EUA (e quinta-colunas brasileiros) assestam artilharia pesada contra Amazônia

A anunciada campanha estadunidense de pressões políticas sobre o Brasil, motivada pela alegada incapacidade nacional de proteger adequadamente o bioma Amazônia e seus habitantes (em especial, os indígenas), começa a se delinear de forma ostensiva. Além das manifestações prévias dos seus dois titulares, o presidente Joe Biden e a vice-presidente Kamala Harris, o governo de Washington recebeu nos últimos dias reforços importantes, com sugestões de pautas para a confrontação com o grande “vilão ambiental” sul-americano.

A primeira proposta veio de um grupo denominado Climate Principals (algo como Dirigentes Climáticos, em tradução livre), cujos integrantes se apresentam como “ex-funcionários de gabinete e altos negociadores climáticos, que representaram administrações democratas e republicanas em política climática global por quase três décadas, da Cúpula da Terra do Rio de 1992 ao Acordo de Paris de 2015 e além dele”.

Todos são veteranos integrantes do aparato ambientalista internacional em várias capacidades: o ex-governador do Arizona e ex-secretário do Interior Bruce Babbitt (atual curador do WWF-EUA); o diplomata e ex-vice-secretário do Tesouro Stuart Eizenstat; o diplomata Frank Loy, ex-diretor da ONG Nature Conservancy e fundador da Climate Speakers Network (depois absorvida pelo Climate Reality Project, do ex-vice-presidente Al Gore); o ex-diretor da Agência de Proteção Ambiental (EPA), William Reilly; o advogado Todd Stern, ex-enviado especial da Presidência para Mudanças Climáticas; o ex-senador e ex-subsecretário de Estado para Assuntos Globais Tim Wirth; e Christine Whitman, ex-governadora de Nova Jérsei e ex-diretora da EPA.

O plano tem um título ambicioso: “Plano de Proteção da Amazônia – Recomendações para ação dos EUA para as florestas amazônicas” (em inglês no sítio).

Os autores “endossam o compromisso de Biden-Harris de mobilizar 20 bilhões de dólares para proteger a floresta amazônica, que está desaparecendo a uma taxa alarmante e é crítica para o sistema climático, a saúde pública, os direitos humanos e a biodiversidade, por uma série de razões”. Em seguida, listam as tais “razões”:

– A Amazônia detém mais carbono do que o mundo emite em muitos anos; a liberação deste carbono na atmosfera deflagraria consequências climáticas catastróficas.

– Hoje, as emissões do desmatamento da Amazônia são uma importante fonte de poluição do clima [sic], ao par com as grandes economias, como o Japão e a Alemanha.

– A Amazônia regula os padrões de chuvas em áreas agrícolas globalmente importantes, tanto na América do Sul como nos EUA.

– O desmatamento da Amazônia arrisca deflagrar uma nova pandemia global, uma vez que uma maioria das novas doenças infecciosas emerge na fronteira da floresta, onde pessoas e vida selvagem colidem.

– A Amazônia é a região mais biodiversa da Terra.

– A conservação da floresta tropical goza de grande apoio do público e da comunidade de negócios estadunidenses, bem como de apoio bipartidário no Congresso. (…)

Como se percebe, o documento segue o padrão invariável dos “estudos” motivados pelo catastrofismo ambientalista, com formulações imprecisas (“emite em muitos anos”; “poluição do clima”) e afirmativas sem base científica, mas de grande impacto psicossocial. Por exemplo, todos os estudos sobre supostos efeitos do desmatamento do bioma Amazônia (quase todo situado no Hemisfério Sul) sobre os padrões de chuvas na América do Norte, não passam de exercícios de modelagem matemática baseados em algoritmos semelhantes aos modelos de clima que preveem uma catástrofe climática para as próximas décadas.

(Uma avaliação sumária dos principais argumentos alarmistas sobre o bioma Amazônia pode ser vista nos links a seguir, em português e em inglês.)

As recomendações se agrupam em quatro linhas gerais:

1) Financiamento público e privado: Basicamente, propõem uma comunhão de esforços entre a Casa Branca e grandes empresas estadunidenses, para a implementação de um vasto programa de “financeirização” das reduções das emissões de carbono provenientes da Floresta Amazônica, inclusive, com o recurso às antigas “trocas de dívida por natureza” (debt-for-nature swaps), antiga pretensão do aparato ambientalista, que nunca foi plenamente implementada. Em paralelo, sugerem que os programas de ajuda da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e os financiamentos de entidades multilaterais, como o Banco Mundial, sejam orientados para o “apoio à conservação e restauração florestais e ao desenvolvimento sustentável amigável ao clima na região amazônica”. Entre as medidas necessárias, apontam o condicionamento dos desembolsos aos resultados obtidos e o reforço ao direito dos povos indígenas às suas terras.

2) Comércio amigável à floresta (Forest-Friendly Trade): Em essência, propõem uma harmonização da política comercial estadunidense com a política climática para a Amazônia. Uma das recomendações chega a ser ultrajante: “Aumentar o financiamento para a aplicação da Lei Lacey [de 1900, referente à proibição de comercialização de produtos florestais ilegais], da Lei de Práticas Corruptas Estrangeiras e outras leis que combatem crimes florestais no exterior.” Na prática, os signatários propõem nada menos do que a extensão de leis estadunidenses ao exterior, como tem sido feito em várias oportunidades políticas de interesse do governo de plantão.

3) Cadeias de abastecimento transparentes e limpas: Trata-se de um aprofundamento das campanhas do aparato ambientalista-indigenista junto às grandes multinacionais que operam na exportação de commodities brasileiras, engajando o governo federal estadunidense, para vincular produtores e exportadores aos critérios “antidesmatamento” estabelecidos pelas ONGs do aparato.

4) Diplomacia robusta: Sugestão autoexplicativa. Como Biden já afirmou que o Brasil experimentaria “consequências econômicas significativas”, se não se empenhasse em deter a “devastação” da floresta – como fez em seu único debate eleitoral com o então presidente Donald Trump (Valor Econômico, 29/09/2020) -, os “Principals” estão malhando em ferro quente.

Quase simultaneamente com o documento dos “Principals”, Biden-Harris receberam um bizarro dossiê de 31 páginas elaborado pela U.S. Network for Democracy in Brazil, rede de acadêmicos e ativistas políticos brasileiros residentes nos EUA, recomendando uma série de medidas punitivas contra o País, entre elas, a restrição de importações de madeira, soja e carne do Brasil, “a menos que se possa confirmar que as importações não estão vinculadas ao desmatamento ou abusos dos direitos humanos” (BBC Brasil, 03/02/2021).

O documento é encossado por mais de 100 acadêmicos de várias universidades e por ONGs do aparato ambientalista-indigenista, como Greenpeace, Amazon Watch, Friends of the Earth e Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB).

O texto ataca de forma contundente o presidente Jair Bolsonaro, afirmando: “Os EUA têm obrigação moral e interesse prático em se opor a uma série de iniciativas da atual presidência do Brasil. A recente ‘relação especial’ entre os dois países por meio da ampliação de relações comerciais e ajuda militar possibilitou violações dos direitos humanos e ambientais e protegeu Bolsonaro de consequências internacionais (grifos nossos).”

Independentemente das divergências que se possam ter com o chefe de Estado do seu país de origem, afirmar que uma potência estrangeira tem a “obrigação moral” de se opor a ele é uma linguagem mais apropriada a um panfleto político de uma quinta-coluna política do que de um texto elaborado por acadêmicos com capacidade para trabalhar ou estudar em uma economia avançada. Tal atitude denota a reduzida estatura ética dos que arvoram-se em fazer recomendações que mais se assemelham a um ato de traição nacional (quiçá, seria interessante que aproveitassem o novo ambiente nos EUA e solicitassem a sua naturalização ao país que consideram qualificado para exercer um papel “moral” de gendarme internacional).

A campanha está se acirrando – urgem os preparativos para se enfrentá-la adequadamente.

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