Brasil: hora de pensar diferente

Os últimos números da Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar (PNAD) sinalizam os tempos tempestuosos que aguardam os brasileiros no futuro imediato. De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a taxa de desemprego formal no País atingiu o índice mais alto desde 2012: 14,6% no terceiro trimestre, mantendo a tendência de alta registrada durante todo este ano. As taxas de subutilização (30,3%) e desalento (5,7%), também bateram recordes, representando 53,2 milhões de pessoas em situação das mais precárias para enfrentar as consequências econômicas da pandemia de Covid-19, as quais deverão ser ainda mais agravadas pela retirada total do apoio emergencial concedido pelo governo federal – grandemente responsável pela recuperação parcial da economia no segundo semestre.

Em paralelo, a falta de insumos e componentes e a consequente elevação de preços estão afetando a maior parte dos segmentos da indústria, setor da economia que já vinha sendo o mais afetado pela estagnação na qual o País chafurda desde 2015. Não por acaso, o Brasil deixou o ranking dos dez maiores parques industriais, caindo para a 16ª posição, ficando atrás do México, Indonésia, Rússia, Taiwan, Turquia e Espanha, enquanto a participação da indústria no PIB (Produto Interno Bruto) recua para os níveis da República Velha.

Diante desse quadro sombrio, o fator mais preocupante é o apego obstinado das elites dirigentes ao receituário da ortodoxia financeira baseado no rigor fiscal, um maldisfarçado eufemismo para a prioridade ao serviço da dívida pública, há décadas, a atividade mais “rentável” do País – embora à custa da prosperidade da economia real e da sociedade como um todo.

Não é difícil nem arriscado antecipar que a insistência nessa receita “viciada” não produzirá resultados diferentes dos obtidos no último lustro, agravados pelos efeitos da pandemia. Ou seja, é evidente que o choque dessa visão “fiscalista” com a realidade só poderá ser catastrófico, a despeito dos delírios de grandeza do ministro da Economia Paulo Guedes (“eu salvo a República de duas a três vezes por semana”) e da sua já patética “síndrome de Poliana”, quanto ao futuro róseo prometido sempre para depois das sacrossantas reformas e do aprofundamento da sua desastrosa agenda pró-rentista.

Esta é, aliás, a avaliação de um número crescente de observadores do cenário nacional, mais sintonizados com a realidade do que com os ilusionismos do mercado financeiro, inclusive, alguns próximos dele. Como afirma o economista Manoel Pires, coordenador do Observatório Fiscal do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), “o grande risco que corremos hoje é de se agarrar a essa âncora fiscal e, no meio da turbulência, se afogar com ela (O Estado de S. Paulo, 30/11/2020)”.

Em uma análise publicada no blog do economista Paulo Gala, seu colega Uallace Moreira foi categórico: “Os indicadores da indústria mostram que a recuperação da economia brasileira, possivelmente, será lenta e longa. Isso estará associado a uma delicada situação do mercado de trabalho, com baixa taxa de investimento no país. A redução e o fim do auxílio, associado a esse cenário de elevado desemprego e lenta recuperação, pode agravar a situação de desigualdade social no país, gerando um verdadeiro cenário de caos social. Mesmo com esse cenário delicado, as únicas opções apresentadas pelo governo, pelo mercado e pela grande imprensa para superar a crise são as reformas e o ajuste fiscal. Como falar em inflação de demanda diante desse cenário? Como falar em ajuste fiscal e reformas? São questões que, provavelmente, serão sempre justificadas de acordo com o ‘mito’ de que o estado não pode gastar mais do que arrecada, como uma família, além da ideia de que as reformas são necessárias porque o Estado é ‘ineficiente’.”

Inexistem quaisquer obstáculos objetivos para um relançamento virtuoso da economia: o País tem uma base industrial diversificada, ainda que depauperada e com grande capacidade ociosa, uma força de trabalho necessitada de ocupações produtivas e uma vasta pletora de recursos naturais. O grande bloqueio – totalmente subjetivo – é um sistema financeiro viciado nos ganhos fáceis com títulos da dívida pública, cuja hegemonia na formulação das políticas econômicas parece inabalável. Em outras palavras: o que falta é a necessária vontade política de romper esse círculo de giz.

Em entrevista ao “Estadão” (27/11/2020), o economista André Lara Resende, um dos convertidos às necessidades da economia real, enfatizou: “Antes de mais nada, é preciso superar a camisa de força imposta por um arcabouço analítico anacrônico e equivocado que impõe o equilíbrio fiscal como o único objetivo de política econômica. Dizem que com equilíbrio fiscal todos nossos problemas estarão milagrosamente resolvidos. Sem ele, caminhamos a passos largos para o abismo. Nada mais falso. Precisamos urgentemente voltar a ter um projeto para o País, ter objetivos de políticas públicas que balizem os investimentos públicos e privados, que norteiem a transição para uma matriz energética limpa e não nos deixe perder o bonde da revolução digital em curso. Precisamos refletir sobre as políticas de emprego, saúde e educação neste novo mundo do século XXI.”

Em essência, é mais que hora de se pensar diferentemente. Esta foi a mensagem principal do jornalista Lorenzo Carrasco, presidente do Movimento de Solidariedade Ibero-americana (MSIa), em uma webinar promovida pelo Movimento Anti-Reset e o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), em 17 de novembro: “Necessitamos de um estado de mudança mental, de mudança de ideias. Como dizia Einstein, o estado mental que cria um problema não tem condições de resolver esse problema. Ou seja, frente a essa crise que vivemos, não adianta fazer mais do mesmo, que é o que está nos levando à ruína (Resenha Estratégica, 25/11/2020).”

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