Na terça-feira 13 de setembro, o Parlamento Europeu aprovou por larga margem – 453 votos a favor, 57 contra e 123 abstenções – um projeto que condiciona a importação de um conjunto de commodities por empresas europeias à comprovação de “desmatamento zero” e à ausência de violações de direitos humanos pelos exportadores.
A lista inclui importações de óleo de palma, madeira, café, cacau, soja, milho, derivados de papel, borracha, carvão vegetal e carnes.
A celebração do aparato ambientalista-indigenista internacional foi imediata. “As medidas do bloco europeu vão impedir a entrada de produtos que direta ou indiretamente estejam relacionados com o desmatamento de importantes biomas brasileiros, como a Amazônia e o Cerrado, e são um claro sinal para o setor produtivo de que a proteção ambiental e dos direitos humanos são itens mandatórios nos negócios internacionais”, disse o gerente de Políticas Públicas para Cadeias Livres de Desmatamento e Conversão do WWF, Jean François Timmers (WWF-Brasil, 13/09/2022).
Na semana anterior, a Rede Cerrado enviou ao Parlamento Europeu, à Comissão Europeia e ao Conselho da Europa uma carta pedindo a inclusão do Cerrado no escopo da legislação em discussão, “para assegurar a efetividade da proposta europeia, além de tornar a legislação mais robusta, fácil de implementar e com sistemas de monitoramento menos custosos (Rede Cerrado, 04/09/2022)”.
A Rede Cerrado é integrada por 132 organizações do aparato ambientalista-indigenista, entre elas o Greenpeace, WWF-Brasil, Observatório do Clima, 350.org, FASE e outras.
Apesar da contundência dos números, para entrar em vigor, a medida precisa ser aprovada individualmente por cada um dos 27 países membros da União Europeia (UE), algo um tanto improvável no atual cenário de instabilidade e alta de preços no continente, devido aos desdobramentos da guerra na Ucrânia.
Mas a aprovação ocorreu depois de, em agosto, um grupo de 14 países exportadores de commodities da América Latina, África e Ásia, encabeçado pelo Brasil, ter enviado à Comissão Europeia uma carta de protesto contra a iniciativa, rotulando-a de unilateral, em vez de negociar um compromisso internacional para lidar com tais objetivos compartilhados (Alerta Científico e Ambiental, 25/08/2022).
Para o cientista político Christopher Mendonça, professor de Relações Internacionais do Ibmec, devido à dificuldade de efetivação, a proposta deve ser vista mais como uma forma de “pressão formal por parte da UE”, do que como sanções de fato.
“As consequências, a priori, são nulas, porque ainda está em discussão. Precisa ser aprovada pelos países-membros, e não são todos que concordam com essa medida”, disse ele à Sputnik Brasil (13/09/2022).
Em sua avaliação, os países que deverão se opor à aprovação com mais ênfase serão Portugal, Espanha e Alemanha.
Por outro lado, ao mesmo tempo em que manifestam a sua hipócrita preocupação com o “desmatamento zero” nos países exportadores de commodities, os paladinos “ecológicos” europeus passam por cima da realidade de que as suas próprias florestas naturais remanescentes estão sendo impiedosamente abatidas para a obtenção de lenha, que já representa a principal fonte de energia “renovável” ou “carbono neutro” no continente, superando por larga margem as fontes eólicas e solares.
Acreditem se quiserem.
A prática já se manifestava anteriormente, mas foi acentuada pela crise de preços e abastecimento provocada pelas sanções à importação de gás natural e petróleo da Rússia.
Uma reportagem do New York Times, reproduzida no “Estadão” de 13 de setembro, mostra que países da Europa Central estão derrubando as suas últimas florestas naturais para a produção de pelotas (pellets) de madeira, uma fonte de energia subsidiada e considerada como “carbono neutro”, pois supostamente viria de reflorestamentos.
“As pessoas compram pellets de madeira pensando que isso é uma escolha sustentável, mas na realidade estão favorecendo a destruição das últimas florestas naturais da Europa”, disse David Gehl, da ONG Agência de Investigação Ambiental.
Na Finlândia e na Estônia, as florestas que eram consideradas como ativos cruciais para a redução do carbono na atmosfera estão sendo abatidas em tal proporção que cientistas passaram a considerá-las emissoras de carbono. Na Hungria, o governo suspendeu a legislação de conservação para permitir um aumento na exploração de florestas antigas.
De acordo com a reportagem, o Parlamento Europeu pretende eliminar os subsídios do setor, mas vários governos dizem que não é hora de interferir com eles, devido à redução do abastecimento de gás natural e petróleo da Rússia, e pressionam pela manutenção dos subsídios.
A Letônia advertiu sobre um “possível impacto negativo sobre o investimento e os negócios”. A Dinamarca argumentou que tais decisões deveriam ser competência dos governos nacionais.
Vale observar que os subsídios se referem somente à energia gerada a partir de resíduos madeireiros, como serragem, mas as exigências da crise energética europeia têm levado as autoridades a fazer vista grossa para a origem para o requisito. Na Romênia, país detentor da maior parte das florestas nativas ainda preservadas do continente, a reportagem do Times observou árvores abatidas sendo levadas às fábricas de pelotas sem qualquer problema.
Apesar de a produção madeireira não ser proibida em florestas protegidas na Europa, os governos são obrigados a realizar análises ambientais para garantir que as regiões sejam conservadas. Mas especialistas afirmam que essas análises são raridades. Em 2021, o Tribunal de Contas Europeu alertou que a situação de muitas dessas florestas supostamente protegidas encontra-se em um “status de conservação péssimo ou ruim”.
Mesmo antes da crise na Ucrânia, o crescimento do setor já superava a capacidade das autoridades para rastrear a origem da matéria-prima da indústria da lenha. Em 2021, as agências de fiscalização não conseguiram identificar a fonte de 120 milhões de toneladas métricas de madeira no continente, número maior que a toda a indústria madeireira da Finlândia.
Trocando em miúdos, ao mesmo tempo em que se apresenta como paladina das florestas e savanas tropicais, exigindo “desmatamento zero” dos países que as abrigam, a “ecológica” UE oferece subsídios para o corte de suas florestas nativas, e isto já ocorria em grande escala antes da crise ucraniana.
Os governos dos países produtores de commodities que se manifestaram recentemente contra essa agenda devem chamá-la pelo nome correto e seguir atuando em conjunto contra a hipocrisia “politicamente correta” do bloco europeu.
Em tempo: além de sinalizar a evidente dissonância entre as propaladas boas intenções ambientais para consumo externo e o pragmatismo no enfrentamento dos seus problemas energéticos internos, a ascensão do uso da lenha como combustível denota um grau de irracionalidade apenas explicável pela prevalência da ideologia ambientalista, com sua obsessão contrária aos combustíveis fósseis e à energia nuclear. Com isto, ressalta-se a ironia de que o continente mais tecnologicamente avançado em seu conjunto opte deliberadamente por reduzir a densidade energética das suas fontes de energia, privilegiando o combustível mais primitivo conhecido pela humanidade.
(Foto: Romania Insider.)

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