“Carbono zero”: agenda e desafios para o Brasil

Artigo baseado na apresentação do autor no 1º Webinar Brasil 2022, promovido pelo Instituto General Villas Bôas, em Brasília, 27 de agosto de 2021.

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Em sua apresentação no 1º Webinar Brasil 2022, promovido pelo Instituto General Villas Bôas, em Brasília, em 25 de agosto, dedicado ao tema “Uma moderna visão da plataforma geopolítica da Amazônia e as ações estratégicas para a defesa dos interesses nacionais na questão ambiental”, o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou que a agenda da sustentabilidade representa uma ameaça à soberania nacional. “Quando a gente vê discurso de líderes de países estrangeiros sobre a Amazônia, é uma intervenção”, disse ele.

Na ocasião, o vice-presidente, que preside o Conselho Nacional da Amazônia Legal, também investiu contra as organizações não-governamentais (ONGs) que praticam um ambientalismo radical, associando-as a “interesses pouco republicanos”.

Em realidade, em sua essência, o discurso da sustentabilidade é uma das facetas de uma agenda mais ampla de intervencionismo político-econômico e influência ideológica, o ambientalismo-indigenismo, que desde o final da década de 1980 vem servindo como braço “politicamente correto” da globalização financeira, cuja pauta é a erosão das soberanias dos Estados nacionais, em favor dos centros de poder situados nas nações mais avançadas do Hemisfério Norte. Com essa dupla pauta, a maioria dos países em desenvolvimento e subdesenvolvidos, mais de 150 das 195 nações do planeta, passou a ter as suas perspectivas de desenvolvimento vinculadas aos fluxos financeiros internacionais e, junto com eles, às condicionantes ambientalistas-indigenistas, que têm muito pouco a ver com os problemas reais do meio ambiente e dos povos indígenas.

Infelizmente, o Brasil não é exceção. Desde a década de 1990, o País atrelou o seu rumo aos mercados financeiros internacionais e, com esta dependência, também veio junto a agenda ambientalista-indigenista, à qual todos os governos anteriores ao atual se submeteram de forma quase totalmente acrítica, o que tem resultado em grandes prejuízos e conflitos prejudiciais às nossas aspirações de desenvolvimento. Mas, até mesmo o atual governo, que foi o primeiro a contestar essa pauta alheia aos interesses nacionais, se manteve atrelado aos fluxos financeiros externos, resultando em uma vulnerabilidade que não lhe tem permitido desenvolver plenamente uma política ambiental e indígena adequada àqueles interesses e melhor capacitada para enfrentar as pressões externas.

Em quase três décadas de atividades, o Movimento de Solidariedade Ibero-americana (MSIa), do qual sou um dos fundadores, tem se empenhado em expor os tentáculos desse aparato intervencionista, no Brasil e no exterior, por meio de livros, edições especiais do jornal Solidariedade Ibero-americana e o boletim eletrônico Alerta Científico e Ambiental. Tal ação de esclarecimento já nos valeu uma notificação judicial do Greenpeace, que ignoramos, e um processo movido pela filial brasileira do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), a ONG do ursinho panda, uma das mais poderosas do mundo, diretamente vinculada às monarquias europeias, que estiveram na origem do movimento ambientalista, há seis décadas. O processo levou nove anos, foi parar no Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília, mas ganhamos nas três instâncias e nunca mais nos perturbaram.

Nesse período, obtivemos alguns triunfos “táticos”, poucos mas relevantes.  Em 2007, denunciamos e ajudamos a torpedear a Iniciativa para Conservação da Bacia Amazônica (ABCI, em inglês), programa de 65 milhões de dólares da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), com o objetivo de capacitar em “governança ambiental” uma rede de ONGs do Brasil, Bolívia, Peru, Colômbia e Equador, para fiscalizar atividades econômicas nas áreas fronteiriças do bioma Amazônia, consideradas “deletérias” para o meio ambiente e os povos indígenas. Na ocasião, o Ministério da Defesa, por intermédio do seu secretário de Política Internacional, general Maynard Marques de Santa Rosa, acionou o Itamaraty e a pressão contrária forçou a USAID a cancelar o programa, que retornou depois, convertido em Iniciativa para Conservação da Amazônia Andina, sem a participação do Brasil, que era o alvo primário.

Em 2011, juntamente com um grupo de cientistas e pós-graduandos de universidades de São Paulo, contribuímos para derrubar um dos projetos de lei mais bizarros já apresentados no País, a “Lei dos Telhados Brancos”. Se aprovada, a lei obrigaria a todas as unidades residenciais e comerciais da cidade de São Paulo a pintar seus telhados de branco em até 180 dias, supostamente, para combater o “aquecimento global”. O projeto já havia sido aprovado em primeira votação na Câmara Municipal e, se aprovado na segunda, iria à sanção da Prefeitura paulistana. Para seu mérito, o vereador que propôs a lei, Antonio Goulart, deu ouvidos aos nossos argumentos e convocou uma audiência pública, na qual participaram inclusive consultores estrangeiros. Nela, ficou claro que não havia qualquer fundamento científico para a proposta, que ele teve a decência de retirar. Esta foi uma das raras oportunidades em que os críticos da histeria climática em curso puderam expor aberta e objetivamente os seus pontos de vista em um fórum político nacional, pois geralmente costumam ser ostensivamente ignorados e rotulados depreciativamente como “negacionistas”, palavra que leva uma forte conotação pejorativa e caluniosa.

Em 2015, denunciamos no Brasil e ajudamos a torpedear um projeto muito caro ao aparato ambientalista-indigenista, o chamado Corredor Triplo A – de Andes-Amazonas-Atlântico -, cuja proposta era criar o maior corredor de conservação do mundo, uma área contínua de 1.350.000 quilômetros quadrados de unidades de conservação e terras indígenas, dos quais quase dois terços em território brasileiro. Não é preciso ser um especialista em geopolítica para perceber que, se o projeto fosse implementado, seria virtualmente impossível desenvolver qualquer atividade econômica moderna ou projeto de infraestrutura em toda essa vasta região. A proposta, do fundador da ONG colombiana Fundación Gaia Amazonas, o antropólogo colombiano-estadunidense Martín von Hildebrand, foi encampada pelo então presidente colombiano Juan Manuel Santos, que pretendia apresentá-la como uma iniciativa sul-americana na conferência climática COP-21, que se realizaria em Paris, em dezembro de 2015.

Uma vez mais, tivemos a satisfação de ver a nossa denúncia acolhida por instituições do Estado brasileiro, as Forças Armadas e o Itamaraty, e a proposta não foi adiante. Um papel fundamental no processo foi desempenhado pelo general Eduardo Villas Bôas, então comandante do Exército, que denunciou o “Triplo A” no Senado brasileiro, quando também advertiu para o “déficit de soberania” brasileira na Amazônia.

Fig. 1 – Mapa do Corredor Triplo A (Andes-Amazônia-Atlântico) (Fonte: Fundación Gaia Amazonas)

Mas o nosso principal triunfo “estratégico”, por assim dizer, é o fato de dezenas de milhares de brasileiros de todas as áreas da sociedade terem adquirido uma percepção mais realista sobre o ambientalismo-indigenismo por meio do nosso trabalho editorial e em centenas de palestras em todo o País.

A pauta do “carbono zero” é a versão mais atualizada dessa investida e, para entendê-la melhor, temos que fazer algumas considerações.

1. A agenda ambiental/climática é política e financeira

Ao contrário do que o alarmismo ambientalista vem trombeteando há mais de meio século, não existe uma crise ambiental no planeta. Existem, sim, problemas ambientais, a grande maioria pontuais, de alcance local ou regional, que podem e devem ser enfrentados e solucionados por uma combinação de conhecimento científico, recursos tecnológicos, vontade política e, sobretudo, doses planetárias de bom senso, artigo que anda escasso nessa discussão. Alguns poucos problemas têm um alcance maior, como a poluição dos oceanos, mas nada que possa ser qualificado como uma crise global.

O ambientalismo não é um fenômeno sociológico espontâneo, que emergiu de uma conscientização ampla sobre a necessidade de se compatibilizarem as ações humanas com certos requisitos racionais de proteção do meio ambiente. Na verdade, é uma ideologia criada artificialmente por grupos oligárquicos da América do Norte e Europa – especialmente, dos EUA, Canadá, Reino Unido, Holanda, Noruega, França, Alemanha e Bélgica -, com objetivos bem definidos e pouco disfarçados:

1) Controle demográfico: Todos esses grupos compartilham uma crença comum no malthusianismo, a surrada concepção do reverendo Thomas Malthus, no século XVIII, de que os recursos naturais da Terra, principalmente, alimentos, seriam insuficientes para suportar uma grande população no planeta – idéia já bastante desqualificada pelos avanços na produção de alimentos. O ambientalismo é filho legítimo do malthusianismo.

2) Preservação de recursos naturais como “reserva estratégica”, principalmente nos países em desenvolvimento.

3) Limitação da industrialização e do desenvolvimento econômico em geral, preferencialmente, aos “40 ricos”, que representam apenas uma pequena fração da população mundial.

4) Cada vez mais, uma boia de salvação para o sistema financeiro internacional “globalizado”, após a grande crise de 2008. Como se sabe, a “globalização” separou o sistema financeiro da economia real e o converteu em um fim em si próprio. O resultado é que existe uma enorme quantidade de instrumentos financeiros especulativos circulando no mundo, que supera em 15 a 20 vezes o Produto Interno Bruto (PIB) global. Essa bolha gigantesca não irá durar muito e os oligarcas que controlam o sistema estão aflitos para converter pelo menos parte desses “ativos” voláteis em ativos reais, antes do estouro da bolha. É aí que entram os “títulos verdes”, “créditos de carbono” e outros instrumentos vinculados à suposta crise climática, que não têm uma finalidade econômica real, mas predominantemente financeira.

A essa pauta, somou-se posteriormente o indigenismo, sob o disfarce de preocupações com os povos indígenas do planeta, mas cujo objetivo real é o fomento de tensões intranacionais, com a promoção de um “etnonacionalismo” entre as populações indígenas, visando a desvinculá-las do processo formador dos Estados nacionais que integram.

Em síntese, o objetivo geral da doutrinação ambientalista é “convencer” os povos e países atrasados do mundo, de que a Terra não tem recursos naturais e o meio ambiente não suportaria as suas pretensões de atingir níveis de desenvolvimento socioeconômico pelo menos próximos dos das nações avançadas. Todo o discurso do “desenvolvimento sustentável”, “capacidade de suporte”, “pegada ecológica”, “sobrecarga da Terra” e outros conceitos falaciosos afins, é orientado para tal finalidade. A histeria climática e a pauta do “carbono zero” são parte desse processo.

E quem afirma às claras que essa agenda não tem nada a ver com problemas ambientais reais são os seus próprios mentores e operadores.

Vejamos, por exemplo, o que diz o economista alemão Ottmar Edenhofer, vice-diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impactos Climáticos (PIK) e copresidente do Grupo de Trabalho 3 (WG3) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC):

Basicamente, é um grande erro discutir a política do clima separadamente dos grandes temas da globalização… É preciso libertar-se da ilusão de que a política climática internacional é política ambiental. Isto não tem mais quase nada a ver com política ambiental, com problemas como o desmatamento ou o buraco na camada de ozônio (Neue Zürcher Zeitung14/11/2010).

O PIK é um dos principais órgãos engajados na promoção do alarmismo climático e o IPCC, como se sabe, é a entidade que supostamente representa um inexistente “consenso” científico sobre a influência humana no clima global. Aliás, “consenso” é um conceito alheio à verdadeira Ciência, que não é uma atividade “democrática”, mas baseada em uma rigorosa correspondência entre hipóteses e fatos, algo que falta no alarmismo climático.

O fundador do PIK, o físico alemão Hans-Joachim Schellnhuber, é um dos cientistas mais influentes na promoção desse alarmismo, tendo sido assessor científico da chanceler alemã Angela Merkel e do papa Francisco, na elaboração da encíclica Laudato Si, de 2015. Ele é também o criador do “número mágico” de 2oC, que seria o limite de aumento da temperatura que não poderia ser superado, sob o risco de provocar um “aquecimento descontrolado” da atmosfera da Terra. Pois vejamos o que ele admitiu, em uma entrevista de 2010:

Dois graus não é um limite mágico – é claramente um objetivo político. O mundo não vai acabar logo, no caso de um aquecimento mais forte… A realidade, claro, é muito mais complicada. Sim, eu me assumo culpado (Spiegel International, 01/04/2010 ).

E ouçamos também o ínclito Al Gore, ex-vice-presidente dos EUA, Prêmio Nobel da Paz de 2007 e Oscar de melhor documentário no mesmo ano, por aquele amontoado de falsidades científicas que é o documentário Uma verdade inconveniente. Este é um trecho de uma entrevista de 2018 à rede de televisão estadunidense PBS, em que a entrevistadora comenta o tom alarmante de um relatório divulgado pelo IPCC naquele ano:

Judy Woodruff – Eles estão pintando um quadro muito mais alarmante sobre o que enfrentamos, do que sabíamos anteriormente.

Al Gore – A linguagem que o IPCC usou na apresentação foi um pouco torcida para cima, adequadamente – de que outra maneira eles conseguiriam a atenção dos formuladores de políticas de todo o mundo?

Exagerar na linguagem catastrofista – e muito, não só “torcer um pouco” – tem sido o modus operandi padrão dos mentores do ambientalismo desde o início, continuando até hoje. A intenção é clara: criar um forte impacto na opinião pública, para justificar as medidas políticas, econômicas e financeiras pretensamente “salvadoras”, supostamente, em benefício de toda a humanidade.

Em 1972, por exemplo, o magnata canadense Maurice Strong, que foi o secretário-geral da Conferência de Estocolmo, a primeira grande conferência das Nações Unidas sobre temas ambientais, disse ao jornal sueco Dagens Nyheter: “Nós temos dez anos para deter a catástrofe (ambiental).”

Maurice Strong foi um dos mais ativos articuladores do que chamamos o aparato ambientalista internacional, tendo sido o primeiro diretor-geral do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), secretário-geral da conferência Rio-92, realizada no Rio de Janeiro, em 1992, além de exibir um vasto currículo de dirigente de fundações privadas e ONGs de alto escalão do aparato ambientalista.

Como se vê, o apocalipse já estava sendo anunciado há quase meio século, para dali a dez anos. Hoje, o prazo não mudou muito, haja vista as manchetes apocalípticas referentes ao último relatório do IPCC, anunciando a iminência de um desastre climático (Fig. 2). Mas, como o mundo não acabou desde o prognóstico de Maurice Strong, pode-se concluir que ele e seus pares não devem ser levados a sério.

Fig. 2 – Manchetes de jornais ingleses sobre o sexto relatório do IPCC, divulgado em julho de 2021. O tom catastrofista é onipresente.

2. Não existe emergência climática

Esta é uma questão-chave, pois todo o discurso apocalíptico sobre o clima se baseia na tese falaciosa de que as emissões de carbono das atividades humanas, principalmente, o uso de combustíveis fósseis – carvão mineral, petróleo e gás natural –, estariam provocando um aquecimento ameaçador da atmosfera da Terra.

Ora, para que isso fosse verdadeiro, seria preciso que os padrões das oscilações das temperaturas da atmosfera e dos oceanos e dos níveis do mar, observados a partir da Revolução Industrial do século XVIII, apresentassem anomalias, em relação aos registrados nos séculos e milênios anteriores. Acontece que tais anomalias, simplesmente, não existem e, portanto, não há qualquer evidência concreta da alegada influência humana na dinâmica climática global (Figs. 3 e 4)

Fig. 3 – Um exame dos padrões de temperaturas observados na Ásia Central, nos últimos 2 mil anos, evidencia que não há qualquer anomalia observável desde o século XVIII.

Fig. 4 – Oscilações do nível médio do mar nos últimos 20 mil anos. Observe-se que, entre 5-6 mil anos atrás, o nível do mar era cerca de 2-3 m acima do atual. Este gráfico foi produzido originalmente pelo geólogo australiano Rhodes W. Fairbridge, em 1958, o que denota que a Ciência já tinha conhecimento pleno de tais padrões há mais de seis décadas.

A única influência humana no clima ocorre nas cidades, com o conhecido efeito das “ilhas de calor” urbanas, decorrente da impermeabilização do solo com asfalto e concreto, que diminui bastante a infiltração da água das chuvas no subsolo e a conseqüente evapotranspiração. Assim, as temperaturas urbanas costumam ser vários graus centígrados superiores às das zonas rurais e áreas não urbanizadas, mas tal influência, de modo algum, tem alcance planetário, pois as áreas urbanizadas representam menos de 0,5% da superfície total do planeta.

Como é incapaz de produzir evidências de anomalias inexistentes, o IPCC não hesita em recorrer à fraude escancarada. No seu relatório mais recente, revive um gráfico que já foi desqualificado como fraudulento no relatório de 2001, o chamado “taco de hóquei”, que contraria todo o conhecimento estabelecido sobre as oscilações de temperaturas atmosféricas e oceânicas, nos últimos 2 mil anos e ao longo do Holoceno, a época geológica mais quente em que a civilização humana tem existido, nos últimos 12.900 anos (Figs. 5 e 6; contrastar com a Fig. 3).

Fig. 5 – O gráfico da esquerda, apresentado no sexto relatório do IPCC (AR6), é uma fraude requentada do gráfico do “taco de hóquei”, exibido no relatório de 2001 (AR3) e prontamente denunciado como uma fraude escandalosa (vide a Fig. 6).

Fig. 6 – O gráfico do “taco de hóquei” original, elaborado pelo climatologista estadunidense Michael Mann e exibido com grande destaque no AR3 (2001), comparado à correção feita pelos estatísticos canadenses Stephen McIntyre e Ross McKittrick, que descobriram que o Dr. Mann trabalhava com um algoritmo “engatilhado”, que produzia sempre o mesmo gráfico com qualquer base de dados. Em 2021, o IPCC dobrou a aposta, requentando a mesma farsa.

 

Em essência, apesar de a expressão mudanças climáticas ter recebido uma conotação deliberadamente alarmista, ela chega a ser pleonástica, pois a mudança permanente é o estado natural do clima. Na história geológica da Terra, nunca houve, não há e nunca haverá um clima “estático”. Desde que surgiu no planeta, a humanidade tem convivido com mudanças climáticas drásticas, alternando entre períodos glaciais mais frios e interglaciais mais quentes, e sempre se adaptou a eles. Nada sugere que não possa continuar fazendo isto.

3. As emergências reais são outras

A seguir, apresento apenas uma breve listagem de emergências globais reais, cujo enfrentamento a sério não tem recebido sequer uma fração da atenção, dos recursos e do tempo dedicados à agenda do catastrofismo climático (e desperdiçados com ela).

* As deficiências de infraestrutura de saneamento básico constituem, de longe, o maior problema ambiental do mundo, afetando mais da metade da população mundial e da brasileira. O lançamento de esgotos sem tratamento nos cursos d’água é uma das principais fontes de poluição da água – que está longe de um risco de escassez física, como apregoam alguns alarmistas, basta que se deixe de poluí-la. Na terceira década do século XXI, é vergonhoso que mais de 1,5 bilhão de pessoas ainda tenham que fazer suas necessidades fisiológicas ao ar livre. Enquanto centenas de ONGs de todo o mundo, talvez, milhares, se acotovelam para anunciar o apocalipse climático (e lucrar com ele), apenas um punhado delas se dedica à questão crucial do saneamento.

* A gestão do lixo urbano é outro problema ambiental da maior gravidade. No Brasil, cerca de dois terços dos municípios ainda dependem dos vergonhosos lixões, a forma mais primitiva e de maior impacto ambiental de disposição de resíduos urbanos, enquanto a coleta seletiva, a reciclagem e o aproveitamento energético do lixo ainda engatinham.

* A ocupação irregular de áreas de risco, como encostas, várzeas e outras, representa um sério problema nos países que não integram os “40 ricos”. No Brasil, são recorrentes os problemas causados nessas áreas, com qualquer chuva mais forte de meia hora.

* O aumento das desigualdades globais tem sido a principal conseqüência da globalização, tanto entre os países como dentro deles, e está na raiz de grande parte das convulsões políticas e sociais registradas nas últimas décadas.

* O sistema financeiro internacional divorciado da economia real, que considero o maior fator de “insustentabilidade” do planeta, por atuar como um parasita da economia física, canalizando a grande maioria dos recursos financeiros para instrumentos especulativos e improdutivos.

4. Os desafios do “carbono zero”

Não nos iludamos. Independentemente da sua validade científica, a agenda do “carbono zero” chegou, abre passagem e pretende se estabelecer. Ou seja, o Brasil terá que lidar com ela, de um jeito ou de outro. O que precisamos é estabelecer como isto se dará.

A dimensão dos interesses em torno dela pode ser avaliada pela seguinte declaração do CEO da BlackRock, Larry Fink, em uma videoconferência promovida pelo Fórum Econômico Mundial (também conhecido como Fórum de Davos), em janeiro deste ano:

Vamos precisar de 50 trilhões de dólares em investimentos para chegar a um mundo de emissões líquidas zero… Na medida em que mais empresas divulgarem seus relatórios e tivermos dados melhores em cada nível corporativo, seremos capazes de customizar e personalizar os portfólios. Isto vai fazer a diferença entre as companhias que serão bem-sucedidas e as que não serão.

O recado é claro: as empresas que não se enquadrarem na chamada agenda ESG (ambiental, social e governança), principalmente, aquelas com operações internacionais, correrão sérios riscos em seus negócios.

Fink tem cacife para lançar o ultimato. A BlackRock é a maior gestora de ativos do mundo, com um portfólio de 9 trilhões de dólares, mais de duas vezes o PIB da Alemanha e mais de quatro vezes o do Brasil.

E os títulos de “carbono zero” já podem ser negociados, tanto no “megaatacadão” das BlackRock da vida, como no “microvarejo” de pequenas empresas e até pessoas físicas, que podem adquirir os seus títulos e assegurar a sua “neutralidade de carbono”, para poderem dormir com a consciência tranqüila de estarem contribuindo para a “salvação” do planeta.

Na edição de 22 de agosto, o jornal O Globo publicou uma reportagem com o título: “Quer ser carbono zero? Já é possível comprar crédito de projetos na Amazônia para compensar emissões.” Nela, é citado um cidadão de São Paulo (SP), que deu à sua mulher como presente de fim de ano um título desses, no valor de R$ 1.000,00, como “compensação” pelas emissões dela em 2020 e parte de 2021. Particularmente, não recomendo que o marido antenado com os ventos pós-modernos seja imitado, pois as reações das presenteadas podem não ser as esperadas.

Um requisito fundamental para o Brasil será abandonar de vez a atitude reativa e submissa que tem marcado a política ambiental nacional. Somos o único país do mundo que precisa pedir licença a ONGs, a governos estrangeiros e ao Parlamento Europeu, para asfaltar rodovias já existentes que atravessam a Amazônia. Somos o único país que dá atenção e repercussão às demandas de celebridades e grupos intervencionistas estrangeiros, que aqui vêm para investir contra projetos de infraestrutura fundamentais para o nosso desenvolvimento, caso da recente visita de uma tal “Internacional Progressista”, que veio “deter a Ferrogrão”, nas palavras do seu secretário-geral. Somos os únicos que deixam de aproveitar plenamente o seu potencial hidrelétrico, construindo usinas “a fio d’água”, com reservatórios pequenos e incapazes de armazenar água para enfrentar secas como a atual.

Conheço poucas manifestações tão explícitas dessa submissão, como a seguinte declaração do então ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, em Boa Vista (RR), em 2011. Questionado por lideranças locais sobre a virtual inviabilização econômica do estado, que tem cerca de três quartos do seu território demarcados como unidades de conservação ou terras indígenas, ele respondeu:

A população de Roraima está pagando o preço em função da necessidade nacional de respeitar o conceito de desenvolvimento sustentável… Tem que ser considerado que o bioma da Amazônia é um dos mais importantes do planeta e esse seria um preço a se pagar (Folha de Boa Vista, 10/06/2011).

Em outras palavras, todo um estado brasileiro precisa renunciar às pretensões de desenvolvimento, em nome de alegados compromissos internacionais – o “preço a se pagar”, em troca dos fluxos financeiros aos quais o País atrelou deliberadamente o seu destino.

E não se diga que o Brasil não poderia resistir a tais pressões. Vale observar o exemplo recente do México, onde o presidente Andrés Manuel López Obrador está tocando com recursos próprios os dois maiores projetos de infraestrutura do país, em décadas: o Trem Maia, ferrovia de 1.500 km que corta os cinco estados da Península de Yucatan, e o Corredor Bioceânico do Istmo de Tehuántepec, um corredor de desenvolvimento unindo portos do Caribe e do Pacífico. Inevitavelmente, um grupo de ONGs mexicanas financiadas pelo aparato ambientalista-indigenista deflagrou uma feroz campanha contra ambos os projetos. No caso do Trem Maia, em agosto de 2020, López Obrador encarregou o seu serviço de inteligência de levantar os financiadores das ONGs, que se revelaram ser fundações privadas e órgãos do governo dos EUA. Em uma de suas entrevistas coletivas quase diárias, ele mostrou um slide com a listagem das ONGs e os valores recebidos, e cobrou-lhes as motivações para atacar um projeto que trará tantos benefícios ao país (Fig. 7). Ao mesmo tempo, interpelou oficialmente o governo de Washington sobre tais financiamentos oficiais e os interesses estadunidenses na investida.

Fig. 7 – O presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador denuncia as ONGs engajadas em uma campanha contra o projeto do Trem Maia, financiadas com recursos estadunidenses.

Talvez, uma recente declaração do novo ministro do Meio Ambiente brasileiro, Joaquim Álvaro Pereira Leite, possa ser um sinal de novos tempos:

“Nós não podemos cair na armadilha de que o responsável pelo aquecimento global, os responsáveis pelas emissões, são as atividades de um país chamado Brasil (O Globo, 24/08/2021).”

Como possíveis linhas de ação a curto prazo, podemos sugerir:

* Aproximação diplomática com países que enfrentam problemas afins, para reforço mútuo na arena internacional.

* Retirar a iniciativa do aparato ambientalista-indigenista quanto a visitas “fact-finding” de autoridades, empreendedores e formadores de opinião estrangeiros, em parceria com o setor privado.

* Exposição pública da agenda de ONGs ambientalistas-indigenistas e seus financiadores.

* Mobilizar a comunidade científica para promover exposições mais equilibradas dos fatos e problemas ambientais.

Em síntese, a política ambiental brasileira deve ser vinculada às políticas de desenvolvimento, sem subordiná-las, em uma discussão ampla e permanente com diversos setores produtivos e da sociedade em geral.

Acima de tudo, o País precisa recuperar com a maior urgência a discussão sobre um novo projeto nacional de desenvolvimento. Aqui, peço emprestadas as palavras do General Villas Bôas, ainda comandante do Exército, em um discurso no Dia do Exército de 2016:

O Brasil, da década de 1930 a 1980, foi o país do mundo que mais cresceu, pegando desde Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek aos governos militares. Nas décadas de 1960,70 e 80, nós cometemos um erro: nós permitimos que a linha de confrontação da Guerra Fria passasse dentro da sociedade brasileira e nos dividisse. E o Brasil, que vinha com forte sentido de projeto, com ideologia de desenvolvimento, perdeu a coesão e esse sentido de projeto. Perdeu o rumo e a direção, o nosso país está à deriva. (…)

Mais de cinco anos depois, suas palavras continuam mais válidas do que nunca.

É preciso repensar a sério o Brasil que queremos construir, neste século XXI tão cheio de transformações rápidas e grandes desafios. Não podemos, de modo algum, acomodar-nos a ilusões como a de apresentar-nos ao mundo como uma “potência ambiental”, pretensa prestadora de “serviços ambientais”. A Amazônia não presta qualquer “serviço ambiental” ao mundo, mas representa uma vasta fronteira de grande potencial de desenvolvimento que precisa ser definitivamente integrada ao País, de acordo com uma pauta de interesses e iniciativas decididas pelos brasileiros, e não por investidores privados de qualquer nacionalidade, sem qualquer compromisso com o desenvolvimento e o bem-estar de longo prazo das populações da região.

Sim, utilizemos os “títulos verdes” e outros instrumentos afins, como disse neste webinar o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas (em 26/08/2021), mas sempre e quando forem benéficos e compatíveis com os nossos interesses maiores, e não forem vinculados a condicionantes de “bom comportamento” alheios a eles.

E, não menos importante, não nos iludamos com a possibilidade de que possam vir a representar uma grande parcela da estrutura financeira para o nosso desenvolvimento.

Definitivamente, diante de uma economia cada vez mais intensiva em conhecimento, é inviável que nos pretendamos limitar-nos a exportar produtos primários e a prestar supostos “serviços ambientais”.

Ao contrário, será preciso um vigoroso empenho em reverter a desindustrialização que acomete o País desde a década de 1990, não só recuperando potenciais perdidos, mas também repotencializando a qualificação do setor para o novo paradigma econômico-tecnológico.

Igualmente, serão necessários investimentos maciços em educação, ciência, tecnologia, inovação e infraestruturas multiplicadoras de valores, revertendo as tendências dos anos recentes.

Para tanto, será imprescindível a superação da dependência dos fluxos financeiros internacionais, com ou sem “títulos verdes”, e a conseqüente recuperação da capacidade creditícia do Estado brasileiro, que sempre foi o principal motor do desenvolvimento nacional.

Tudo isso terá que implicar em uma sinergia estreita e eficiente entre o Estado, a iniciativa privada e a sociedade em geral.

E um fator não menos crucial será a retomada da iniciativa de integração físico-econômica da América do Sul, que cabe naturalmente ao Brasil, por suas dimensões e peso econômico e político.

Em suma, em vez de “carbono zero” em 2050, meta estabelecida pelos mentores da agenda climática, empenhemo-nos em perseguir uma meta de “carências zero” de todos os requisitos para colocar o País, definitivamente, em uma sólida trajetória de construção de uma Nação digna – educação, saúde pública, saneamento, infraestruturas, pesquisa e desenvolvimento, inovações e, sobretudo, uma ideia-força positiva quanto ao futuro.

5. Tecnologias que não podem ser ignoradas

Para finalizar, como exemplos em que o Brasil precisa se espelhar, quero apresentar algumas iniciativas tecnológicas importantes, que estão sendo desenvolvidas em países que, a despeito dos discursos públicos, não estão apostando nas chamadas “tecnologias verdes” favoritas dos ambientalistas desinformados, como base para uma matriz energética à altura das necessidades da nova economia global.

O primeiro é um protótipo de reator nuclear alimentado a tório desenvolvido pela China, o TMSR-LF1 (Thorium Molten Salt Reactor-Liquid Fluoride). Ele tem 2 megawatts (MW) de potência e acaba de entrar em operação (Fig. 8). Até 2030, os chineses esperam ter disponíveis reatores comerciais com potência de 100 MW, suficientes para abastecer uma cidade de 100 mil habitantes ou um centro industrial. As grandes vantagens do tório são a disponibilidade bem maior que o urânio e a quantidade de resíduos radioativos bem menor. O Brasil, que tem uma das maiores reservas mundiais de tório, já teve o Grupo do Tório da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), há mais de meio século, cujo objetivo era justamente o projeto de um reator de tório. Infelizmente, como muitas outras iniciativas, não foi adiante.

Fig. 8 – Protótipo do TMSR-LF1 (Thorium Molten Salt Reactor-Liquid Fluoride).

O segundo é um gerador de 1 MW baseado no ainda controvertido fenômeno da “fusão a frio” (atualmente, chamado de reações nucleares no estado sólido ou reações nucleares quimicamente assistidas) (Fig. 9). O E-cat foi projetado pelo físico italiano Andrea Rossi e já disponível para usos comerciais (os interessados podem consultar o sítio www.e-catworld.com).

Fig. 9 – Gerador E-cat de 1 MW (www.e-catworld.com).

Quanto à fusão nuclear, o “Santo Graal” da geração de eletricidade no futuro próximo, quero destacar a existência da Associação da Indústria de Fusão (Fusion Industry Association), entidade sediada em Washington, EUA, que reúne atualmente 25 empresas privadas que estão desenvolvendo protótipos de reatores de fusão nuclear com tecnologias consideradas inovadoras. O relevante é que muitas constituem parcerias público-privadas, envolvendo investimentos dos governos dos EUA e de outros países e recursos privados, em uma demonstração clara de que os preconceitos ideológicos não têm lugar nessa empreitada, algo a que os brasileiros precisamos prestar a devida atenção.

Como exemplo, vale conhecer uma delas, a Commonwealth Fusion Systems (CFS – cfs.energy), fundada em 2018 por pesquisadores do Centro de Ciência do Plasma e Fusão do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (PSFC-MIT), sediada em Devens, no estado de Massachusetts, EUA. O seu projeto de reator, originado do PSFC, é denominado ARC (Affordable, Robust, Compact) e tem previsão de estar operacional em 2025. A empresa, que tem 100 funcionários, tem uma capitalização de 200 milhões de dólares, oriundos do Departamento de Energia dos EUA, investidores privados (inclusive Bill Gates, da Microsoft) e das empresas petrolíferas ENI (Itália) e Equinor (Noruega), além do fundo soberano de Cingapura, Temasek.

Convém prestar atenção no fato de empresas petrolíferas e fundos soberanos estrangeiros estarem investindo seriamente em tais projetos – seguramente, não apostam em que geradores eólicos e centrais fotovoltaicas poderão substituir grande parte das aplicações energéticas dos hidrocarbonetos.

No Brasil, foi apresentada recentemente uma proposta conjunta da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) para a criação de um Laboratório Nacional de Fusão Nuclear (LNFN), a ser construído no campus do Empreendimento do Reator Multipropósito Brasileiro, em Iperó (SP). Os requisitos financeiros previstos são ínfimos, em função da necessidade premente de o País se engajar a sério e de forma continuada em tais pesquisas: R$ 150 milhões para a construção do LNFN, em três anos; R$ 50 milhões para os reatores de pesquisa tokamak existentes em universidades e centros de pesquisa nacionais, em três anos; e US$ 100 milhões para o desenvolvimento e construção de um protótipo de reator de fusão, em nove anos. Recursos inferiores aos disponíveis por uma única empresa como a CFS.

Esperemos que as lideranças nacionais não falhem nesse desafio determinante para o nosso futuro.

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