Campo brasileiro ainda usa pouca tecnologia moderna

A grande maioria das propriedades rurais brasileiras incorpora pouco das últimas inovações tecnológicas à sua produção. Esta é a conclusão e um estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), na semana passada. Do total de produtores rurais entrevistados, 22% responderam que usam apenas sete de 22 métodos de auxílio à produção – dentre os quais se incluem os corretivos de solos, defensivos agrícolas, orientação técnica, utilização de fertilizantes, cooperativismo, entre outros.

Segundo o documento, dos 5,2 milhões de estabelecimentos rurais no País, conforme o último levantamento realizado pelo Censo Agropecuário do IBGE, somente 983 mil empregam alta tecnologia (classificação dada aos produtores que aplicam mais de nove dos 22 métodos de produção disponíveis). Além disso, o estudo apontou que, das 4,3 milhões de unidades classificadas como de agricultura familiar, apenas 19% se enquadram na categoria superior de usos tecnológicos, proporção quase igual às 18% das 809 mil unidades enquadradas como agricultura empresarial.

Além de avaliar a incorporação de tecnologia pelos estabelecimentos rurais, a pesquisa do Ipea também avaliou critérios econômicos para identificar a renda bruta gerada pelas propriedades. Segundo o estudo, somente 40% dos 5,2 milhões de propriedades apresentam uma renda bruta superior aos custos totais – sendo a maioria, 60%, classificada como deficitária em 2006, ano em que o Censo do IBGE foi realizado. Além disso, a agricultura empresarial, que representa 76% da área cultivada, gera somente 66% da renda bruta total do setor agrícola. Para Gesmar Rosa, técnico da Diretoria e de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação, Regulação e Infraestrutura do Ipea, “esse dado é interessante, pois mesmo com mais terra, a agricultura comercial não consegue produzir o equivalente em renda (Valor Online, 26/07/2011)”.

Entretanto, para ele, é necessário relativizar tais dados, de acordo com uma análise temporal: “Esses números não querem dizer, obrigatoriamente, que 60% são deficitários sempre. Temos que ter em mente que em determinado ano pode ter havido alguma flutuação de preços ou choques exógenos, como mudanças climáticas, quebra de safra, surgimento de novas pragas, dentre outros.”

Os dados do estudo sugerem que o País ainda tem um grande desafio a ser enfrentado, no tocante à modernização das atividades agropecuárias, de modo a proporcionar um considerável aumento da produtividade geral do setor, independentemente das dimensões das unidades produtivas. E o problema não se resume às tecnologias, mas inclui também o acesso ao crédito, à assistência técnica e à infraestrutura física para o acesso aos mercados consumidores, de modo a assegurar níveis de rentabilidade e sustentabilidade às unidades produtivas. Quando apenas 40% das propriedades rurais se mostram economicamente viáveis, pode-se perceber a extensão do que se precisa avançar para consolidar o setor como um todo – cuja vitalidade não pode depender predominantemente dos grandes produtores inseridos nos mercados internacionais.

Para tanto, talvez, seja necessário superar preconceitos e antagonismos ideológicos, que se manifestam na própria separação ministerial das atividades agropecuárias e no estudo do Ipea, de acordo com as dimensões das propriedades rurais. Ou seja, mais que de uma reforma agrária, o Brasil necessita de uma reforma agrícola.

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