Chico Whitaker: entre a desinformação, a insanidade e a má-fé

Em um artigo publicado na Folha de S. Paulo de 9 de setembro, com o provocativo título “Entre a desinformação e a insanidade”, o arquiteto, ativista social e antinuclear Francisco “Chico” Whitaker, repetiu a tática favorita da militância antinuclear, misturando desconhecimento, desinformação, meias verdades e uma dose atômica de má-fé.

O mote do texto foi a sua preocupação com uma proposta de um acordo de cooperação na área nuclear entre os governos do Brasil e do Japão. Com base nisto, disparou uma chuva de críticas, evocando as tragédias de Fukushima (2011) e Chernobyl (1986) e o acidente radioativo com césio-137 em Goiânia (1987), para transmitir a mensagem de que a energia nuclear seria um “modo extremamente perigoso de esquentar água e produzir vapor para girar turbinas”, para produzir eletricidade.

Contudo, Whitaker faria bem em informar-se melhor, antes de escrever. Em conversa com este Alerta, uma credenciada fonte do setor nuclear confirmou o citado acordo de cooperação com o Japão é similar a outros assinados pelo governo brasileiro com dezenas de outros países e não envolveria a construção de reatores nucleares. Ainda assim, Whitaker se esforça em apresentar qualquer possível cooperação japonesa como um alto risco de um desastre nuclear no Brasil, sugerindo que o desastre de Fukushima comprovaria a insegurança da tecnologia nuclear do país asiático. O inflamado militante não se deu ao trabalho de verificar que o Japão opera centrais nucleares desde a década de 1960 e que, antes de Fukushima, elas geravam um terço da eletricidade consumida no país. Ademais, nenhuma estrutura construída pelo homem resistiria a um terremoto de 9 graus na Escala Richter seguido de uma tsunami como a que devastou a usina.

Em sua argumentação desonesta, Whitaker promove o surrado alarmismo ideológico contra a energia nuclear, afirmando que um improvável acidente nuclear no complexo de Angra poderia “atingir mais de 30 milhões de pessoas que vivem no Rio e em São Paulo, e suas regiões”.

Whitaker ainda afirma, no mesmo artigo, que o governo brasileiro teria sido obrigado a tomar a decisão de emprestar dinheiro da Caixa Econômica Federal (CEF) para financiar, em parte, as obras de Angra 3, em substituição a empréstimos junto a bancos europeus, devido a uma suposta incapacidade de demonstrar, junto à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), a segurança da construção do novo reator. Isto, segundo ele, teria levado os bancos europeus a se recusarem a financiar a usina, cabendo à CEF cobrir a diferença.

Uma vez mais, Whitaker se esquivou de fazer o dever de casa. Além de desconhecer que os padrões de segurança do setor nuclear nacional são considerados entre os melhores do mundo, ele foi desonesto quanto à causa da opção pelo financiamento interno. Em entrevista anterior à Folha (7/06/2013), o presidente da Eletronuclear, Othon Luiz Pinheiro da Silva, esclareceu a decisão do governo brasileiro de recorrer ao empréstimo da CEF se deveu ao fato de que a empresa francesa Areva, que seria responsável pelo financiamento de 1,2 bilhão de euros (cerca de R$ 3 bilhões), não conseguiu efetuar o empréstimo junto aos bancos europeus, devido à crise internacional, que reduziu a liquidez do mercado externo e obrigou o governo brasileiro a recorrer à solução interna.

O custo total do empreendimento deverá ser da ordem de R$ 10 bilhões, sendo que cerca de 75% destes gastos serão efetuados no Brasil. Do montante, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) financiará R$ 6,1 bilhões e a Eletronuclear também receberá R$ 890 milhões da Eletrobrás, oriundos do fundo da Reserva Global de Reversão (RGR), cujos saldos devem ser aplicados no próprio setor elétrico.

Curiosamente, além de membro da da Coalizão por um Brasil Livre de Usinas Nucleares, Whitaker também integra a Comissão Brasileira Justiça e Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), sendo considerado um católico fervoroso. Mas, pelo visto, assim como desconhece solenemente a questão nuclear, ele parece também não estar bem informado sobre a posição da Igreja Católica sobre a energia atômica. Vale recordar que o Vaticano é membro fundador da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e tem se manifestado repetidamente em favor dos usos pacíficos da energia nuclear, inclusive a geração elétrica.

Em setembro do ano passado, por ocasião da 56a Conferência Geral da AIEA, em Viena, o arcebispo Dominiqe Mamberti, secretário de Estado do Vaticano para as Relações com os Estados, destacou a importância de se promoverem “os usos pacíficos e seguros da tecnologia nuclear para o autêntico desenvolvimento, respeitando o meio ambiente” (Zenit.org, 20/09/2012).

Em 2009, o Pontíficio Conselho Justiça e Paz qualificou a energia nuclear como “um direito fundamental para o desenvolvimento econômico e social” (vaticaninsider.lastampa.it, 4/03/2012). Em resumo, a posição oficial da Igreja é de que o uso da energia procedente das mais modernas usinas nucleares, que são mais seguras, devem seguir sendo uma opção viável para os países que desejam garantir o suprimento de energia às suas economias nacionais.

No Brasil, em dezembro de 2012, o presidente da CNBB, Dom Raimundo Damasceno Assis, visitou a central nuclear de Angra dos Reis. Na ocasião, Dom Damasceno elogiou a Eletronuclear pela qualidade da operação das usinas:

A postura da CNBB é de apoiar a pesquisa científica para o bem da nossa sociedade. Pude constatar que tudo aqui é feito com muita seriedade, responsabilidade e cuidado… Nós precisamos de energia para o nosso dia a dia e, nesse sentido, a energia nuclear está dando uma contribuição muito grande para o país. Sabemos também dos usos benéficos da tecnologia nuclear em outras áreas, como a medicina.

Na visita, Dom Damasceno foi acompanhado por Dom José Ubiratan Lopes, bispo de Itaguaí, diocese responsável pelo município de Angra dos Reis, que declarou que, em sua opinião, quando a energia nuclear é empregada com ética, com vistas ao bem comum, constitui uma tecnologia importante para a humanidade: “É uma energia limpa, que não polui. Promove o progresso sem lesar a natureza. Além disso, a segurança é absoluta (Alerta Científico e Ambiental, 9/01/2013).”

Como se percebe, ambos os prelados se mostraram distantes da concepção retrógrada de Whitaker, e consentâneos com a esclarecida posição do Vaticano em relação ao assunto. Quanto ao veterano ativista (81 anos), ele parece ser um caso exemplar da máxima de que de boas intenções está pavimentado o caminho que leva ao inferno.

One comment

  1. Senão de forma superficial ou conceitual, posso definir o significa o conteúdo da chamada ENERGIA NUCLEAR. É real que vivemos e convivemos num ambiente cosmo-físico, sobre o qual, muito, ainda, precisamos aprender. Sou, de certa forma, privilegiado em poder observar o universo, em derredor, nas manhãs e, às vezes, nas noites enluaradas e sei que, todo, o cosmo e, todo, o universo está preparado para, por si, só, sobreviver à quaisquer intempéries. Sou Cristão, Esotérico, e vivo num ambiente de Fé. No princípio criou Deus oscéus e a terra que era sem forma e vazia… (Génesis, I,.. versículos 1… -é bom ler). Para o homem, tudo, foi preparado e nada falta, inclusive, os conhecimentos dos cientistas e as conclusões encontradas sobre o universo e as suas características. Um dia, tudo, vai acabar e a humanidade apreciara (muitos dos nossos…) verão (já estamos vendo) o planeta em que morejamos o pão nosso de cada dia ser sacudido e a natureza alterada, de tal forma que, nele, não se poderá, mais, habitar, exatamente, por estar sendo corroído e devastado … Ele, o planeta, também, está sujeito às mesmas regras. O mundo e, tudo, o que nele há, foi feito de “uma vez por todas “; O Grande Arquiteto deste Universo, um dia, deu a Palavra final de que, ao homem é dado conhecer todos os mistérios da natureza. Porque não compreender a intenção do ativista antenuclear CHICO WHITAKER.. cuja ansiedade científica é bem vinda…

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