Cem anos após a I Guerra Mundial, quem quer outro conflito global?

A segunda-feira 28 de julho marca o centenário do início da I Guerra Mundial (1914-1918). Além dos 19 milhões de mortos, entre militares e civis, o conflito – um dos mais sangrentos da História – teve profundas consequências políticas e socioeconômicas, que alteraram drasticamente o mapa político da Europa (e, em menor escala, da África e da Ásia), além de criar condições para a proliferação de várias epidemias e pandemias entre as populações debilitadas, que, nos anos seguintes, vitimaram outras dezenas de milhões de pessoas.

Após um século, ainda não é tarefa simples entender como o assassinato do herdeiro do Império Austro-Húngaro e sua esposa, por um estudante sérvio radical, numa rua de Sarajevo, em 28 de junho de 1914, se desdobrou, em apenas 30 dias, em uma rápida sequência de declarações de guerra entre as principais potências europeias. O resultado foi o sangrento confronto que, nos quatro anos e meio seguintes, devastaria o continente e o privaria de uma parcela considerável da nata da sua juventude (apenas a Alemanha perdeu 17% da sua população masculina em idade produtiva, contra 10,5% da França). Dos 60 milhões de militares europeus mobilizados, 8 milhões morreram, 7 milhões sofreram mutilações incapacitantes e 15 milhões sofreram outros ferimentos graves.

As raízes da tragédia remontam às alianças articuladas pelas potências europeias no século XIX, com o objetivo de manter um equilíbrio de poder entre si, agravadas pela escalada armamentista entre os impérios alemão e britânico e por uma série de conflitos regionais nos Bálcãs, envolvendo o Império Austro-Húngaro, a Sérvia e o Império Otomano (nenhum dos quais sobreviveria ao conflito em sua forma anterior). No entanto, a dimensão colossal e inesperada que o embate viria a tomar decorreu de uma pletora de erros de avaliação e julgamento, por parte das principais lideranças políticas e militares dos futuros beligerantes – de um lado, França, Reino Unido e Rússia; do outro, Alemanha e Áustria-Hungria. Em especial, todos fizeram os seus planos e cálculos com base nas guerras do século anterior, desconsiderando os possíveis impactos dos avanços na tecnologia bélica – metralhadoras, aviões, artilharia de longo alcance etc. – sobre unidades de infantaria treinadas de acordo com táticas adequadas à época das cargas de cavalaria e dos mosquetões de um único tiro.

Cem anos depois, o grupo de sociopatas piromaníacos que controla a estrutura de poder hegemônico consolidada a partir da segunda metade do século XX, nucleada em Washington e Nova York, com importantes ramificações em Londres, Bruxelas e Tel Aviv, se mostra inclinado a adotar a opção “fogo no circo”, em um esforço para a reversão do seu visível declínio como força hegemônica. Em sua insanidade, tais círculos não se melindram com a possibilidade de provocar um novo conflito de grandes proporções e consequências imprevisíveis para todo o planeta. Ao contrário, esta parece ser a sua intenção ostensiva, a julgar pela escalada de provocações desfechada contra a Federação Russa, em torno da crise na Ucrânia, agravada com a derrubada do voo MH17 da Malaysia Airlines sobre a região conflagrada, em paralelo com a nova – e, como de hábito, sangrenta – investida militar de Israel contra Gaza.

Como afirma o sociólogo e historiador estadunidense Immanuel Wallerstein, em um comentário publicado em seu sítio, em 15 de julho:

O problema básico é que os EUA estão, e já há algum tempo, em decadência geopolítica. E não gostam disto. Em realidade, não o aceitam. Certamente, não sabem como manejar este fato, ou seja, minimizar as perdas para os EUA. Então, continuam tentando restaurar o que é irrestaurável – a “liderança” estadunidense (leia-se hegemonia) no sistema-mundo. Isto faz dos EUA um ator muito perigoso. Não é pequeno o número de agentes políticos nos EUA que estão clamando por algum tipo de ação “decisiva” – seja lá o que isto significar. (…)

Embora Wallerstein prefira generalizar com o nome do país, para situar o grupo de interesses que controla o seu governo, a observação é certeira quanto à sua intenção incendiária.

No Asia Times Online, o sempre atento jornalista Pepe Escobar detalha a agenda do que chama “Império do Caos”:

(…) A “política” do Império do Caos é clara e multifacetada: diversificar o “pivô para a Ásia”, estabelecendo uma cabeça-de-praia na Ucrânia, para sabotar o comércio entre a Europa e a Rússia; expandir a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) até a Ucrânia; romper a parceria estratégica Rússia-China; evitar por todos os meios a integração comercial e econômica da Eurásia, da parceria russo-alemã às novas Rotas da Seda, convergindo da China para o Ruhr; manter a Europa sob a hegemonia dos EUA (Asia Times Online, 23/07/2014).

Nessa estratégia de caos deliberado, o alvo central é a Federação Russa de Vladimir Putin, que se converteu no principal obstáculo à concretização daqueles planos de autoperpetuação, em particular, depois de impedir uma escalada nos conflitos no Oriente Médio, evitando uma ação militar estadunidense na Síria e contribuindo decisivamente para as negociações políticas sobre o programa nuclear do Irã.

Por isso, Moscou entrou na agenda de fustigamento estabelecida com a crise na Ucrânia, na qual o papel determinante desempenhado pelos elementos externos controlados por Washington, Londres e Bruxelas não pode ser ocultado, embora a repercussão a respeito seja incomparavelmente inferior à conferida ao apoio russo aos insurgentes do Leste da Ucrânia, que não aceitam o novo governo de Kiev. A intenção visível é instigar uma aberta intervenção russa em favor dos rebeldes que proclamaram as denominadas repúblicas autônomas de Donetsk e Lugansk, cujas cidades têm sido submetidas a pesados ataques militares, de modo a justificar uma contraintervenção igualmente direta da OTAN. Como Putin não tem se mostrado disposto a engolir a isca, nas últimas semanas, o lado ocidental embarcou em uma agressiva escalada de provocações contra a Rússia.

No domingo 13 de julho, uma granada de artilharia disparada da Ucrânia atingiu uma casa na região russa de Rostov, matando uma pessoa e ferindo outra duas. No mesmo dia, outros seis petardos explodiram, sem causar vítimas, na pequena cidade russa de Donetsk, homônima da cidade ucraniana do outro lado da fronteira. Embora tenha protestado vigorosamente contra os ataques, a reação do governo russo não foi além disto (RT, 15/07/2014).

Na mesma ocasião, o governo britânico negou os vistos de entrada para a maioria dos representantes oficiais russos que participariam do Show Aéreo Internacional de Farnborough, um dos mais importantes eventos do gênero no mundo, oficialmente, “devido às ações russas na Ucrânia” (RT, 12/07/2014).

Na quarta-feira 16, véspera do ataque ao avião da Malaysia Airlines, o próprio presidente Barack Obama se encarregou de anunciar um novo pacote de sanções estadunidenses contra indivíduos e empresas russas supostamente engajadas na “desestabilização da Ucrânia”. Nas palavras de Obama, “a liderança russa verá, outra vez, que as suas ações na Ucrânia têm consequências. (…) Nós vivemos em um mundo complexo e em uma época desafiadora. Nenhum desses desafios se presta a soluções rápidas ou fáceis, mas todos eles requerem a liderança estadunidense (RT, 16/07/2014)”.

No dia seguinte, o Senado introduziu o Projeto de Lei de Prevenção de Agressão Russa, o qual garante à Ucrânia, Geórgia e Moldávia o status de “aliados importantes dos EUA não membros da OTAN” e autoriza o presidente a fornecer-lhes ajuda militar e econômica, diretamente ou por intermédio da OTAN, a título de prevenir ações agressivas da Rússia.

Porém, o evento crucial, no mesmo dia, foi a derrubada do voo MH17, que deflagrou uma imediata avalanche de acusações contra Moscou, respaldadas por uma implacável barragem de artilharia midiática, antes mesmo que qualquer investigação séria sobre o caso fosse feita.

As acusações iniciais vieram do governo de Kiev, cujos representantes acusaram, indiscriminadamente, os insurgentes do Leste e seus apoiadores russos, pela tragédia, que resultou na morte das 298 pessoas que estavam a bordo da aeronave – ao mesmo tempo em que se empenhavam em ocultar as evidências de uma possível responsabilidade sua, além de disseminar incriminadoras pistas falsas (ver “MH17: Guerra Fria midiática”, neste sítio).

Imediatamente, a destruição do Boeing 777 da empresa malaia foi atribuída por autoridades ucranianas a um míssil antiaéreo Buk M1, de fabricação russa, alegadamente disparado pela Rússia ou pelos insurgentes, com apoio russo (o fato de que o Exército ucraniano também dispõe do equipamento não foi sequer considerado).

Ato contínuo, Kiev não perdeu tempo em solicitar o apoio dos EUA e da OTAN, para a sua ofensiva contra os separatistas. “Os EUA devem proporcionar-nos, imediatamente, armas modernas de precisão e proteger-nos do ar, enquanto a OTAN deve iniciar uma operação militar terrestre”, afirmou o assessor do Ministério do Interior, Zorian Shkiriak (RT, 18/07/2014).

As diatribes de Kiev foram sustentadas por Washington, Londres e Camberra, cujos mandatários se superaram em declarações agressivas contra Moscou. O secretário de Estado John Kerry se apressou em afirmar que o episódio assinalava “o momento da verdade para a Rússia”, aproveitando para pressionar a até agora relutante União Europeia a se juntar aos EUA na ampliação das sanções já aplicadas à Rússia. Para ele: “Está bastante claro que este é um sistema que foi transferido pela Rússia às mãos dos separatistas. Nós sabemos, com confiança, que os ucranianos não tinham tal sistema em qualquer lugar na vizinhança daquele ponto e naquela hora; então, obviamente, isto aponta um dedo claro para os separatistas (DW, 21/07/2014).”

Para não ficar atrás dos seus colegas pesos-pesados, o australiano Tony Abbott bancou o proverbial rato que ruge, disparando, na rede de televisão ABC: “Território controlado pela Rússia, rebeldes apoiados pela Rússia, muito provavelmente, uma arma fornecida pela Rússia. A Rússia não pode lavar as suas mãos disto (The Guardian, 20/07/2014).”

Em meio a semelhante barragem, poucos se recordaram do crucial episódio do ataque químico a um subúrbio da capital síria Damasco, em agosto do ano passado, prontamente atribuído às Forças Armadas sírias, mas que acabou se revelando ter sido de autoria dos rebeldes que combatem o governo do presidente Bashar al-Assad (Resenha Estratégica, 28/08/2013 e 16/04/2014). Na ocasião, apenas a intervenção de Moscou, negociando a desativação do arsenal químico sírio, impediu um anunciado ataque militar estadunidense contra o país – iniciativa pela qual os belicistas de Washington não perdoaram Putin e seus aliados.

Em outra nota neste sítio, apresentam-se mais detalhes “operacionais” desta feroz investida contra a Federação Russa, por parte dos incendiários saudosistas de um novo grande conflito global. Apenas, desta vez, no Kremlin, não está um débil símbolo de um império decadente e incapaz de se renovar, mas um estadista de estatura mundial, empenhado na substituição da agenda hegemônica de confrontação por uma pauta de cooperação internacional, para a construção de uma ordem mundial favorável a um impulso de desenvolvimento compartilhado. E que conta com um serviço de inteligência de primeira classe.





x

Check Also

O MPF, a Funai e o fantástico mundo dos “espíritos”

Os indígenas brasileiros poderão agora pleitear indenizações por “danos espirituais” decorrentes de ações dos homens ...