Crime organizado e vácuo de desenvolvimento na Amazônia

Relatório Mundial sobre Drogas 2023 do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) caiu como uma bomba no Brasil, com as revelações sobre a extensão dos impactos ambientais e sociais das atividades criminosas organizadas na Bacia Amazônica.

Divulgado em 25 de junho, o documento evidencia que o tráfico de drogas está estendendo seus tentáculos a outras atividades criminosas, como extração de madeira e mineração ilegal, ocupação irregular de terras, tráfico de animais selvagens e outras, com sérios impactos sobre o meio ambiente.

Como explica a chefe da Seção de Investigação sobre Drogas, Chloe Carpentier: “Este ano, dedicamos um capítulo sobre a sobre o tráfico de drogas na Amazônia, o impacto sobre o meio ambiente e a intersecção desta droga com outras atividades que está a acelerar um impacto negativo sobre o meio ambiente e sobre comunidades que vivem lá, comunidade locais, incluindo populações indígenas. Então, sobre a Amazônia, oferecemos uma análise de quatro países: Brasil, Colômbia, Peru e Bolívia. O que vimos é que a Amazônia está na intersecção de múltiplas formas de crime organizado, que aceleram a devastação e degradação do meio ambiente, com muitas implicações em termos de segurança pública, de saúde pública, mas também individual e outros impactos negativos sobre as populações (ONU News, 25/06/2023).”

Tal cenário, segundo ela, se deve ao fato de que, além da abundância de recursos naturais, “a região tem pouca presença do Estado, muita corrupção e uma economia baseada em informalidade”.

A situação decorre do avanço de facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, pela região, aproveitando o estabelecimento de rotas de escoamento de drogas para atuar na exploração de outras atividades e na cobrança de taxas, como fazem nas cidades de origem.

O diagnóstico oferecido pela chefe Carpentier toca em dois pontos críticos, a escassa presença do Estado e a informalidade econômica, que remetem ao problema crônico da região: a inexistência de uma orientação para o pleno desenvolvimento das políticas públicas aplicadas na região, que, desde o final da década de 1980, tem sido ainda mais prejudicada pela influência da ideologia ambientalista-indigenista, voltada para a limitação da soberania do Estado Brasileiro sobre a Amazônia.

Ainda pior é o fato de que, nesse período, uma considerável parcela da atuação do Estado na região tem sido de caráter interditório e repressivo de uma variedade de atividades econômicas, inclusive a implantação de infraestrutura, mineração e outras. Com isso, o desenvolvimento socioeconômico de toda a Amazônia Legal tem sido prejudicado, em favor da visão de uma Amazônia virtualmente intocada, mantida em uma espécie de redoma isenta de atividades econômicas modernas e, por conseguinte, incapaz de oferecer à grande maioria dos seus habitantes oportunidades de atividades que vão pouco além da subsistência.

Nesse vácuo de oportunidades econômicas e presença construtiva do Estado, não admira que o crime organizado se instale, como tem feito nas grandes cidades do País. E é grande o risco de que, como ocorre nelas, a janela de oportunidade para neutralizar essa ameaça ou, pelo menos, mitigar os seus efeitos, esteja se fechando rapidamente.

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