EUA insistem em “cabo-de-guerra” com Rússia

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A maior dificuldade para que escreve regularmente sobre as ações dos EUA no teatro europeu é encontrar títulos não repetitivos para as notas que as descrevem, uma vez que a agenda estadunidense tem como objetivo central manter a presente escalada de provocações contra a Federação Russa em torno do conflito na Ucrânia. Com ela, os círculos belicistas que controlam a política exterior em Washington esperam que Moscou reaja de uma forma que assegure uma intervenção militar aberta e, possivelmente, um novo conflito de grandes proporções na Europa.

Não é outro o objetivo da sequência de manobras militares que as forças estadunidenses e de vários países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) têm realizado em vários países limítrofes com a Rússia. A mais recente é o exercício Tornado, iniciado na Estônia, na segunda-feira 19, envolvendo unidades estadunidenses e locais.

“Os exercícios Tornado serão os últimos antes das manobras Siil, que incluirão todas as unidades da 1ª Brigadade Infantaria dos EUA e as tropas dos países aliados da OTAN. O objetivo principal dessa atividade é simular as condições de uma guerra convencional e aumentar a nossa preparação militar”, afirmou um porta-voz do Exército estoniano (RT, 20/04/201).

Simultaneamente, na Ucrânia, tem início uma série de exercícios conjuntos entre unidades da Guarda Nacional ucraniana e 300 “assessores” das forças aerotransportadas estadunidenses. A eles deverá se juntar proximamente um efetivo ainda não determinado de policiais militares canadenses, para ajudar no treinamento das forças desegurança locais. A ironia é que tanto Washington como Ottawa não se cansam de denunciar a presença demilitares russos junto aos milicianos insurgentes do Leste da Ucrânia, embora nunca tenham apresentado evidências concretas.

Outro exemplo é a agressiva entrevista do comandante do Exército estadunidense na Europa, tenente-general Frederick “Ben” Hodges, ao Daily Telegraph de 18 de abril, na qual afirmou que a “ameaça russa” à Europa não é uma suposição, mas um “fato real”.

“Eu não acho que uma confrontação militar seja inevitável. Mas você tem que estar militarmente preparado, para permitir uma diplomacia efetiva. A melhor garantia que temos contra um confronto é que a OTAN permaneça unida”, disse ele.

Usando uma linguagem mais apropriada para um valentão de rua do que a um oficial da sua posição, Hodges disparou: “Nós não estamos mais interessados em uma luta justa com ninguém. Nós queremos ter superioridadeem todos os sistemas. Eu não acho que tenhamos ficado atrás, mas a Rússia tem preenchido a lacuna em certas capacidades. Nós não queremos que eles fechem essa lacuna.”

Entre essas lacunas, ele mencionou a capacidade de guerra eletrônica.

Enquanto Hodges disparava as suas bravatas, um seu colega de farda mais consciencioso se juntava a um alto oficial russo (ambos da reserva), para advertir sobre os riscos de que a presente escalada de tensões possa redundar em um confronto nuclear. Em um artigo publicado no New York Times de 19 de abril, o general dos Fuzileiros Navais James E. Cartwright, que foi vice-chefe do Estado-Maior Conjunto e chefe do Comando Estratégico estadunidense (responsável pelos mísseis nucleares intercontinentais), e o major-general Vladimir Dvorkin, que dirigiu o instituto de pesquisas das Forças de Mísseis Estratégicos russas, fizeram um alerta:

Nos encontramos em um ambiente estratégico crescentemente perigoso. A crise ucraniana tem ameaçado a estabilidade das relações entre a Rússia e o Ocidente, inclusive na dimensão nuclear – como ficou aparente no mês passado, quando se soube que oficiais de defesa russos aconselharam ao presidente Vladimir V. Putin que considerasse colocar em alerta o arsenal nuclear da Rússia, durante a crise na Crimeia, no ano passado. Os esforços diplomáticos têm feito pouco para aliviar essa nova tensão nuclear. Isto torna ainda mais crítico que a Rússia e os EUA conversem, para aliviar as pressões para “empregar ou perder” as forças nucleares durante uma crise e para minimizar o riscode um lançamento equivocado.

Os oficiais, que integram a Comissão Zero Global para a Redução dos Riscos Nucleares, afirmam que, além deerros de interpretação e defeitos nos sistemas de alerta, uma ação de guerra cibernética poderia deflagrar um disparo nuclear:

Para ambos os lados, a decisão de disparar em cima de um alerta – em uma tentativa de lançar os seus próprios mísseis antes que eles sejam destruídos – seria tomada sobre a base de informações desatélites de alerta antecipado e radares terrestres. Dados os 15 a 30 minutos de voo dos mísseis estratégicos, a decisão de disparar após um alerta de um aparente ataque deve ser tomada emminutos. Por conseguinte, este é o cenário de maior risco, uma vez que provocações ou defeitos podem deflagrar uma catástrofe global. Desde que sistemas de informações baseados emcomputadores foram instalados, a probabilidade de tais erros tem sido minimizada. Mas a emergênciade ameaças de guerra cibernética aumentou o potencial para alertas falsos nos sistemas de alerta antecipado. E a possibilidade de um erro não pode ser descartada.

Adiante, dizem eles:

Esse risco deveria motivar os presidentes da Rússia e dos EUA a decidirem em conjunto a eliminação do conceito de lançamento-ao-sinal-de-alerta das suas estratégias nucleares. Eles deveriam reinstituir as conversas diretas entre os seus militares, que foram suspensas devido à crise na Ucrânia, para buscar esse desarme como uma prioridade urgente. (Uma decisão conjunta a respeito não desestabilizaria a deterrência nuclear: ambos os países ainda têm forças nucleares projetadas para suportar um primeiro ataque e garantir ataques retaliatórios.) (…)

Em períodos de tensões aumentadas e prazos de decisões reduzidos, aumenta a probabilidade deerros humanos e técnicos nos sistemas de controle. O lançamento-ao-sinal-de-alerta é uma relíquia das estratégias da Guerra Fria, cujo risco atual excede em muito o seu valor real. Os nossos líderes necessitam conversar urgentemente e, esperamos, concordar em descartar esse protocolo obsoleto, antes que ocorra um erro devastador.

Cartwright e Dvorkin estão longe de ser os únicos a manifestar tais preocupações, no atual ambiente de escaladade tensões majoritariamente provocadas pelos piromaníacos de Washington. Para numerosos observadores, o risco de ocorrência de um tiroteio nuclear é ainda maior que no período da Guerra Fria. Um deles é Theodore A. Postol, professor de Ciência, Tecnologia e Segurança Internacional no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), para quem as condições técnicas, a instabilidade política e as tensões geopolíticas geram um perigo maiorde guerra nuclear acidental entre os EUA e a Rússia (vide uma recente palestra dele).

O Prof. Postol não mencionou, mas deveria ter incluído na lista a inexistência, no Ocidente, de qualquer estadistade estatura comparável aos que estavam em serviço durante a Guerra Fria – como John F. Kennedy, Charles deGaulle, Harold MacMillan, Alcide de Gasperi, Konrad Adenauer e outros.

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