Pentágono ameaça China e Rússia

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Reza um velho ditado que não se podem ensinar truques novos a um cachorro velho – ainda mais quando ele é o “cachorrão”, o “macho alfa” da matilha. Este parece ser o caso do Pentágono, um dos centros do poder nos EUA e um dos principais focos da instabilidade e do caos que se espalhou pelo planeta, nas últimas décadas. Habituado a impor a sua agenda hegemônica sem contestação, desde o final da Guerra Fria, o Departamento de Defesa (sic), que funciona como o centro nevrálgico do hiperatrofiado “complexo de segurança nacional” estadunidense, é o principal vetor de uma dinâmica de projeção de hegemonia que, há tempos, ganhou vida própria e quase sempre consegue impor a sua agenda à direção da política exterior de Washington, independentemente da determinação do eventual ocupante da Casa Branca. Por isso, qualquer ação externa que se oponha aos desígnios dos seus estrategistas é prontamente considerada como uma ameaça existencial.
Não é segredo para ninguém o desconforto com que os militaristas de Washington veem a crescente assertividade da Federação Russa e da China no cenário global, com suas iniciativas que visam a criação de um cenário mais cooperativo do que confrontacional, para fomentar uma agenda favorável a uma mais que necessária e urgente retomada do desenvolvimento socioeconômico em escala mundial ou, pelo menos, no eixo eurasiático, com possíveis ramificações para outras áreas do planeta. Para os estrategistas estadunidenses, que comandam a máquina militar e de propaganda mais poderosa de todos os tempos, com a consequente influência determinante na visão do mundo de grande parte dos estratos educados da maior parte dos países, tal quadro constitui uma ameaça existencial, pelo simples fato de não ser submetido aos seus desígnios e à sua agenda de dominação, baseada no “excepcionalismo estadunidense”.
Assim, não surpreende o constante fluxo de ameaças nos mais diversos níveis – algumas veladas, outras abertas – que tem jorrado dos porta-vozes do “complexo de segurança nacional”, em especial, após o início da intervenção militar russa na Síria, cujos primeiros resultados consistentes começam a aparecer (ver a seguinte nota). A mais recente partiu do próprio secretário de Defesa Ashton Carter e reflete, não apenas a contrariedade daqueles altos círculos com a situação, como as suas intenções de resistir ao que consideram um desafio à sua supremacia.
Em um discurso proferido na Biblioteca Presidencial Ronald Reagan, sobre “Inovação estratégica e operacional em uma época de transição e turbulências”, em 7 de novembro, Carter não poupou munição em suas salvas de artilharia contra as duas potências que ousam contestar a supremacia estadunidense. A seguir, vejamos os trechos cruciais do discurso:

As estratégias inovadoras e planos operacionais de que precisamos, nesta encruzilhada histórica, sustentam os mesmos objetivos: defender os EUA e reforçar a ordem internacional baseada em princípios, que tem servido bem aos EUA, aos nossos muitos amigos e aliados – e, sim – se pensarem a respeito, à Rússia, à China e a muitos outros países, durante décadas.
Os princípios que servem como base para essa ordem – incluindo a resolução pacífica de disputas [sic], liberdade da coerção [sic], respeito pela soberania do Estado [sic], liberdade de navegação e sobrevoo [para aeronaves civis] – não são abstrações, nem estão sujeitas aos caprichos de qualquer país [sic]. Eles não são privilégios a ser concedidos ou retirados. Eles fazem sentido, porque têm funcionado durante décadas. Eles têm ajudado a manter a paz, retirar mais de um bilhão [de pessoas] da pobreza e dar às pessoas maior voz em seus próprios assuntos.

Um extraterrestre recém-chegado ao planeta, reunindo informações para um relatório aos seus superiores sobre o perigoso momento da Terra, poderia até se impressionar com o discurso e pensar que o Pentágono seria o grande guardião de valores como a resolução pacífica de disputas, a liberdade da coerção e, principalmente, o respeito à soberania dos Estados nacionais da Terra. No entanto, uma revisão perfunctória da atuação dos EUA no cenário mundial pós-II Guerra Mundial mostraria uma realidade diametralmente oposta, bem conhecida das dúzias de povos de países atacados e/ou invadidos pelas forças militares estadunidenses, nas últimas sete décadas. Mas sigamos com Carter:

O nosso apoio a esses princípios e à ordem baseada neles é uma razão pela qual nós temos tantos amigos, aliados e parceiros em todo o mundo. Como Reagan sabia, eles são atraídos para nós, por causa da atração gravitacional dos valores do nosso país. Porque os nossos antagonistas e competidores empurram muitos Estados contra nós. Mas também, porque, no nível mais elementar e humano, as nossas tropas são parceiros atrativos, eles atuam e se conduzem admiravelmente. Eu vejo isto e ouço isto de líderes estrangeiros em todo o mundo. Elas nos deixam orgulhosos.
A despeito desse apelo disseminado, alguns atores parecem estar empenhados em erodir esses princípios e em solapar a ordem internacional que eles ajudam a implementar. Elementos terroristas como o ISIL [outra sigla do Estado Islâmico], é claro, se opoem diretamente aos nossos valores. Mas outros desafios são mais complicados e, devido ao seu tamanho e capacidades, potencialmente mais prejudiciais.
A Rússia parece pretender bancar a estraga-prazeres, desrespeitando esses princípios e a comunidade internacional [sic]. Ao mesmo tempo, a China é uma potência ascendente e com ambições crescentes em seus objetivos e capacidades. É claro que nem a Rússia nem a China podem anular essa ordem, dados a sua resiliência e poder de permanência. Mas ambas apresentam desafios diferentes para ela.
Os EUA e os homens e mulheres do Departamento de Defesa conhecem o bem que uma ordem internacional baseada em princípios tem feito e continuará fazendo. Mas, em face das provocações da Rússia [sic] e da ascensão  da China, nós devemos abraçar abordagens inovadoras para proteger os EUA e reforçar a ordem internacional.

A essa altura do discurso, com algum dispositivo semelhante aos nossos smartphones, o visitante acessaria um buscador para verificar quantos países foram invadidos ou atacados unilateralmente pela Federação Russa e pela China, desde o final da Guerra Fria. O resultado seria rigorosamente nulo, em contraste com a lista de alvos dos “homens e mulheres do Departamento de Defesa”: Iraque (duas vezes), Somália, Sérvia, Afeganistão, Paquistão, Iêmen, Líbia e Síria. Isto sem mencionar operações militares menores em países africanos e os gigantescos exercícios militares da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ostensivamente voltados contra a Rússia, como o Trident Juncture 2015, o maior da organização em dez anos, envolvendo 36 mil homens, 230 unidades militares, 140 aviões e mais de 60 navios, simulando desembarques e outras operações, na Espanha, Portugal e Itália. Curiosa – ou sintomaticamente – as manobras envolveram sete países não integrantes da OTAN – Austrália, Ucrânia, Áustria, Suécia, Finlândia, Bósnia-Herzegovina e Macedônia (além da Cruz Vermelha Internacional e da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional-USAID).
Voltando ao secretário, as suas queixas foram seguindas por um endurecimento de voz:

Na Europa, a Rússia tem violado as soberanias, na Ucrânia e na Geórgia [sic], e tentado ativamente intimidar os Estados Bálticos. Ao mesmo tempo, na Síria, a Rússia está atirando gasolina em um fogo já perigoso, prolongando uma guerra civil que alimenta o próprio extremismo ao qual a Rússia diz se opor. (…)
Nós não buscamos uma guerra fria e, muito menos, quente, com a Rússia. Nós não buscamos fazer da Rússia um inimigo. Mas não se enganem: os EUA defenderão os nossos interesses e os nossos aliados, a ordem internacional baeada em princípios e o futuro positivo que ela proporciona a todos nós.
Nós estamos assumindo uma posição forte e equilibrada para deter a agressão russa e ajudar a reduzir a vulnerabilidade de aliados e parceiros.

Cada vez mais confuso, o visitante procuraria informar-se sobre a alegada violação de soberania da Geórgia pelos agressivos russos, já sabendo que não há qualquer evidência de que algo semelhante tenha ocorrido no presente conflito na Ucrânia. Na Internet, cncontrou, entre muitas outras análises, esta breve síntese escrita em 2013 pelo economista Paul Craig Roberts, ex-subsecretário do Tesouro do Governo Reagan (tão elogiado pelo secretário Carter) e, portanto, insuspeito de parcialidade contra o seu próprio país:

Foi há cinco anos que o presidente da Geórgia, Mihail Saakashvili, que foi colocado nopoder pela “Revolução Rosa” apoiada por Washington, lançou uma invasão militar da Ossétia do Sul, uma província desgarrada do seu próprio governo. O ataque georgiano matou militares de uma força de paz russa e numerosos ossetianos. A resposta militar russa esmagou o Exército georgiano, treinado e equipado pelos EUA, em cinco dias, para o embaraço de Saakashvili e seus patrocinadores de Washington.
Washington começou a treinar e equipar os militares georgianos em 2002, e continua a realizar exercícios militares com a Geórgia. Em março e abril deste ano, os EUA, novamente, realizaram exercícios conjuntos com a Geórgia. Washington está trabalhando para ver a Geórgia admitida como membro da OTAN. A maioria dos analistas considera improvável que Saakashvili, por si mesmo, poderia violar o acordo de paz e atacar as tropas russas. Com certeza, a agressão teria sido aprovada pelos seus patrocinadores de Washington.

Deixando para depois a tarefa de entender o significado de suas palavras, o ET se concentraria na proposta do secretário para se contrapor à alegada “ameaça”:

Nós estamos adaptando a nossa postura operacional e os planos de contingência, na medida em que – por nossa conta e com aliados – trabalhamos para impedir a agressão russa e ajudar a reduzir a vulnerabilidade de aliados e parceiros. (…) Estamos modernizando o nosso arsenal nuclear, de modo que o deterrente nuclear dos EUA continue a ser efetivo, confiável e seguro, para impedir ataques nucleares e tranquilizar os nossos aliados.
Estamos investindo em tecnologias que são particularmente relevantes para as provocações russas [sic], tais como novos sistemas não tripulados, um novo bombardeiro de longo alcance e inovações em tecnologias como o canhão eletromagnético, lasers e novos sistemas para guerra eletrônica, espacial e ciberespacial, incluindo algumas surpresas que não posso descrever aqui. Estamos atualizando e melhorando os nossos planos operacionais para a deterrência e a defesa, em vista da mundança de comportamento da Rússia.

Finalmente, percebendo a natureza sofismática da retórica do secretário Carter, o visitante entenderia que a “mudança de comportamento da Rússia” se referia ao abandono da atitude anterior de Moscou, demonstrada, por exemplo, na crise da Líbia, em 2011. Na ocasião, o Kremlin preferiu não vetar a resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas que estabeleceu uma “zona de interdição aérea” sobre o país, a qual serviria de pretexto para a devastadora operação aérea da OTAN, que abriu caminho para a derrocada e o assassinato do líder líbio Muamar Kadafi e a posterior transformação do país no atual inferno de lutas de facções islamistas e plataforma de exportação de jihadistas dispostos a lutar em outros países, como na Síria.
A sofisticação tecnológica dos sistemas de armas citados pelo chefe do Pentágono não seria novidade para o hipotético visitante (apesar de alguns deles, aparentemente, se basearem em princípios físicos avançados semelhantes aos já dominados pela sua civilização). Porém, quanto às lideranças responsáveis do restante do planeta, é de todo conveniente que prestem a devida atenção, não só na delirante agenda dos belicistas estadunidenses, indicada pelo secretário Carter, como nos recursos tecnológicos que estão desenvolvendo, cujos impactos nas estratégias e táticas militares deverão ser consideráveis – bem como os de muitos dos seus subprodutos para a indústria civil.

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