Brasil: sentimento nacional sai às ruas

“Não é por 0,20, é por direitos.” Os dizeres do cartaz portado por um cidadão paulistano sintetizavam a percepção que começa a se firmar sobre as motivações mais profundas das impressionantes manifestações que se multiplicam pelo País, desde a semana passada. De fato, a reação aos reajustes das passagens de ônibus representou apenas a proverbial gota d’água do crescente repúdio à ordem político-partidária prevalecente, marcada por um distanciamento cada vez maior entre as políticas públicas e as aspirações e necessidades da população, quase sempre, colocadas em plano secundário diante das agendas de “negócios como sempre” praticadas pelos aparelhos políticos e seus associados e patrocinadores privados. E, como sugerem as reações de perplexidade e dos reflexos condicionados das lideranças políticas frente aos acontecimentos, estamos diante de um fenômeno novo. Trata-se da emergência de um sentimento nacional, que poderá preparar o terreno para uma nova fase da história brasileira, na qual o distanciamento histórico entre as classes dirigentes e a maioria da sociedade possa dar lugar a uma convergência e harmonização de interesses entre os dois grupos.

Acima de tudo, os manifestantes demonstram uma indignação há muito contida contra as distorções intrínsecas da estrutura do Estado brasileiro, que, no cotidiano da grande maioria da população, se traduz em mazelas que dificultam sobremaneira o direito inalienável de cada cidadão ao pleno desenvolvimento dos seus potenciais individuais. A lista é sobejamente conhecida: deficiências de infraestrutura física de toda ordem, de educação, saúde e serviços públicos dignos, burocracia paralisante, tributação escorchante, impunidade para a corrupção e a violência e, acima de tudo, um sufocante favorecimento do rentismo sobre as atividades produtivas, na formulação das políticas econômicas. Quanto a este último item, embora poucos indivíduos se dêem conta dele, a maioria é capaz de intuí-lo, diante de fatos como a dedicação da maior fatia do orçamento federal (45% em 2011) para o serviço da dívida pública, enquanto os investimentos em educação, saúde pública e infraestrutura, entre outros itens que deveriam ser prioritários, têm que disputar as sobras orçamentárias e enfrentar os contingenciamentos e a inércia burocrática, que retardam consideravelmente até mesmo dotações devidamente aprovadas.

Muitos dos manifestantes mostraram o visível descrédito do tradicional argumento da “escassez de recursos”, comumente utilizado pelos governantes para justificar a inação diante do acúmulo de problemas, apontando para a facilidade com que surgiram os recursos públicos para a infraestrutura das competições esportivas com as quais o Brasil se comprometeu, boa parte da qual já está sendo e será transferida à iniciativa privada, por meio de concessões. Nada contra tais eventos, mas, se dezenas de bilhões de reais de investimentos públicos podem ser colocados neles – inclusive, em “arenas” construídas em cidades de escassa tradição futebolística –, fica difícil se justificar por que a mesma disposição não poderia ser colocada, por exemplo, na infraestrutura de transportes e saneamento ou em um amplo esforço de reformulação do sistema educacional, que possa qualificar melhor a população para enfrentar os desafios das décadas vindouras.

Apesar de a expressão não ter sido mencionada, está implícita a ânsia por um novo “projeto nacional” de desenvolvimento, capaz de motivar e catalisar as colossais energias latentes na sociedade – fartamente demonstradas nas ruas – para uma pauta de metas coletivas, que transcenda mandatos políticos e interesses setoriais e volte a proporcionar aos brasileiros o poderoso sentimento de integrar um coletivo nacional dotado de uma perspectiva positiva de futuro. Um projeto que qualifique efetivamente o País para atuar como protagonista das grandes transformações em curso na ordem de poder mundial, estendendo a sua influência positiva além das fronteiras nacionais, com a devida ênfase no entorno geográfico e cultural do que o papa Francisco denomina a Pátria Grande Latino-americana, bem como em uma maior coordenação com os seus parceiros do grupo BRICS.

A propósito, em algumas semanas, na Jornada Mundial da Juventude (23-28 de julho), o próprio Pontífice poderá compartilhar com brasileiros e visitantes estrangeiros que estarão no Rio de Janeiro a sua precisa visão da crise civilizatória global (“quem está em crise é o homem”, como tem afirmado), reforçando a mensagem de que a sua superação exigirá, entre outros requisitos, uma reformulação do sistema financeiro internacional. Embora com as especificidades nacionais, a crise de esgotamento das instituições brasileiras não está apartada de tal contexto global, pelo que a visita do primeiro papa latino-americano poderá representar um poderoso impulso ao momento deflagrado pelas manifestações.

A mobilização da juventude não é novidade na história brasileira. Na década de 1920, a inquietação dos jovens oficiais do Exército e suas contrapartes civis, encarnada no Movimento Tenentista, foi fundamental para o impulso de modernização do País, até então preso às amarras da República Velha oligárquica. Embora não tenha sido um movimento de massas, o Tenentismo demonstrou a capacidade de influência de um grupo relativamente coeso e motivado por propósitos comuns. Os jovens de todas as idades que têm ocupado as ruas, nos últimos dias, estão longe de uma coesão de motivações semelhante, mas demonstram estar sequiosos de poder catalisar as suas energias para a construção de um País mais justo, do qual também possam se orgulhar fora das competições esportivas. A responsabilidade de atender às suas demandas está nas mãos das lideranças da sociedade.

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