chegará um momento em que haverá um novo governo no Brasil. Mas, enquanto isso, não podemos ignorar, pois eles estão removendo vastas áreas da Bacia Amazônica”, disse o parlamentar (Sputnik Brasil, 11/10/2021).

Seu colega do Senado, o também democrata Brian Schatz, coautor do projeto de lei, reforça: “O desmatamento continua a acelerar… É hora de usar o poder econômico e político dos Estados Unidos.”

Qualquer pessoa que tenha acompanhado a atuação dos EUA, por intermédio de órgãos governamentais como a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) e outros, em iniciativas do gênero na região, sabe que por trás delas está uma agenda nem muito disfarçada, que combina a intenção de manter toda a Amazônia como uma vasta área intocada vedada ao desenvolvimento, como uma “reserva” de recursos naturais para um futuro indefinido, com o protecionismo aos produtores estadunidenses. Recorde-se, por exemplo, da Iniciativa para Conservação da Bacia Amazônica (ABCI, na sigla em inglês), para a criação de uma rede de organizações ambientalistas e indigenistas e populações “tradicionais” dos países amazônicos, para atuar como uma força de “vigilantes” contra atividades econômicas julgadas prejudiciais à floresta – oportunamente neutralizada em 2007, pela recusa do governo brasileiro em aderir a ela, após um artigo do presidente do conselho editorial deste Alerta, Lorenzo Carrasco.

O economista Marcos Fava Neto, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em Ribeirão Preto, afirma que “por trás de parcela importante disso tem viés protecionista”. Ele observa que grande parte do crescimento da pecuária ocorre fora da Amazônia e que a área utilizada pelo setor tem diminuído nos últimos anos: “Se olharmos os últimos 30 anos a pecuária liberou 30 milhões de hectares para agricultura de grãos. A pecuária está cada vez mais eficiente e usando menos área, o que é ótimo para o nosso desenvolvimento.”

O agrônomo Glauber Silveira, vice-presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho) e presidente da Câmara Setorial da Soja, complementa, afirmando que apenas 1,3% da produção de soja ocorre dentro do bioma Amazônia e que o Brasil preserva 66,3% da sua vegetação nativa, contra apenas 19,9% nos EUA.

E enfatiza: “Não vai acabar a Floresta Amazônica. É impossível acabar porque a lei brasileira não permite… O mundo, infelizmente, está dando foco 100% na Floresta Amazônica e está perdendo o foco que é o mar. Eu me preocupo muito com a contaminação do mar. Acho que temos que preservar a Amazônia, mas para a Floresta Amazônica existem leis, ela já está protegida.”

A observação sobre a poluição marinha é das mais pertinentes, pois de fato trata-se de um dos raros problemas ambientais reais de âmbito realmente global, apesar de não contar com sequer fração da atenção conferida às vastamente exageradas e distorcidas questões referentes ao clima.

Assim como ocorreu antes com a ABCI, todo cuidado com as intenções “protetoras” de Washington será pouco.

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