E lá vamos nós outra vez, com o Dia da Sobrecarga da Terra…

Sempre atento aos grandes problemas globais – ou, pelo menos, àqueles criados por ele próprio –, o aparato ambientalista-indigenista internacional voltou a assombrar os incautos do planeta com a sua patranha pseudocientífica, o Dia da Sobrecarga da Terra.

Para quem o desconhece, é a data hipotética em que a humanidade “esgotaria” a capacidade anual de renovação dos recursos naturais à sua disposição no planeta. Ou seja, segundo os criadores do conceito, até o final do ano, estaríamos comendo a nossa “poupança” natural, devido a um estilo de vida insustentável na média global. De acordo com semelhante bizarrice, a sustentação do atual nível de vida da população mundial necessitaria de 1,7 planeta como a Terra.

Segundo o WWF-Brasil, este ano, a data caiu em 29 de julho, a mesma de 2019, depois de um recuo para 22 de agosto em 2020, devido à retração econômica ocasionada pela pandemia de Covid-19. De acordo com a ONG:

Nesse ano gastamos os recursos que a Terra é capaz de renovar três semanas mais cedo do que em 2020. Em 2019 era necessário 1,75 planeta para sustentar nosso padrão de consumo. Em 2020, com a pandemia, esse número caiu para 1,6, de acordo com a GFN (Global Footprint Network), organização internacional responsável pelo cálculo. Agora o número voltou a subir: precisamos de 1,7 planeta (WWF-Brasil, 29/07/2021).

Para o Brasil, as notícias são ainda mais sombrias:

Infelizmente, a data brasileira aconteceu dois dias antes do dia global. Além disso, o Brasil ganhou destaque negativo nesse processo. Em 2020, por causa da pandemia, os modos de vida e de produção foram forçados a parar e, mesmo assim, o país atingiu recordes de desmatamento e queimadas. O aumento do desmatamento (43% maior que em 2020, quando 1,1 milhão de hectares foram destruídos) e a degradação da Amazônia na biocapacidade florestal mundial (estimada em 0,5%) foram dois dos motivos para a data, mesmo com a pandemia, se adiantar.

Vejamos uma definição mais precisa do conceito, pelo WWF-Brasil:

A Pegada Ecológica é uma metodologia de contabilidade ambiental que avalia a pressão do consumo das populações humanas sobre os recursos naturais. Expressada em hectares globais (gha), permite comparar diferentes padrões de consumo e verificar se estão dentro da capacidade ecológica do planeta. Um hectare global significa um hectare de produtividade média mundial para terras e águas produtivas em um ano. Já a biocapacidade, representa a capacidade dos ecossistemas em produzir recursos úteis e absorver os resíduos gerados pelo ser humano. Sendo assim, a Pegada Ecológica contabiliza os recursos naturais biológicos renováveis (grãos e vegetais, carne, peixes, madeira e fibras, energia renovável etc.), segmentados em Agricultura, Pastagens, Florestas, Pesca, Área Construída e Energia e Absorção de Dióxido de Carbono (CO2).

A ideia foi apresentada na década de 1990 pelo ecólogo canadense William E. Rees e seu aluno, o suíço Mathis Wackernagel. Para difundi-la, Rees fundou a Sociedade Canadense de Economia Ecológica (Canadian Society for Ecological Economics), tornou-se pesquisador do Instituto Pós-Carbono (Post Carbon Institute) e do Projeto Integridade Global (Global Integrity Project) e assessor da Rede de Capacidade de Suporte (Carrying Capacity Network), entidade estadunidense abertamente racista, que promove o controle de população e uma dura repressão à imigração, principalmente, de países hispânicos.

Em 2003, Wackernagel e a engenheira ambiental estadunidense Susan Burns criaram a Global Footprint Network (GFN – Rede de Pegada Global), sediada em Oakland, EUA, com filiais em Genebra, Suíça, e Bruxelas, Bélgica. A GFN é especializada em calcular as “pegadas ecológicas” para toda a humanidade, numa escala que vai do planeta inteiro até pessoas individuais, passando por países, cidades, bairros e até empresas privadas, e a medição das “pegadas” tornou-se uma atividade lucrativa. O Dia de Sobrecarga da Terra foi criado para popularizar o conceito, sendo divulgado anualmente.

A primeira data para o dia do apocalipse ambiental, calculada retroativamente, foi estabelecida para 1987, tendo caído em 19 de dezembro. Desde então, a data foi recuando rapidamente até 29 de julho, o que, em tese, sugeriria uma deterioração fulminante da alegada capacidade de recuperação do planeta.

“Faltando ainda meio ano, já esgotamos a nossa cota de recursos naturais da Terra para 2021”, alerta a conselheira da GFN, Susan Aitken.

Por sua vez, Helio Mattar, diretor-presidente do Instituto Akatu, ONG paulista que promove o consumo sustentável, diz que a data precisa ser levada a sério por todos: “O adiantamento do Dia da Sobrecarga da Terra de 2021 ilustra a importância das ações coletivas e a urgência na revisão dos nossos modelos de produção e consumo. A recuperação econômica global frente ao coronavírus precisa levar em conta aspectos socioambientais e oferecer respostas à crise climática (Plurale, 29/07/2021).”

O instituto oferece conselhos sobre como se pode contribuir para adiar o Dia da Sobrecarga da Terra: reduzir o consumo de carne; evitar o desperdício de alimentos; dar preferência a meios de transporte sem emissões; e simplificar os guarda-roupas individuais.

O leitor interessado pode calcular a sua Pegada Ecológica com um aplicativo desenvolvido pelo WWF-Brasil, no link http://www.pegadaecologica.org.br/. Este autor fez o teste e obteve o resultado de que 1,9 planeta seria necessário se toda a população  mundial tivesse o mesmo nível de vida. Em 2017, o mesmo teste obteve a marca bizarra de 4,5 planetas. A grande diferença entre os dois valores se explica pela ausência de viagens aéreas nos últimos 12 meses e a redução dos deslocamentos entre casa e trabalho, devido à pandemia, já que o cálculo da “pegada” é fortemente dependente da geração de carbono (cerca de 70%). Por si só, este fato aponta para a falta de rigor científico do conceito, pois parte do falacioso princípio de que o sexto elemento da Tabela Periódica seja um “poluente ambiental”.

A propósito, o autor informa aos leitores que o seu estilo de vida é o de um cidadão de classe média, residente em uma casa de vila comum na Zona Norte do Rio de Janeiro, onde vivem duas pessoas, dispondo dos eletrodomésticos e equipamentos eletrônicos geralmente encontrados na maioria dos lares brasileiros, gerando uma quantidade de lixo compatível, além de percorrer cerca de 100 quilômetros por semana num automóvel de motor 1.0, sendo usuário frequente do metrô e não tendo voado desde o início da pandemia.

Ou seja, um nível de vida que está distante de constituir um privilégio, mas deveria estar minimamente ao alcance de qualquer família integrante da grande maioria empobrecida da população mundial. Se isto exige 1,7 Terra para se sustentar, parece evidente que há algo muito equivocado na concepção da “Pegada Ecológica”.

Ademais, a falácia de composição do conceito fica evidente na sugestão de que desde 29 de julho, estaria raspando a sua “poupança natural”. Estendendo-se a analogia, é fácil perceber que, se assim fosse, em apenas três anos, o planeta veria inteiramente esgotada a capacidade de regeneração dos seus sistemas naturais (experimente o leitor retirar 40% de uma poupança em um ano, seguida de retiradas de quantidades semelhantes, nos anos seguintes).

Como a GFN vem fazendo o cálculo do “dia da sobrecarga” desde 2003 e, até hoje, o apocalipse ambiental não chegou, a conclusão é que a “pegada” não passa de mais uma das incontáveis falácias com as quais o aparato ambientalista-indigenista tem procurado impor ao mundo a sua agenda neomalthusiana de restrições ao desenvolvimento socioeconômico, principalmente, dos países que buscam superar o seu subdesenvolvimento.

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