Brasil: o necrotério neoliberal

A greve dos caminhoneiros deixou à beira das estradas não somente a insana política que transformou os postos de combustível em virtuais balcões de especulação financeira dos mercados internacionais, mas toda a agenda neoliberal que sustenta o governo de Michel Temer, a qual inclui a liquidação do restante do patrimônio do Estado, especialmente, as estratégicas Petrobras e Eletrobras.

A intenção era ostensiva na entrega da Petrobras a Pedro Parente, escalado para fatiar a empresa e inviabilizar o seu papel estratégico, concluindo a tarefa iniciada por Fernando Henrique Cardoso, de “por fim à Era Vargas” e entregar a sua empresa símbolo como butim de uma guerra contra a Nação, com a ajuda de sipaios que de brasileiros têm apenas a identidade e o passaporte. Por isso, a defenestração de Parente deflagrou reverberações que abalaram fortemente a confiança da estrutura oligárquica centrada no sistema financeiro, na capacidade de conduzir o turbulento processo político de acordo com os seus interesses exclusivistas.

De fato, a histérica corrida ao dólar e as oscilações na bolsa de valores, que se seguiram, não estão vinculadas apenas aos descalabros neoliberais no Brasil, mas respondem às perturbações externas nos mercados financeiros, que explicam os ataques especulativos na Argentina de Mauricio Macri, que vinha cumprindo à risca a agenda dos mercados. Evidentemente, uma grande mídia cada vez menos prestigiada tratou de enviar um “recado” aos pré-candidatos presidenciais e aos setores influenciáveis da sociedade, sobre possíveis consequências de pautas políticas que não se coadunem com os interesses rentistas.

Como afirmou a manchete principal do jornal O Estado de S. Paulo de 8 de junho: “Dólar dispara e Bolsa afunda com medo político – Receio de que não haja candidato comprometido com reformas no 2º turno estressa mercado.”

Na edição de 12 de junho, o editorial principal expressou a perplexidade da casta oligárquica diante de uma situação que não só lhe foge das mãos, mas também lhe parece incompreensível, como se se tratasse de um universo paralelo. Intitulado “O mau humor do brasileiro”, afirma não haver motivos para a qualificação de Temer “como o mais impopular presidente da história do País”, nem para o “profundo pessimismo a respeito da economia”. Os editorialistas do “Estadão” atribuem o fenômeno a “uma percepção distorcida e confusa sobre a conjuntura nacional, reforçada por um tremendo mau humor em relação ao establishment político e econômico”.

Em realidade, o que se delineia é que a eleição presidencial será inteiramente anti-sistema, pois o abismo entre este e as aspirações da grande maioria da sociedade é intransponível. Simplesmente, inexiste uma composição que preserve tanto as políticas neoliberais como as instituições políticas da “Nova República”, ambas consagradas ao necrotério da História.

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