Diplomacia amazônica enfrenta resistência de procônsules “verdes”

A visita de diplomatas de dez países à Amazônia, conduzida pelo vice-presidente Hamilton Mourão, realizada entre 4-6 de novembro (Alerta Científico e Ambiental, 05/11/2020), recebeu uma divulgação midiática que ressaltou, preferencialmente, as posições críticas e as cobranças de alguns dos representantes estrangeiros, além de criticar o roteiro selecionado, nos estados do Amazonas e Roraima.

A reportagem do G1 (09/11/2020) preferiu destacar a posição do embaixador alemão Heiko Thoms, inclusive na manchete: “Amazônia: embaixador alemão vê ‘boas intenções’, mas pede plano ‘concreto’ contra desmatamento.”

Com uma linguagem mais própria de um procônsul (ou Gauleiter), o diplomata pontificou: “O que precisamos agora – e nós dissemos aos ministros e ao vice-presidente – é de um plano de longo prazo para combater o desmatamento ilegal, com medidas e prazos concretos e com objetivos claros. Precisamos ter os números exatos de onde o Brasil quer ir e para que patamar o governo brasileiro quer reduzir o desmatamento.”

Apesar disso, em entrevista à Gazeta do Povo (11/11/2020), ele admitiu que a viagem foi uma “oportunidade única para trocar opiniões sobre os complexos desafios da região… para os quais não há soluções fáceis”. Mas não deixou de cobrar: “Boas intenções, experiência e instrumentos são importantes, mas não são suficientes por si só. O que é importante agora é ter um plano de ação para reduzir o desmatamento, com metas concretas, prazos fixos e resultados mensuráveis.”

Seria interessante observar a reação alemã se um diplomata brasileiro se pronunciasse de maneira análoga sobre a política de imigração do governo da chanceler Angela Merkel.

Na mesma linha, a encarregada de negócios do Reino Unido, Liz Davidson, depois de ressaltar a oportunidade de conhecer a região e os esforços do governo brasileiro na repressão a atividades ilegais, se manifestou via Twitter: “Aguardamos os próximos passos descritos pelo general Mourão no sentido de implantar um plano transparente, com metas quantitativas – incluindo a de zerar o desmatamento líquido até 2030 – para vermos uma redução significativa e permanente no desmatamento da região (Gazeta do Povo11/11/2020) .”

Outro diplomata, com um tom mais próximo ao das ONGs ambientalistas que criticaram o roteiro da viagem, preferiu não se identificar, talvez, para manifestar melhor a sua arrogância: “Nós acreditamos que entendemos bem sobre a Amazônia. Respeitamos a decisão de o governo nos mostrar, entre outras coisas, que não tem fogo em todos os lugares e, também, como atua na proteção de áreas intactas. Mas essa é uma parte da história. Nós sabemos onde os focos de fogo estão.”

Não obstante, as manifestações positivas sugerem que a iniciativa atingiu o objetivo básico de proporcionar um vislumbre da vastidão e complexidade dos problemas da região, em especial, quanto às condições de vida da maioria da população amazônica.

Para o embaixador espanhol, Fernando Garcia Casas, a visita foi um “ponto de inflexão” para uma comunicação melhor e a construção de pontes de cooperação internacional. “Não tinha uma ideia global, como tenho agora, dos sucessos, desafios e problemas da Amazônia… Com diálogo, conhecemos melhor os problemas e desafios, inclusive para a Espanha e União Europeia. Por meio do trabalho conjunto, podemos atuar na proteção, preservação e no desenvolvimento sustentável pensando nas gerações futuras” – afirmou.

Depois de visitar um aldeamento ianomâmi no extremo oeste do Amazonas, última parada da viagem, a embaixadora sueca, Johanna Skoog, observou uma obviedade frequentemente menosprezada pela militância ambientalista-indigenista: “Aqui na floresta há muitos desafios, acho que a pobreza é uma delas (Jornal da Band06/11/2020).”
“A preservação do ambiente é muito importante, mas precisa estar casada com as oportunidades para as pessoas que vivem na Amazônia. Nisso estamos conscientes e prontos para trabalhar com as autoridades brasileiras para atingir este fim”, concordou a ministra-conselheira de Portugal, Sandra Magalhães.

No cômputo geral, a visita proporcionou elementos positivos que atestam a validade da iniciativa e apontam para eventuais repetições, inclusive, organizadas pela iniciativa privada junto às suas contrapartes estrangeiras e, eventualmente, a entidades como o Parlamento Europeu, na linha do que o aparato ambientalista-indigenista costuma fazer.

De início, salta aos olhos a necessidade de ressaltar o imperativo do desenvolvimento socioeconômico da região, a mais pobre do País, como admitiram alguns diplomatas. Para tanto, é importante que futuras visitas do gênero incluam em seus roteiros contatos com órgãos de pesquisa regionais (Embrapa, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia-INPA, Museu Emílio Goeldi etc.), uma gama maior de atividades produtivas, inclusive, agropecuárias, instalações de infraestrutura e seu entorno (como a UHE Belo Monte, em Altamira-PA) e outras paradas relevantes para proporcionar uma visão realista da dimensão dos desafios da região. A propósito, uma delas – fundamental – seria alguma comunidade situada à margem de uma rodovia federal, a exemplo da BR-163, para que os visitantes pudessem entrar em contato direto com a população local e ver de perto as suas dificuldades e aspirações de melhoria da infraestrutura de transportes e energia, em geral, desprezadas por “defensores” do meio ambiente que vivem em grandes cidades a milhares de quilômetros de distância (quiçá, para um melhor efeito, a visita poderia ser efetuada em um mês chuvoso, quando são corriqueiras cenas de centenas de veículos atolados na lama).

Vale destacar a relevância da visita ao Projeto Integrado de Colonização Bela Vista, em Iranduba (AM), um assentamento de 785 mil hectares coordenado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que produz peixes, frutas e produtos sazonais destinados ao mercado de Manaus, e demonstra a importância da regularização fundiária, tão combatida pelo aparato ambientalista-indigenista.

Evidentemente, não seria preciso “esconder” as áreas problemáticas afetadas por desmatamento e queimadas ilegais, que seriam visitas bastante didáticas, para demonstrar as dificuldades de repressão a tais atividades, em uma área na qual cabe grande parte da União Europeia.

Por outro lado, ao mesmo tempo em que denota a sua abertura e disposição para um empenho sério de cooperação internacional, o governo brasileiro deve deixar bem claro que as políticas de desenvolvimento e proteção ambiental da Amazônia são decisões soberanas do Estado brasileiro e, de modo algum, se submeterão a critérios externos alheios aos interesses nacionais. Este é o caso, por exemplo, da irrealista meta de “desmatamento zero líquido”, defendida pelo aparato ambientalista-indigenista e mencionada por alguns diplomatas, como a britânica Liz Davidson. De modo algum, o Brasil pode aceitar tais imposições ou, pior, impor a si mesmo semelhante camisa-de-força.

Em paralelo, o Brasil deveria buscar uma articulação diplomática com outros países às voltas com problemas semelhantes, como o México e várias nações africanas e asiáticas, muitas das quais aplaudiram a posição do presidente Jair Bolsonaro sobre a agenda ambientalista-indigenista, em seu discurso na 74ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2019. A rigor, necessitar-se-ia de algo como uma versão atualizada da Conferência de Bandung de 1955, de onde surgiu o Movimento dos Não-Alinhados como uma alternativa ao embate bipolar da Guerra Fria.

No frigir dos ovos, o plano de metas de que a região e o País necessitam é uma pauta concreta de iniciativas de desenvolvimento a longo prazo, independente dos humores de investidores internacionais – ou seja, de uma iniciativa inserida em um autêntico projeto nacional de retomada do desenvolvimento, de que o Brasil necessita com a maior urgência.

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