De Ufá a Washington (via Bruxelas e Viena), o mundo se redesenha

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Os acontecimentos das últimas semanas deixaram claro que uma rápida reconfiguração do cenário mundial está em curso. Poucas vezes na História se terá visto tal concentração simultânea de eventos seminais em tão poucos dias, proporcionando, ao mesmo tempo, uma importante perspectiva do entrechoque das alternativas políticas que estão moldando um novo cenário global. De forma ostensiva, apresentam-se ao mundo o que podem ser consideradas duas alternativas civilizatórias dificilmente conciliáveis, em um embate – por enquanto apenas figurado – cujo desfecho deverá ser determinante para a definição do século XXI.

De um lado, está o presente sistema hegemônico baseado na supremacia do rentismo (ou “Sistema da Dívida”, na expressão da ex-auditora fiscal Maria Lúcia Fattorelli) e na força militar como instrumento de política externa, cujas elites oligárquicas representativas dominam a formulação de políticas em Washington, Londres e Bruxelas. O alcance da sua mão pesada pode ser visto na impiedosa e humilhante capitulação imposta ao governo da Grécia para o problema da impagável dívida do país.

O contraponto veio de Ufá, capital da longínqua república russa do Barcostostão, onde ocorreram as cúpulas simultâneas de três organizações políticas que simbolizam uma alternativa multicêntrica e cooperativa, articuladas em resposta às perspectivas de caos e retrocesso civilizatório decorrentes das ações do sistema hegemônico. Todavia, os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), a Organização para a Cooperação de Xangai (SCO – China, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Azerbaijão, Tadjiquistão, Índia e Paquistão ) e a União Econômica Eurasiática (UEE – Rússia, Bielorrússia, Cazaquistão, Armênia e Quirguistão) não devem e não querem ser vistos como antagonistas do sistema virtualmente unipolar encabeçado pelos EUA, no sentido de disputar-lhe a hegemonia global, mas apenas oferecer uma opção construtiva para um impulso compartilhado de desenvolvimento.

Como afirmou, com propriedade, um sóbrio editorial do sítio oficial chinês Global Times, em 9 de julho:

Ninguém nos BRICS ou na SCO irá pensar que o fato de os integrarem signifique que não há necessidade de se importar com as suas relações com o Ocidente. As duas organizações não visam confrontar o Ocidente. Porém, haverá problemas se Washington suspeitar de intenções antiocidentais de qualquer organização que inclua a China e a Rússia, mas exclua os EUA. Esta lógica significa que se deve aceitar a liderança dos EUA ou ser considerado antiocidental.

Os EUA deveriam ser menos estressados. Este não é mais um tempo em que a competição pela segurança nacional seja onipresente. A globalização e as mudanças de poder também têm afetado profundamente a competição econômica. A atual diversidade mundial não pode ser interpretada usando-se as velhas mentalidades. (…)

Os países dos BRICS não são ambiciosos a ponto de desejar mudar completamente a atual ordem internacional e, tampouco, têm força para isto. O que esperam de fato é melhorar as suas posições e tratamento na presente ordem, de modo a lograr um melhor desenvolvimento. (…) As organizações recém estabelecidas se concentram, prioritariamente, no desenvolvimento, em vez de em um jogo de soma zero.

Menos comedido, o arguto correspondente do portal Asia Times, Pepe Escobar, qualificou as cúpulas de Ufá como uma “mudança de placas tectônicas geopolíticas”. Para ele, “o ponto absolutamente crucial é que reunir os líderes dos BRICS, SCO e UEE no mesmo lugar significa um golpe gráfico sobre a emergência de um impulso coordenado, disseminado pela Eurásia e, em alguns aspectos, pelo mundo, rumo a uma ordem mundial mais equitativa e não ditada pelos excepcionalistas (Asia Times, 13/07/2015)”.

De forma sintomática, apesar de Ufá ter recebido 14 chefes de Estado e governo, representando cerca de 40% da população mundial, a grande mídia ocidental praticamente ignorou as cúpulas simultâneas, limitando-se a notícias breves e a comentários geralmente depreciativos. No Brasil, fora os portais estrangeiros em língua portuguesa, a cobertura da mídia nacional se limitou a pouco mais que relatos paroquiais sobre a presidente Dilma Rousseff, a maioria sobre os desdobramentos da crise política que afeta o governo.

A nada simbólica resposta de Washington veio na divulgação da “Estratégia Militar Nacional 2015”, com a qual os EUA reafirmam a sua inclinação ao uso da força militar como principal instrumento de política externa. O documento é justificado pela “necessidade de contraarrestar Estados revisionistas que estão desafiando as normas internacionais, bem como organizações extremistas violentas que estão solapando a segurança trans-regional”. Por “Estados revisionistas”, o texto se refere nominalmente à Rússia, Irã, Coreia do Norte e China.

“Nenhuma dessas nações são consideradas como se estivessem buscando um conflito militar direto com os EUA ou nossos aliados. Não obstante, cada uma delas representa sérias preocupações de segurança, que a comunidade internacional está trabalhando coletivamente para enfrentar por meio de políticas comuns, mensagens compartilhadas e ações coordenadas”, diz o texto.

Com a verve que lhe é peculiar, o ex-subsecretário do Tesouro Paul Craig Roberts advertiu: “Estejam seguros de entender bem a questão: a ameaça é a existência de Estados soberanos, cuja independência de ação os torna ‘Estados revisionistas’. Em outras palavras, a sua independência está fora de compasso com a doutrina unipolar dos neoconservadores, a qual declara ser a independência um direito exclusivo de Washington. A hegemonia concedida a Washington pela História exclui que qualquer outro país seja independente em suas ações (Paulcraigroberts.com, 10/07/2015).”

Por ironia, na crise grega, Washington favorecia a concessão de um corte na dívida do país e uma extensão do prazo de pagamento, como pretendido por Atenas. Até mesmo o Fundo Monetário Internacional (FMI) já sinalizou que esta é a única solução viável para impedir um potencialmente catastrófico aprofundamento da crise. O temor estadunidense é que tal cenário possa abrir caminho para que o governo grego peça auxílio à Rússia e à China. Possivelmente, este foi o motivo do “vazamento” de um relatório sigiloso do FMI sobre o assunto, em 14 de julho, que promete acirrar os já exaltados ânimos helênicos.

Outra ironia foi a conclusão do acordo sobre o programa nuclear do Irã, que abre caminho para a suspensão das sanções impostas ao país e uma eventual regularização das relações com os EUA, cujas empresas estão há anos salivando com as perspectivas de negócios oferecidas pela necessidade de reconstrução da combalida economia iraniana e, não menos, para uma oficialização da cooperação com o Irã na luta contra o Estado Islâmico, que já ocorre sem muita publicidade. Nas exaustivas negociações realizadas em Viena prevaleceu o bom senso, mas a facção belicista do Establishment estadunidense já se mobiliza para torpedear o acordo no Congresso, com o apoio explícito de Israel e da Arábia Saudita.

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