EUA: contrainformação venenosa

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O Jornal Nacional de 8 de julho informou que o governo dos EUA entregou ao Brasil 538 documentos guardados no seu Arquivo Nacional, que mostram o conhecimento quase simultâneo que as autoridades de Washington tinham sobre as ações repressivas do governo militar brasileiro (1964-1985) contra os opositores que pegaram em armas contra o regime. Tratam-se de telegramas, memorandos e relatórios do Departamento de Estado e das representações diplomáticas estadunidenses no País.

http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2015/07/brasil-recebe-novos-documentos-sobre-relacao-dos-eua-com-ditadura.html

Um deles revela que os EUA souberam da morte do ex-deputado Rubens Paiva em fevereiro de 1971, um mês após a sua prisão, no Rio de Janeiro (RJ). A morte de Paiva só foi reconhecida oficialmente em 2012.

Entrevistado pela reportagem, o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante (que, aparentemente, tem bastante folga na agenda para agir como caixa de ressonância de uma iniciativa um tanto questionável) afirmou:

O que nós temos aqui são informações muito substantivas que os órgãos de estado, da segurança americana, tinham sobre o aparelho repressivo da ditadura militar no Brasil. Eles sabiam das torturas, de quem tinha sido morto, de quem estava desaparecido, quase que em tempo real e, no entanto, nem essas famílias souberam, nem o Brasil soube, durante todo esse período. Só agora estamos tendo acesso a essas informações.

O episódio deixa no ar duas reflexões relevantes para o momento atual.

Uma é a constatação adicional de que a enorme capacidade de penetração das redes de inteligência estadunidenses no Brasil vem de longa data. Não que isso precisasse de mais evidências. Recorde-se que, em 2011, o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), entidade que integra tais redes, entregou ao então Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, milhares de documentos referentes aos processos estabelecidos contra opositores do regime militar, para apoiar o trabalho da Comissão Nacional da Verdade (CNV). Muitos destes documentos haviam sido copiados clandestinamente dos arquivos militares, como admitia o próprio boletim de imprensa divulgado pelo CMI, na ocasião.

Mais recentemente, as revelações do ex-analista Edward Snowden escancararam a facilidade com que a Agência de Segurança Nacional (NSA) é capaz de interceptar as comunicações do governo e de grandes empresas estratégicas brasileiras. De alguma forma, a despeito da inércia que constitui uma marca registrada nacional na adoção de respostas a tais desafios, o País terá que levar a sério a ameaça.

A segunda reflexão é uma pergunta que fica no ar: por que tais documentos não haviam sido liberados antes, já que, aparentemente, não envolvem qualquer ameaça à “segurança nacional” dos EUA, pretexto habitual para a classificação desse tipo de documentação?

Como os irmãos do Norte não dão ponto sem nó, podemos especular.

Em 2011, a iniciativa do CMI teve a clara finalidade de apoiar a CNV em sua tarefa revanchista de fustigar as Forças Armadas brasileiras. Agora, a divulgação dos documentos parece ser uma pouco sutil tentativa de acirramento de ânimos contra os militares, no quadro de um processo de aprofundamento das já acentuadas divisões internas na sociedade brasileira, em um momento de turbulências em que o País necessita preservar todos os fatores de estabilidade interna, aí incluídos os sempre elevados níveis de confiabilidade popular nas suas instituições militares, que têm resistido a todos os desafios.

Não parece coincidência que isso tenha ocorrido em meio a uma insólita – e perigosa – combinação de crise política com recessão econômica, além de um processo de investigação cujos excessos estão, visivelmente, colocando em risco a existência de algumas das maiores empresas nacionais (vide o artigo de Mauro Santayana neste sítio https://msiainforma.org/espanol-a-operacao-lava-jato-a-defesa-nacional-a-contra-informacao-e-a-espionagem/ ).

Portanto, é preciso manter os olhos bem abertos.

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