Brasil: pacote é para pagar juros

juros-Selic

As duas manchetes da página 7 do jornal O Globo de 15 de setembro são representativas das consequências e, não menos, da motivação do governo da presidente Dilma Rousseff para o pacote de medidas financeiras anunciado na véspera. A primeira, no alto da página: “Empresários e setores da indústria criticam aumento de impostos – ‘Sociedade vai pagar o pato mais uma vez’, afirma presidente da Fiesp”. A outra: “Febraban elogia medidas; construção civil teme demissão – Para construtores, cortes vão atrasar retomada do crescimento”.

Nos outros jornais e nos telejornais, o mesmo contraste: de um lado, representantes dos setores produtivos da economia e dos trabalhadores, criticando e protestando contra mais uma medida de arrocho fiscal destinada a aplacar o “nervosismo” dos mercados financeiros, depois que a agência de classificação Standard & Poor’s rebaixou a classificação dos títulos da dívida brasileira; do outro, os porta-vozes da alta finança, apoiando decididamente o novo pacote.

O boletim de imprensa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) foi característico:

A Febraban entende que as medidas anunciadas hoje pelos ministros da Fazenda, Joaquim Levy, e do Planejamento, Nelson Barbosa, refletem o compromisso do governo em promover o equilíbrio fiscal, condição indispensável para abrir caminho a retomada do desejado crescimento da economia do país. O corte de despesas em R$ 26 bilhões visa adequar o Orçamento de 2016 à capacidade de atuação do Estado brasileiro e emite uma sinalização importante para o restabelecimento da confiança dos agentes econômicos e a retomada futura dos investimentos (Febraban, 14/09/2015).

Na contramão dos banqueiros, o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Carlos Pastoriza, vocalizou o pensamento da grande maioria dos brasileiros, investindo contra a taxa de juros definida pelo Banco Central, a qual qualificou como “pornográfica”.

“Vamos ter que atacar a questão do investimento e, para isso, precisamos atacar os juros. O empresário tem que ser um idiota para perder 14% sem risco. Há uma hipertrofia do setor financeiro em relação aos demais. Vamos ter que atacar isso”, disparou ele, no Rio de Janeiro (RJ), após a sua participação em uma edição emergencial do Fórum Nacional, promovida pelo Instituto Nacional de Altos Estudos (Inae) do ex-ministro Reis Veloso, para discutir a crise nacional.

Para Pastoriza, o trabalhador brasileiro não pode ser responsabilizado pela baixa produtividade. Segundo ele, o fator humano representa 25% da produtividade de uma fábrica e esse fator está caindo, enquanto 60% tem a ver exclusivamente com o capital físico e 30% do estoque de maquinário do Brasil tem mais de 25 anos: “É um lixo. Só um desavisado acha que a produtividade brasileira é [baixa] porque o trabalhador brasileiro trabalha pouco. Por mais motivado e treinado que esteja, o estoque de capital físico de baixa qualidade derruba a produtividade. Se não modernizar o parque fabril, não há como melhorar a produtividade (Valor Econômico, 15/09/2015).”

Em realidade, uma vez mais, fica demonstrada a absoluta hegemonia do rentismo na formulação das políticas econômicas e financeiras. Todo o esforço do novo pacote, que tem todos os ingredientes para aprofundar a recessão em que o País está mergulhado, se destina a cobrir o déficit previsto na proposta orçamentária para 2016, de R$ 30,5 bilhões – valor equivalente a um mês de juros da dívida pública, aos estratosféricos juros de 14,25% estabelecidos pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central, o notório Copom.

Uma consulta ao “Dividômetro” criado pela ex-auditora da Receita Federal Maria Lúcia Fattorelli mostra que, até 1º. de setembro, o serviço da dívida chegou a R$ 671 bilhões, ou 47% do orçamento do governo (www.auditoriacidada.org.br). Até o final do ano, tudo indica que a proporção aumente em pelo menos um ponto percentual.

Para garantir o sacrossanto serviço da dívida – e a credibilidade do Brasil como “bom pagador” – os brasileiros se veem diante da ameaça de uma brutal recessão, com inflação e desemprego em alta e, pior, um duríssimo golpe nas perspectivas de desenvolvimento e avanço civilizatório despertadas na última década. Cenário que poderá se arrastar pelo menos por dois ou três anos, caso não haja uma guinada na política econômico-financeira – algo bastante improvável, nas presentes condições políticas.

x

Check Also

Brasil: o teto ou a vida

Em um editorial publicado em 27 de julho (“Urgência e oportunismo”), o tradicional jornal O Estado ...