Brasil: crise não é militar, mas sanitária e econômica

A surpreendente decisão do presidente Jair Bolsonaro de demitir o ministro da Defesa e os três comandantes das Forças Armadas, como parte central de uma mudança ministerial que, aparentemente, limitar-se-ia ao Itamaraty, despertou temores de uma possível crise militar, em um momento crítico para o País.

Todavia, a despeito das turbulências que sempre envolvem tais acontecimentos, não se pode dizer que eles configurem uma crise militar, algo que possa repercutir além da caserna e agitar ainda mais o já conturbado cenário nacional. Ou seja, nada que o profissionalismo das F.As. não possa absorver e neutralizar.

Na realidade, a crise tem outras feições bem mais graves, a sanitária e a socioeconômica. A primeira, decorrente da forte escalada da pandemia de Covid-19, levando o sistema de saúde aos limites da sua capacidade, com hospitais, unidades de tratamento intensivo (UTIs) e pessoal sobrecarregados, escassez de medicamentos e insumos e outros sintomas de um sistema à beira do colapso. O resultado imediato é a disparada de fatalidades, colocando o Brasil no topo do pódio mundial de mortes diárias decorrentes da doença.

A segunda frente crítica ficou explicitada com a divulgação da mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), cujos resultados ressaltam os efeitos da prolongada estagnação econômica que afeta o País desde 2015, agravados pelos impactos da pandemia.

Em síntese, no trimestre encerrado em janeiro, o número de desempregados atingiu o recorde de 14,3 milhões de pessoas, um aumento de 2,4 milhões em um ano. O número de desalentados (pessoas que desistiram de procurar trabalho) se manteve na casa de 5,9 milhões, em relação ao trimestre anterior, e o de subutilizados (que gostariam de trabalhar mais), ficou estável em 32,4 milhões. O rendimento médio ficou em R$ 2.521,00, valor 2,9% inferior ao do trimestre anterior, e a massa de rendimentos se manteve estável no mesmo período, atingindo R$ 211,4 bilhões (Agência IBGE, 31/03/2021).

Apesar das dificuldades e das polêmicas que a envolvem, a crise sanitária conta com uma perspectiva de encaminhamento positivo, oferecida pela esperada intensificação da campanha de vacinação e outras medidas que, somadas ao denodado esforço dos profissionais médicos e auxiliares, de organizações civis e voluntários, militares e outros, poderão colocá-la sob controle em um previsível horizonte de médio prazo.

Por sua vez, a crise socioconômica não tem solução possível com a persistência da política econômica atual, punitiva para a maioria das atividades produtivas, concentradora de renda e universalmente fracassada em produzir os resultados prometidos, apesar de vendida como panaceia universal pelo ministro da Economia Paulo Guedes. Embora o “Posto Ipiranga” não tenha sido o iniciador da estagnação, a sua obsessão com um receituário ultraliberal que só produziu desindustrialização, concentração de renda e exclusão onde foi aplicado, só tende a agravar ainda mais uma situação já desastrosa. Em suma, com Guedes e sua política “antieconômica”, penalizadora da economia real e fomentadora dos ganhos financeiros improdutivos, esse é o futuro sombrio reservado ao Brasil.

(Foto: Ag Brasil / Diogo Vara)

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