Brasil: pacificação e harmonia de interesses

Encerradas as eleições de 2018, possivelmente, as mais raivosas e turbulentas da era republicana, é hora de pacificar e unificar o País em torno de um empenho coletivo que permita a reversão, em prazo relativamente curto, da grave crise socioeconômica que o acossa há quatro anos e acene com uma real perspectiva positiva de futuro, em especial, aos jovens, as principais vítimas da recessão, do avanço das desigualdades e da pandemia de violência prevalecentes.

Acima de tudo, é preciso entender que não haverá um Brasil para os eleitores de Jair Bolsonaro, outro para os seus opositores e outro para os que se abstiveram no pleito de 28 de outubro. O País é um só e, em princípio, todos têm um mesmo objetivo de vê-lo prosperar e compartilhar os frutos desta prosperidade, mesmo divergindo sobre os caminhos para construí-la.

Não obstante, o fator econômico foi bem menos relevante para o sucesso de Bolsonaro do que o fato de ele ter encarnado a resposta aos anseios da maioria do eleitorado em relação à corrupção e à deterioração da segurança pública, além da defesa dos valores morais, familiares, patrióticos e cristãos, por muitos considerados ameaçados pelos excessos da agenda identitária “politicamente correta” e multiculturalista, implementada pelos governos que se sucederam desde a década de 1990.

Ademais, o momento de mudança de fase histórica vivido pelo mundo, claramente refletido no Brasil, está a exigir de todos os engajados na reconstrução do País, tanto no futuro governo como entre os que lhe farão oposição, um grande esforço de reciclagem de ideias e conceitos, para que, mesmo com as divergências esperadas, a resultante da agenda política seja positiva e não um destrutivo jogo de soma zero e conflitos potencialmente desestabilizadores.

Em primeiro lugar, será preciso superar de vez o arcabouço mental da Guerra Fria e o seu surrado cenário de confronto ideológico, que há muito deixou de fazer sentido para explicar as mudanças globais, apesar de ter motivado incontáveis e ruidosos embates na disputa eleitoral recém-encerrada. Apesar da existência de muitos saudosistas entre as suas elites dirigentes, as grandes potências mundiais – EUA, Rússia, China e outras – atuam de forma extremamente pragmática na defesa dos seus interesses estratégicos, algo que as lideranças brasileiras precisam aprender a emular, diante da celeridade das transições globais e seus inevitáveis impactos sobre o Brasil.

A despeito dos antagonismos resultantes do ciclo eleitoral, é imprescindível um amplo esforço para a unidade nacional, em torno de um projeto de pacificação e retomada do desenvolvimento. E, no contexto da necessária revisão de conceitos, o futuro governo terá que encarar a realidade de que a agenda econômica não poderá restringir-se à mera aplicação do receituário dos “mercados”, cuja exacerbação, na década decorrida desde a grande crise de 2008, tem produzido apenas um aumento das desigualdades, em todo o mundo. Na vizinha Argentina, o governo de Mauricio Macri se destaca como exemplo a ser evitado a todo custo.

Mirando os EUA, país pelo qual o presidente eleito nutre grande admiração, o mesmo pode se dizer do infausto governo de Herbert Hoover, que deixou aos “mercados” a missão de reverter os efeitos da quebra da Bolsa de Valores em 1929 e, simplesmente, abriu o caminho para a Grande Depressão da década de 1930. Coube ao seu sucessor, Franklin Roosevelt, iniciar a saída da crise com o seu célebre New Deal, o vasto programa de investimentos públicos que passou a ser referência para a superação de depressões semelhantes. Um aspecto crucial do programa foi a atuação pró-ativa do banco central, o Sistema da Reserva Federal, sob a batuta do banqueiro e industrial Marriner S. Eccles, que reorientou os fluxos de moeda e crédito para as atividades produtivas, em vez de deixá-los ao arbítrio especulativo dos mercados financeiros. Juntamente com a Lei Glass-Steagall de 1933, que separou as atividades dos bancos comerciais e de investimento, a atuação de Eccles (que dirigiu o “Fed” por 18 anos) foi crucial para a recolocação da economia estadunidense nos trilhos da produção.

Da mesma forma, os EUA proporcionam o exemplo do sistema econômico responsável pela consolidação das grandes potências industriais – os próprios EUA, Alemanha, Japão, Coreia do Sul etc. –, o chamado Sistema Americano de Economia Política. Entre os seus expoentes, destacam-se Alexander Hamilton, o alemão Friedrich List e Henry Carey, economistas práticos cujas obras se baseavam na rigorosa observação dos fatos do mundo real e tinham como meta principal o fomento das forças produtivas das nações, enquadrando os processos econômicos em um autêntico esforço civilizatório.

Em particular, Carey, que rejeitava tanto o marxismo como o utilitarismo econômico britânico (e, talvez, por isso, tenha sido virtualmente banido dos currículos acadêmicos atuais), foi o introdutor do conceito de “harmonia de interesses” como princípio fundamental da organização das sociedades. Assessor especial do presidente Abraham Lincoln, foi um dos mentores da estratégia econômica que permitiu a vitória do Norte na sangrenta Guerra de Secessão (1861-65).

No livro A harmonia de interesses (1851), ele sintetiza os objetivos do Sistema Americano: “(…) o aumento da proporção engajada no trabalho de produção… com retorno aumentado para todos, proporcionando bons salários aos trabalhadores e bons lucros aos donos dos capitais.”

No Brasil de hoje, onde os ventos de mudança varreram grande parte do entulho da “Nova República”, é da maior oportunidade e conveniência que os conceitos e exemplos práticos do Sistema Americano e do New Deal sejam devidamente considerados.

Não há maneira mais eficiente de se superar a beligerância política do que recolocar a economia em pleno funcionamento e para benefício de toda a sociedade.

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