Muitos se perguntam, com bons motivos, por que a República Centro-Africana (RCA), cuja população é considerada uma das mais pobres do mundo, lançou sua criptomoeda, a Sango Coin. E devemos também perguntar-nos, em nome de que interesses.
O presidente Faustin-Archange Touadéra disse que “a Sango Coin será a porta de entrada para os recursos naturais da RCA… O ouro digital será o motor da nossa civilização do future”. Já em junho, ele havia anunciado a intenção de avaliar as suas matérias-primas em moedas digitais.
A população da CAR tem uma renda per capita anual de 500 dólares. O país tem um território de 622 mil quilômetros quadrados, mais que o dobro da Itália, e uma população de pouco mais de 4,8 milhões de habitants, menos que 1/12 da italiana. Todavia, o seu subsolo é muito rico: urânio, petróleo, ouro, diamantes, cobre, cobalto, coltan [columbita-tantalita] etc. Isso sem falar nas chamadas terras raras, matérias-primas altamente cobiçadas e necessárias para as novas tecnologias, incluindo as bélicas e aeroespaciais. Estima-se que o seu valor possa ultrapassar os US$ 3 trilhões. E isto é tentador para antigos e novos Estados coloniais e grandes corporações multinacionais.
Prevê-se a utilização da Sango Coin para todas as operações de financiamento, exploração e comercialização relacionadas às matérias-primas e a posse de terras, em outras palavras, contornando o dólar, o euro ou o próprio franco CFA, a moeda nacional. Está também prevista a construção de uma “criptoilha” no rio Oubangui, como um centro de coordenação de todas as operações relacionadas com a Sango Coin.
O ministro das Finanças da RCA, Hervé Ndoba, afirmou que a nova criptomoeda será lastreada pelo Bitcoin, que o governo centroafricano já reconheceu como moeda oficial em abril. Segundo ele, a intenção é modernizar o país com a tecnologia usada para a Sango Coin e facilitar a transferência de dinheiro para os cidadãos. Porém, parece esquecer que apenas uma em cada dez dos seus concidadãos tem acesso à internet e a rede elétrica é quase ausente na maior parte do território.
Nesse sentido, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) foram pegos de surpresa, preocupados com os efeitos financeiros potencialmente desestabilizadores e com a perda do controle tradicional sobre o país.
Na verdade, o momento não é o melhor para uma tal iniciativa. De fato, o projeto da Sango digital surgiu num momento em que desde o final de 2021 a capitalização de mercado dos ativos digitais diminuiu em cerca de 2 trilhões de dólares, com o Bitcoin caindo mais de 55% desde o início do ano.
As criptomoedas estão envoltas em uma atraente “ideologia rebelled” contra a autoridade dos bancos centrais e governos. São transações financeiras completamente privadas e bastante opacas, suspeitas de serem por vezes também instrumento de movimentos financeiros ilícitos e de lavagem de capitais. É verdade que as velhas estruturas monetárias e bancárias conhecidas nem sempre foram de clareza e correção exemplares, mas, no entanto, sempre existe a possibilidade de intervenção dos controles públicos e de regras mais estritas. Este não é o caso das criptomoedas.
Portanto, o fato de a Sango Coin poder usufruir oficialmente de reservas em Bitcoin, que é altamente volátil, não garante a segurança necessária.
Os jovens e a modernização para o desenvolvimento são, certamente, o futuro de África e também da República Centro-Africana. Não por sua culpa, a RCA já foi uma colônia e saqueada. Todavia, na tentativa de se libertar dessas correntes, é preciso ter cuidado para não acabar nas garras dos predadores modernos.
É importante estar ciente de que o controle de matérias-primas também está no centro do atual conflito geopolítico e geoeconômico. Nesse sentido, a escolha da RCA também surpreende, porque há muito o continente fala em criar uma moeda única africana.

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Msia Informa
