Brasil: precisa-se de uma guinada na economia

Em recente entrevista ao Canal 4 britânico, o chanceler russo Sergei Lavrov citou o Brasil, junto com seu país, a China e a Índia, como novas potências econômicas e políticas que estão reconfigurando uma ordem mundial “pós-Ocidente”. A menção do veterano diplomata, certamente, baseada na avaliação da elite política russa sobre as potencialidades do Brasil para atuar como um dos protagonistas da reconfiguração do poder global em curso, pode soar estranha aos ouvidos brasileiros, atordoados pela maior crise da sua história e descrentes de que a infraestrutura institucional existente possa viabilizar uma saída para ela.

Porém, para que o País possa superar o impasse e tenha condições de concretizar tais expectativas, será imprescindível uma drástica mudança na orientação da política econômica que tem prevalecido desde a década de 1990, voltada para saciar o apetite dos mercados financeiros. De outra forma, será impossível elevar o Brasil ao plano das nações que atingiram um pleno desenvolvimento das suas capacidades produtivas, principalmente, com uma indústria avançada. Não por acaso, a indústria nacional está regredindo, tanto em participação no PIB (aos níveis da década de 1940) como no seu conteúdo tecnológico (complexidade).

A questão é simples: com políticas pró-rentistas, o Brasil não sairá do atoleiro. Para tanto, serão necessários fortes investimentos públicos em infraestrutura, pesquisa e qualificação da força de trabalho, os quais sirvam como sinalização para o setor privado. Qualquer coisa fora disto será ilusório.

Um exemplo: nos últimos três meses, o Banco Central e o Tesouro torraram R$ 233 bilhões (equivalentes a cerca de 80 bilhões de dólares), em parte das reservas cambiais, para “acalmar os mercados”, indóceis diante da indefinição quanto às “reformas” e da perspectiva de juros mais favoráveis da Reserva Federal dos EUA. Ora, com uma fração desse valor seria possível implementar um poderoso plano de investimentos públicos em atividades multiplicadoras de valores, em especial, infraestrutura física, o qual viabilizaria não só uma recuperação da economia, mas a sua recolocação no caminho de um sólido crescimento de longo prazo.

Se parte das reservas pode ser utilizada para saciar o apetite de especuladores financeiros, com mais razão deveria ser utilizada na economia real.

Não há registro histórico de uma economia de grande porte que tenha superado uma recessão ou depressão prolongada sem fortes investimentos públicos, como o New Deal do presidente Franklin Roosevelt, que abriu caminho para que os EUA superassem a Grande Depressão da década de 1930.

É mais que hora de se fazer o mesmo no Brasil.

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