Como podem 11 mil cientistas estar (tão) errados?

A manchete da Folha de S. Paulo de 5 de novembro era bombástica, semelhante a muitas outras publicadas e postadas em órgãos midiáticos de todo o planeta: “Mais de 11 mil cientistas decretam ‘emergência climática’ em novo relatório.”

De fato, 11 mil cientistas constituem um número significativo de profissionais, levando muitos leigos, pouco afeitos às idiossincrasias da prática científica, mas superssaturados do catastrofismo prevalecente nas últimas décadas sobre as questões climáticas, a dar credibilidade a mais um alarme infundado sobre um hipotético apocalipse climático.

Mas não é apenas isso. Os autores fazem sugestões radicais em seis linhas de ação que, se fossem seguidas, implicariam em um virtual retrocesso civilizatório global, sendo quase assustador que tantos profissionais com títulos científicos tenham se prestado a utilizar tal linguagem apocalíptica para propagandeá-las.

Os dois autores principais do manifesto – pois é disto que se trata, e não de um documento científico – são professores de disciplinas ligadas à Ecologia na Universidade Estadual do Oregon (EUA): William J. Ripple é especialista em cadeias tróficas (alimentares) e Christopher Wolf, em ecologia da vida selvagem. Mais de 11.200 cientistas de 153 países endossaram o manifesto, publicado na revista BioScience de 5 de novembro.

O texto inicia de forma categórica:

Os cientistas têm uma obrigação moral de advertir claramente a humanidade sobre qualquer ameaça catastrófica e de “dizer-lhe como ela é”. Com base nesta obrigação e nos gráficos indicadores apresentados abaixo, nós declaramos, com mais de 11.000 cientistas signatários de todo o mundo, de forma clara e inequívoca (sic) que o planeta Terra está enfrentando uma emergência climática.

A despeito da sua crescente popularidade, expressão “emergência climática” é desprovida de qualquer conteúdo científico factual, pelo simples fato de as oscilações climáticas dos últimos dois séculos nada terem de anômalas, em relação às ocorridas anteriormente, no passado histórico e geológico do planeta. Por si só, este argumento é – ou deveria ser – suficiente para desqualificar todo o cenário alarmista montado em torno das questões climáticas, e o fato de que isto não ocorre é emblemático das distorções ideológicas e oportunísticas que têm dominado o tratamento científico dos temas referentes ao clima global.

Para sustentar o manifesto, os autores apresentam uma série de gráficos com as variações de parâmetros selecionados para o período 1980-2020 (que não mostraremos aqui; os interessados podem consultar o artigo original), as quais, segundo eles, mostrariam tendências potencialmente calamitosas para a humanidade:

– concentrações de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso na atmosfera;

– mudanças na temperatura superficial do planeta;

– extensão máxima do gelo no Ártico;

– variação das massas de gelo na Groenlândia e na Antártica;

– variação da espessura dos glaciares;

– mudanças no conteúdo de calor e acidez nos oceanos e no nível dos mares;

– variação da área queimada por incêndios nos EUA;

– frequência de eventos climáticos e hidrológicos extremos;

– prejuízos anuais causados por eventos meteorológicos extremos;

– população mundial;

– taxa de fertilidade feminina;

– número de ruminantes;

– produção de carne per capita;

– PIB mundial;

– perdas globais de cobertura vegetal;

– perdas da floresta amazônica brasileira;

– consumo anual de energia;

– usuários de transporte aéreo;

– ativos institucionais desinvestidos (em atividades geradoras de emissões de carbono);

– emissões de dióxido de carbono, valores absolutos e per capita;

– emissões de gases de efeito estufa cobertas por precificação de carbono;

– preço do carbono; e

– subsídios aos combustíveis fósseis.

Como se percebe, uma lista e tanto, com elementos cujo cotejamento, para comprovar a delirante tese da “emergência climática”, denota apenas a falta de limites para o desrespeito aos princípios básicos da Ciência por profissionais engajados em uma agenda de motivação essencialmente ideológica e política.

Um trecho significativo evidencia a inclinação essencialmente malthusiana dos autores e signatários do texto, característica compartilhada com uma grande parcela dos ambientalistas, que veem o ser humano como pouco mais que um “câncer” planetário:

Sinais profundamente preocupantes (sic) das atividades humanas incluem aumentos sustentados nas populações humana e de ruminantes, produção de carne per capita, Produto Interno Bruto global, perda de cobertura vegetal global, consumo de combustíveis fósseis, número de passageiros transportados, emissões de dióxido de carbono (CO2) e emissões de CO2 per capita desde 2000. (…)

Observe-se que elementos que, sob qualquer critério racional, seriam considerados indicadores de progresso – aumentos no consumo de carne como fonte de proteínas, no PIB global e na circulação de pessoas – são reputados como “sinais profundamente preocupantes” para a humanidade.

A irracionalidade se estende à lista de recomendações, separada por tópicos:

Energia

O mundo deve implementar rapidamente práticas massivas de eficiência e conservação energética e deve substituir os combustíveis fósseis por fontes renováveis de baixo carbono e outras fontes mais limpas de energia, se forem seguras para as pessoas e o meio ambiente. Nós deveríamos deixar no subsolo os estoques remanescentes de combustíveis fósseis (ver os calendários em IPCC 2018) e deveríamos perseguir cuidadosamente emissões negativas, usando tecnologias como a extração de carbono da fonte e captura do ar e, especialmente, reforçando os sistemas naturais. Os países mais ricos precisam apoiar as nações mais pobre na transição para o abandono dos combustíveis fósseis. Nós devemos eliminar rapidamente os subsídios para os combustíveis fósseis e usar políticas efetivas e razoáveis, para escalar firmemente os preços do carbono, para restringir o seu uso.

Poluentes de vida curta

Nós precisamos reduzir prontamente as emissões de poluentes climáticos de vida curta, inclusive o metano, carbono negro (fuligem) e hidrofluorcarbonos (HFCs). Fazer isso poderia desacelerar os ciclos de retroalimentação climática e, potencialmente, reduzir a tendência de aquecimento de curto prazo em mais de 50%, nas próximas poucas décadas, enquanto salvamos milhões de vidas e aumentamos os rendimentos das colheitas, devido à redução da poluição aérea. A emenda de Kigali de 2016 para a eliminação dos HFCs é bem-vinda.

Natureza

Nós devemos proteger e restaurar os ecossistemas da Terra. (…) Precisamos reduzir rapidamente as perdas de habitats e biodiversidade, protegendo as florestas primárias e intactas remanescentes, especialmente, aquelas com altos depósitos de carbono, e outras florestas com a capacidade de seqüestrar rapidamente o carbono (proflorestamento), além de ampliar o reflorestamento e florestação, onde apropriado, em escalas enormes (sic). Apesar de que as terras disponíveis possam ser limitadas em certos lugares, até um terço das reduções de emissões necessárias até 2030 para o Acordo de Paris (menos de 2oC) possa ser obtido com essas soluções climáticas naturais (Griscom et al. 2017).

Alimentos

O ato de consumir majoritariamente alimentos baseados em vegetais, ao mesmo tempo em que se resumir o consumo global de produtos animais, especialmente, ruminantes, pode melhorar a saúde humana e reduzir significativamente as emissões de GEE [gases de efeito estufa], inclusive, o metano, citado entre os “poluentes de vida curta”. Ademais, isto liberará terras para o cultivo bastante necessário de plantas alimentícias para os humanos, em vez de para o gado, ao mesmo tempo em que se libera parte das terras de pastagens para apoiar soluções climáticas naturais (ver a seção “Natureza”). (…)

Economia

A extração excessiva de materiais e a superexploração de ecossistemas, promovidos pelo crescimento econômico, devem ser reduzidos rapidamente, para se manter a sustentabilidade de longo prazo da biosfera. Precisamos de uma economia livre de carbono, que enfrente explicitamente a dependência humana da biosfera, e de políticas que orientem as decisões econômicas de acordo com este princípio. Os nossos objetivos devem ser reorientados, do crescimento do PIB e da busca de riqueza, para a sustentação dos ecossistemas e o melhoramento do bem-estar humano, priorizando as necessidades básicas e a redução da desigualdade.

População

Ainda aumentando em cerca de 80 milhões de pessoas por ano, ou mais de 200.000 por dia, a população mundial deve ser estabilizada – e, idealmente, gradualmente reduzida (sic) –, em um marco que assegure a integridade social. Existem medidas comprovadas e efetivas que reforçam os direitos humanos, ao mesmo tempo em que reduzem as taxas de fertilidade (sic) e diminuem os impactos do crescimento populacional sobre as emissões de GEE e a perda de biodiversidade. Estas políticas disponibilizam serviços de planejamento familiar a todas as pessoas, removem barreiras ao acesso a eles e promovem uma plena equidade de gênero, inclusive educação primária e secundária como norma global para todos, em especial, meninas e mulheres jovens (Bongaarts e O’Neill 2018).

Conclusões

A mitigação e adaptação às mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que se faz justiça à diversidade dos humanos, acarreta grandes transformações nas maneiras em como a nossa sociedade global funciona e interage com os ecossistemas naturais. Nós somos incentivadso por uma recente onda de preocupações. Corpos governamentais eestão fazendo declarações de emergência climática. Estudantes estão fazendo greves. Processos sobre ecocídio estão sendo levados aos tribunais. Movimentos de cidadãos estão exigindo mudanças, em muitos países, estados, províncias e cidades, e os negócios estão respondendo.

Como a Aliança de Cientistas Mundiais [Alliance of World Scientists], nós estamos prontos para apoiar os tomadores de decisões em uma transição justa para um futuro sustentável e equitativo. Nós instamos ao uso disseminado de sinais vitais, que permitirão aos tomadores de decisões, ao setor privado e ao público, entender a magnitude dessa crise, acompanhar o progresso e realinhar as prioridades para a mitigação da crise climática. A boa notícia é que tal mudança transformadora, com justiça social e econômica para todos, promete um bem-estar humano bem maior do que os negócios como sempre. Nós acreditamos que as perspectivas serão maiores, se os tomadores de decisões e toda a humanidade responderem, prontamente, a esta advertência e declaração de uma emergência climática, e agirem para sustentar a vida no planeta Terra, nosso único lar.

Em sua cruzada contra os combustíveis fósseis, os autores passam por cima da realidade inescapável de que eles respondem por mais de 80% da energia consumida hoje no planeta, proporção que simplesmente inviabiliza qualquer proposta da sua redução drástica nos prazos alardeados pelos alarmistas, pelo simples fato de que as tecnologias substitutas necessárias ainda não estão disponíveis em termos comerciais.

A tendenciosidade dos autores também se denota na inclusão de gases como o metano e os HFCs como “poluentes”, quando o primeiro integra o ciclo do carbono, que rege de forma crucial a vida no planeta, e o segundo é uma substância fundamental para a indústria de refrigeração, tendo substituído os ainda mais versáteis clorofluorcarbonos (CFCs). O banimento destes últimos pelo famigerado Protocolo de Montreal de 1987 constituiu um dos grandes triunfos do alarmismo ambientalista, tendo sido o balão de ensaio para a posterior campanha contra o carbono. Como já havia acontecido com os CFCs, os produtos apontados como substitutos dos HFCs são uma ordem de grandeza mais caros do que estes, o que obrigará a uma nova e custosíssima reestruturação da indústria de refrigeração em todo o mundo – ou seja, medida inócua para o meio ambiente, mas excelente para os negócios “verdes”.

Por outro lado, a orientação neomalthusiana dos autores é explicitada na sugestão da necessidade “ideal” de uma redução da população mundial, em um quadro no qual grande parte dos países está hoje às voltas com taxas de fertilidade femininas bem abaixo da mera taxa de reposição demográfica. Neste particular, é significativo que um dos autores que contribuíram com o texto tenha sido o notório biólogo estadunidense Paul Ehrlich, um especialista em borboletas que há décadas insiste no falacioso conceito da “bomba populacional” e é um dos ícones dos malthusianos contemporâneos e seus avatares ambientalistas radicais.

Além disso, o caráter misantrópico do manifesto se mostra na ausência de qualquer menção ao maior problema ambiental do planeta, as deficiências da infraestrutura de saneamento básico e suas consequências, que afetam mais da metade da população mundial. Sem falar no maior fator de “insustentabilidade”, o sistema financeiro internacional em sua presente forma hiperespeculativa e antiprodutiva, de longe o maior obstáculo a qualquer iniciativa de desenvolvimento sensata nos países que não constituem a elite econômica global.

Em essência, o “manifesto dos 11 mil” é mais um reforço à falaciosa e anticivilizatória campanha de demonização do carbono (o gás da vida, vale recordar) e a sua entronização como uma nova “moeda de referência” para a economia mundial, empreitada para cuja implementação já existe uma vasta infraestrutura de ONGs e ativistas ambientalistas, fundações e empresas privadas, gestoras de ativos e lideranças políticas engajadas (ver, p.ex., Alerta Científico e Ambiental, 04/04/2019).

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