Como Biden pode mudar a cabeça de Bolsonaro sobre a Amazônia (ou como funciona a cabeça de um acadêmico neocolonialista)

O alemão Oliver Stuenkel é o típico acadêmico globalizado. Graduado em Administração de Empresas e Economia Internacional na Universidade de Valência (Espanha), mestre em Políticas Públicas pela Universidade de Harvard (EUA) e doutor em Ciência Política pela Universidade de Duisburg-Essen, em seu país natal, foi professor visitante na Universidade de São Paulo (USP) e na Universidade Jawaharlal Nehru (Índia) e atualmente é professor de Relações Internacionais na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP). Além disto, é pesquisador não-residente no Instituto de Políticas Públicas Globais (GPPi) de Berlim, membro da Rede Carnegie de Democracias Emergentes dos EUA e colaborador do jornal espanhol El País e da revista estadunidense Americas Quarterly, ligado à Americas Society e ao Council of the Americas, entidades vinculadas à família Rockefeller. De acordo com o seu currículo publicado na Plataforma Lattes, sua especialidade são as potências emergentes, especificamente, o Brasil, Índia e China, e seus impactos sobre a governança global. E também é um refinado poliglota, falando nada menos que nove idiomas (alemão, inglês, espanhol, português, italiano, francês, holandês, híndi e urdu).

De um intelectual com tais credenciais, esperam-se análises objetivas e aprofundadas, capazes de contribuir para um melhor entendimento da complexa dinâmica da atual mudança de época global, principalmente, na sua área de especialidade, as potências emergentes. Por isso, foi com certa surpresa que deparamos com o seu artigo de 11 de janeiro na Americas Quarterly, cujo título, “Como Biden pode mudar a cabeça de Bolsonaro sobre a Amazônia – Biden pode aprender lições importantes com o fracasso da Europa em persuadir o Brasil a moderar as suas políticas ambientais”, já sugere mais o trabalho de um ativista político do que uma obra analítica objetiva. A impressão apenas se reforça com a leitura do texto, com o qual o autor pretende oferecer ao novo presidente dos EUA um “roteiro” para enquadrar adequadamente o Brasil na agenda ambientalista-indigenista internacional, agindo mais como um intelectual orgânico do aparato “verde-indígena” do que como um scholar.

Vale registrar que poucas vezes a agenda desse aparato global foi tão bem explicitada como no artigo de Stuenkel. Pois vamos a ele:

Quando o presidente eleito dos EUA, Joe Biden, sugeriu, durante um debate presidencial em setembro, que os EUA oferecessem ao Brasil 20 bilhões de dólares para acabar com o desmatamento na Amazônia, ele fez menção a consequências econômicas não especificadas, se o presidente Jair Bolsonaro recusasse. Bolsonaro reagiu com raiva, respondendo em um tweet com letras maiúsculas que “NOSSA SOBERANIA NÃO É NEGOCIÁVEL” e que o Brasil não aceitaria “subornos” ou “ameaças infundadas”.

A reação frenética de Bolsonaro não foi surpreendente. Nos últimos dois anos, nem a abordagem mais agressiva da França, nem as decisões da Alemanha ou da Noruega de suspender seus pagamentos ao Fundo Amazônia – a Noruega, o maior doador do fundo, contribuiu com mais de um bilhão de dólares na última década -, levaram Bolsonaro a mudar de rumo. A aliança notavelmente ampla de ambientalistas, governos ocidentais, gestores de fundos internacionais que controlam trilhões de dólares e empresas europeias que ameaçam boicotar os produtos brasileiros, não teve muito impacto. Muito pelo contrário: em 2020, o desmatamento no Brasil atingiu a maior alta em 12 anos, com 2,7 milhões de hectares arrasados ​​no ano encerrado em julho passado. As multas por extração ilegal de madeira, um indicador-chave do compromisso do governo com o combate ao desmatamento, caíram para o nível mais baixo em 20 anos.

O cenário é desafiador, mas há esperança de que o governo Biden possa persuadir Bolsonaro a reduzir realmente o desmatamento. O ex-secretário de Estado John Kerry, que Biden nomeou para um papel de destaque como o czar do clima dos EUA, um novo cargo no Conselho de Segurança Nacional, provavelmente, ajudará significativamente nesse esforço. Existem pelo menos sete maneiras pelas quais Kerry e o governo Biden poderão ter sucesso onde outros não tiveram.

Em sequência, Stuenkel lista as suas recomendações (os grifos são nossos):

A primeira, e mais importante é, coordenando a política climática dos EUA para o Brasil com a União Europeia e outros membros do G-7, para aumentar a capacidade de pressão. (…)

Em segundo lugar, os EUA deveriam procurar reconfigurar todo o debate, afastando-se da ênfase na conservação à custa da soberania do Brasil – a linha de raciocínio de Bolsonaro -, para uma que ressalte como o reforço da capacidade do Brasil de monitorar a floresta tropical reforça a sua soberania sobre a Amazônia. Enquanto os EUA colocarem a conservação como uma forma de interferência nos assuntos do Brasil, as politicamente poderosas Forças Armadas e até mesmo moderados no Brasil, provavelmente, se alinharão relutantemente com o presidente. (…) Em 2019, uma vaga formulação do presidente francês Emmanuel Macron sobre um “status internacional” para a Amazônia constrangeu até mesmo ambientalistas brasileiros e permitiu a Bolsonaro reforçar os seus argumentos de que as preocupações ambientais no mundo rico são pouco mais do que uma cortina de fumaça para planos imperialistas de questionar o controle do Brasil sobre a maior floresta do mundo. (…) Apresentando o debate como se ele colocasse em lados opostos as interferências externas e a proteção da soberania brasileira, entre ambientalistas neocolonialistas e aqueles interessados no desenvolvimento econômico e na criação de empregos, Bolsonaro se beneficiou politicamente dos ataques. (…)

Terceiro, em troca de progressos mensuráveis na área do desmatamento, os EUA poderiam oferecer às Forças Armadas brasileiras o acesso a equipamento militar estadunidense mais sofisticado, para monitorar as suas longas e porosas fronteiras; aprofundando uma parceria que também poderia ajudar o Brasil em sua luta contra as cada vez mais poderosas redes criminosas transnacionais.

Quarto, Kerry deveria engajar prefeitos, governadores estaduais e a sociedade civil, que geralmente são mais ansiosos (eager, no original) para aprofundar a cooperação com doadores internacionais (sic); e uma parte significativa da ajuda climática estadunidense deveria ir diretamente para eles – em vez de se tentar induzir mudanças apenas no âmbito nacional.

Quinto, o governo dos EUA deveria deixar claro, a portas fechadas, que o acesso à OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico], a continuidade do status do Brasil como um importante aliado não-OTAN e qualquer redução adicional de barreiras comerciais não-tarifárias seja condicionada a melhoramentos significativos na área do desmatamento.

Sexto, o governo dos EUA não deveria fazer ameaças de consequências econômicas – como fez Biden durante o debate com Trump, em setembro -, a menos que esteja disposto a levá-las adiante. (…) Implementar as ameaças é crucial, porque o presidente do Brasil, certamente, irá testar para ver se Biden está blefando. Afinal de contas, combater o desmatamento será politicamente custoso para Bolsonaro… o disparo do desmatamento no Brasil não é uma questão de capacidade limitada do governo – é o resultado de um projeto político que assegure a sobrevivência política de Bolsonaro.

Finalmente, na medida do possível, tais negociações deveriam ocorrer a portas fechadas. Em lugar de convidar Bolsonaro a um festival no Twitter, como Macron fez em 2019 – um campo onde o presidente do Brasil se sente à vontade -, o governo dos EUA será bem mais efetivo se recorrer à tradicional diplomacia de bastidores. Com Kerry, que negociou com sucesso o acordo nuclear do governo Obama com o Irã, Biden pode olhar para alguém com uma experiência comprovada nessa arena.

A primeira reação de um leitor brasileiro diante da listagem de Stuenkel poderia ser de indignação, diante do que se parece mais uma carta de instruções a um procônsul colonial para lidar com uma colônia submissa. Na verdade, porém, é preciso agradecer ao autor, pois raramente a agenda neocolonialista do Establishment oligárquico internacional foi exposta com tanta clareza, poupando grande parte do trabalho de se interpretarem as intenções e ações dos governos das potências intervencionistas agrupadas na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) – aliás, um dos berços do ambientalismo internacional (ver Alerta Científico e Ambiental, 08/10/2020). Aí está ela, exposta às claras, mal disfarçada como uma divagação, ainda que pretensiosa, de um acadêmico que coloca seu conhecimento a serviço do “neocolonialismo verde”.

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