A crise brasileira além do preço do diesel

O profundo abismo existente entre a condução da vida nacional pelas suas lideranças e as aspirações e necessidades da grande maioria da sociedade explica a maciça aprovação conferida pela população à recente greve dos caminhoneiros, a qual explicitou algumas evidências desse descompasso nacional.

A mais marcante foi, sem dúvida, o choque de realidade da inadequação do sistema de transportes, com a hiperdependência do modal rodoviário para a circulação de passageiros e cargas, aí incluídos os combustíveis. Da noite para o dia, os brasileiros acordaram para a falta de ferrovias e hidrovias, predominantes nos países de grandes dimensões, pela maior eficiência e os custos mais baixos no transporte a longas distâncias.

O abandono desses modais, favorecidos pela fisiografia do território brasileiro, com predominância de planaltos e planícies e a terceira maior rede hidrográfica do mundo, é decorrente do descaso atávico dos formuladores de políticas públicas, viciados em opções de curto prazo e visando a interesses setoriais.

Daí resultaram a preferência pela construção de rodovias, mais baratas e de inauguração mais rápida (ainda nos mandatos dos seus iniciadores), o abandono dos trens, o desprezo dos metrôs e a desconsideração pelo transporte hidroviário. Neste quesito, ao contrário de outros países, permite-se o barramento de rios navegáveis sem a exigência da construção de eclusas nas barragens, desprezando-se os usos múltiplos dos rios, apesar de previstos no Código de Águas de 1934 e na Política Nacional de Recursos Hídricos de 1997.

Por miopia, são ignorados conceitos usuais em países mais avançados, como os altíssimos custos decorrentes da não implementação de redes viárias mais eficientes para o conjunto das economias, os quais costumam superar os custos de construção em pelo menos uma ordem de grandeza. Já existem estudos sobre os custos monetários dos congestionamentos de tráfego em cidades como São Paulo e o Rio de Janeiro, estimados na casa das dezenas de bilhões de reais por ano, os quais poderiam ser consideravelmente mitigados com investimentos bem menores na expansão e melhoramento das redes de trens e metrôs.

A bem da verdade, o País não escaparia de todos os impactos gerados pela paralisação dos caminhoneiros, mesmo que dispusesse de uma malha hidroferroviária densa e moderna, pois os caminhões são indispensáveis em distâncias inferiores a 500 km, principalmente, para a entrega das mercadorias e produtos aos destinos finais nos centros urbanos. Porém, o momento é dos mais oportunos para que o atavismo rodoviário seja amplamente rediscutido e que a modernização da rede de transportes seja uma das prioridades na agenda de uma imprescindível reconstrução do País.

No Rio de Janeiro, a dependência rodoviária se chocou com a insegurança pública. Na Zona Norte da cidade, onde uma das linhas do sistema de ônibus rápidos (BRT) foi virtualmente paralisada pela falta de combustível, milícias criminosas se aproveitaram da situação para assumir o controle de várias estações, convertendo-as em pontos de venda de drogas. A deterioração da segurança pública no estado (a rigor, no País inteiro), onde o crime organizado já domina vastos “territórios liberados”, é outra decorrência de décadas de descaso e protelação com a gravidade do problema.

Uma terceira evidência dessa situação limite é a apropriação das empresas do Estado pelos grupos controladores do poder central, tratando-as como se fossem propriedades dos interesses políticos e econômicos nele consorciados. É o caso da Petrobras, convertida pelo atual governo em uma empresa “comercial”, em detrimento do seu papel estratégico para o País, e cuja política de preços dos combustíveis, vinculada aos mercados internacionais e submetida a reajustes muito acima da inflação, foi o estopim da crise dos caminhoneiros, além de prejudicar milhões de pessoas obrigadas a recorrer à lenha, carvão vegetal e álcool para cozinhar, devido à disparada dos preços do botijão de gás. O mesmo vale para a pretendida privatização da Eletrobras, da qual a sociedade brasileira não teria quaisquer benefícios.

Esses fatos sinalizam o esgotamento da capacidade das elites dirigentes de protelar indefinidamente o enfrentamento a sério dos problemas que têm obstaculizado o caminho do Brasil rumo à condição de Nação moderna, socialmente justa e capaz de aproveitar plenamente os seus vastos recursos humanos e naturais.

Tal protelação, que ultrapassou todos os limites de tolerância, transmite uma falsa impressão de que os brasileiros seriam incapazes de organizar e construir uma sociedade compatível com o século XXI, com todas as suas complexidades e requisitos de evolução e respostas eficientes frente às exigências das rápidas e profundas mudanças em curso no cenário global – oportunamente definidas pelo papa Francisco como uma mudança de época histórica.

No cerne de tudo, estão dois fatores: a conversão do País em um “balcão de negócios” controlado pelos grupos políticos que se sucedem no poder e seus associados, com o sistema financeiro pairando acima de todos; e a falência do sistema político-partidário da “Nova República”.

Por isso, a mera realização das eleições vindouras não solucionará o impasse, que é sistêmico e estrutural, e não apenas conjuntural. Em síntese, precisa-se de um novo projeto nacional de desenvolvimento combinado com uma reconstrução institucional, para recolocar o País no rumo de um futuro digno como uma Nação soberana, socialmente justa, produtiva, criativa e capaz de contribuir positivamente para a reconfiguração da ordem mundial de poder, que se encontra em curso.

Para tanto, o Brasil precisa reescrever a sua trajetória. Há dois séculos, o Patriarca da Independência, José Bonifácio de Andrada e Silva, precisou os dois maiores obstáculos ao que já sonhava como um destino de grandeza: a escravidão e a submissão à “haute finance”. Hoje, o País necessita: declarar a sua Independência da alta finança; decretar a Abolição do rentismo na formulação das políticas públicas; e proclamar uma República autêntica, na qual o Princípio do Bem Comum seja a orientação fundamental das políticas públicas.

Com isso, em uma geração ou pouco mais, seria possível elevar o País a um patamar superior de civilização, justiça social e prosperidade para todos os segmentos da sociedade. Se não for feito, uma próxima crise poderá ser explosiva ao ponto de fazer a greve dos caminhoneiros parecer uma baderna de jardim de infância.

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