A camisa de força do rentismo contra a intervenção no Rio

O contraste entre as necessidades do mundo real e a agenda seletiva e exclusivista dos rentistas que dominam as finanças do Estado brasileiro ficou evidenciado na apresentação da conta da intervenção federal no Rio de Janeiro, pelo seu comandante, general Walter Braga Netto. Segundo ele, serão necessários R$ 3,1 bilhões, sendo R$ 1,5 bilhão para as ações planejadas, inclusive o reequipamento das sucateadas forças policiais fluminenses, e R$ 1,6 bilhão de passivos a cargo do estado, principalmente, salários e bonificações atrasados. Em contrapartida, o presidente Michel Temer acenou com não mais de R$ 1 bilhão, que, por sua vez, o ministro da Fazenda Henrique Meirelles informou que terão que ser remanejados de outras rubricas.

O motivo é conhecido: o governo federal só tem recursos para o sacrossanto serviço da dívida pública e, para atender as necessidades da intervenção, outras áreas terão que sofrer novos cortes orçamentários.

De qualquer maneira, o cálculo do general Braga Netto é o mínimo necessário para repotencializar a capacidade operacional das polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro, cujo estado deplorável pode ser vislumbrado nas carcaças de viaturas que se acumulam em autênticos ferro-velhos, situação que atinge cerca de metade da frota de ambas as forças. Igualmente, a maioria dos seus helicópteros encontra-se impedida de voar por falta de manutenção. E, nas delegacias, muitas vezes falta o mínimo necessário para as atividades, como toner de impressora, papel, material higiênico etc.

Assim, se o governo fincar pé na limitação do montante a ser liberado, toda a estratégia montada pelo comando da intervenção poderá ficar seriamente comprometida, ao ponto de inviabilizá-la, o que implicaria na sua desmoralização e num sério desgaste para a imagem das Forças Armadas. Se isto ocorrer, estaremos diante de uma situação como o proverbial dilema do comandante do forte da piada, que, cercado pelo inimigo, anunciou pelo rádio ao comando a intenção de render-se. Ao ser interpelado sobre os motivos da decisão, respondeu: “São vinte, meu general, o primeiro é que a munição acabou.”

No Rio, após participar de um evento no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o comandante do Exército, general Eduardo Villas-Bôas, foi categórico: “Esse estado de coisas a que nós chegamos é resultado de décadas e décadas de omissões e de necessidades básicas da população não atendidas, que acabam se represando e transbordando sob formas de violência (G1, 20/03/2018).”

Embora não tenha vinculado os problemas à política econômica, o general bem poderia ter mencionado a calamidade orçamentária dos estados, motivada por uma longa prática de abusos, corrupção, mas, principalmente, pela extorsão rentista imposta pela usurária renegociação das dívidas estaduais, feita na década de 1990, que, apesar de já terem sido pagas mais de duas vezes, continuam maiores do que antes.

Nesse mundo surreal dos rentistas, o cenário é róseo. Em 2017, os lucros dos quatro maiores bancos do País foram equivalentes aos das 260 maiores empresas produtivas. Ou seja, há algo extremamente errado e distorcido na condução da política econômica nacional, que, se não for revisto e corrigido, não permitirá qualquer melhora no tenebroso quadro da segurança pública.

Parafraseando o grande escritor Monteiro Lobato, ou o Brasil se convence da necessidade de enquadrar o rentismo, ou o rentismo lhe roubará toda e qualquer perspectiva de vir a converter-se numa Nação decente.

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