Brasil: nem “apaziguamento” nem pugilato – precisa-se de uma “Bandung 2”

Em função das cada vez mais fortes pressões sobre o Brasil na área ambiental, principalmente, quanto à Amazônia, é evidente que o País precisa preparar-se para as duras batalhas que se pressagiam. E esta preparação não poderá ser orientada, nem pelo espírito de “apaziguamento” – leia-se acomodação – com o novo governo Biden-Harris, como sugere uma visão “pragmática”, nem por uma confrontação pura e simples via declarações bombásticas, frases de efeito e outros recursos de efeito midiático, mas de pouca efetividade – ambas favorecendo a agenda oligárquica.

Em vez disso, é fundamental um retorno a uma política externa independente, marca registrada do período pré-Nova República, sem as acomodações pragmáticas desta última aos preceitos da “Nova Ordem Mundial”, em especial, a submissão acrítica aos acordos de restrições tecnológicas ditados pelas potências hegemônicas e à agenda ambientalista-indigenista prevalecente desde o final da década de 1980.

Nesse contexto, é fundamental uma aproximação com países que enfrentam problemas análogos, em particular, na área ambiental. Certos países da África, Ásia e América Latina seriam potenciais candidatos para esta agenda – recordando-se que os representantes de vários deles receberam positivamente os discursos do presidente Jair Bolsonaro na 74ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2019.

Em especial, o Brasil precisa retomar o processo de integração física e econômica da América do Sul, fator fundamental para que o subcontinente se apresente com uma massa crítica capaz de inserir-se de forma protagonista e não subalterna na reconfiguração geoestratégico-geoeconômica encabeçada pela China e a Rússia, a qual está convertendo o eixo eurasiático no novo centro de gravidade global. A despeito da retórica, o impulso nunca avançou muito além de cartas de boas intenções e, pelas dimensões espaciais e econômicas, a sua liderança cabe ao Brasil.

A propósito, como membro do BRICS, é crucial que o Brasil recoloque a sua participação no mesmo com o impulso original que motivou a criação do grupo, bastante enfraquecido nos últimos governos.

Vale registrar a posição crítica do presidente russo Vladimir Putin, na reunião anual do Fórum de Davos, na qual alertou para um “aumento da retórica de propaganda na política externa” de certas potências: “Podemos esperar que a natureza de ações práticas também se torne mais agressiva, incluindo pressões sobre os países que não concordem com um papel de satélites controlados obedientes, o uso de barreiras comerciais, sanções ilegítimas e restrições nas esferas financeira, tecnológica e cibernética (Kremlin, 27/01/2021).”

Em outras palavras, não faria mal que o Brasil se inspirasse no “espírito de Bandung”, no que tange à determinação de não se atrelar a estruturas hegemônicas e de buscar cooperação com países afins.

Para recordar, a Conferência de Bandung, realizada em 1955, naquela cidade indonésia, foi um marco nas relações internacionais do pós-guerra, assinalando a determinação de um grupo importante de países de não limitar as suas opções de desenvolvimento e relacionamentos políticos e econômicos ao campo bipolar determinado pela Guerra Fria. Era um momento em que o processo de descolonização fervilhava, na África e na Ásia, em paralelo com a reconstrução socioeconômica e política europeia na primeira década após a II Guerra Mundial, cujo ímpeto sinalizava as possibilidades oferecidas pela industrialização, os avanços do conhecimento e políticas dirigidas para a promoção do desenvolvimento. Significativamente, porém, nos dois lados da Cortina de Ferro, as potências líderes e seus principais sócios rejeitavam afrouxar as rédeas do seu domínio sobre numerosos países que aspiravam a assumir o controle sobre os seus próprios destinos.

Ali surgiu o embrião do futuro Movimento dos Não-Alinhados, fundado seis anos depois, que viria a desempenhar um papel relevante frente à bipolaridade Leste-Oeste. O Brasil participou da conferência como observador, condição que os EUA não quiseram exercer, para não melindrar as potências coloniais europeias suas aliadas na OTAN.

Hoje, se requer reviver aquele “espírito de Bandung”, demonstrando ao mundo que causas justas como a proteção do meio ambiente, das populações indígenas ou os direitos de minorias, estão sendo instrumentalizadas como novas formas de colonialismo e limitação da soberania dos Estados nacionais sobre a utilização dos seus próprios recursos naturais e a determinação das suas políticas de desenvolvimento.

Em síntese, se faz necessária uma política externa inspirada na tradição de nomes como San Tiago Dantas, Araújo Castro, Azeredo da Silveira, Saraiva Guerreiro e outros, que se orientavam pela clara noção de que o Brasil não cabe em qualquer projeto hegemônico.

x

Check Also

Por que os “Verdes” alemães atacam o Nord Stream 2?

Uma tempestade de protestos do Partido Verde alemão irrompeu no início do ano. O seu ...