Brasil: crise do modelo se evidencia

O apagão que deixou mais de 6 milhões de pessoas sem eletricidade, em 14 estados, na terça-feira 4 de fevereiro, menos de 24 horas depois de o ministro de Minas e Energia Edison Lobão ter afirmado que tal risco estava afastado, foi mais uma evidência de que o Brasil enfrenta um visível esgotamento do modelo de desenvolvimento baseado em uma política de incentivo ao consumo, que, entre outros co-requisitos, negligencia a necessidade de um programa sério de investimentos maciços – públicos e privados – em infraestrutura física. Com o afastamento do Estado, tais investimentos se tornaram dependentes do interesse dos investidores privados, ao mesmo tempo em que o próprio governo os penaliza, com a sua submissão e conivência com o aparato ambientalista-indigenista internacional. Assim, as políticas públicas, como as instituições em geral, estão a cada dia mais distantes das reais necessidades e anseios da população como um todo (evidentemente, aí incluída a maioria dos setores produtivos da economia).

No caso concreto dos cortes de energia, a combinação de um verão mais quente que a média com os atrasos na ampliação da infraestrutura energética (em grande medida, pelas restrições ambientais), além do aumento de consumo de energia proporcionado pelos incentivos à compra de eletrodomésticos (a chamada “bolha das Casas Bahia”), levaram ao limite a capacidade do sistema elétrico para responder a eventos imprevistos, como o incidente ainda não identificado que provocou o blecaute do dia 4.

Ao mesmo tempo, megalópoles como São Paulo e o Rio de Janeiro se vêem às voltas com problemas quase diários causados pela ineficiência e saturação dos seus sistemas de transportes, fatores que estiveram na origem das grandes manifestações nacionais ocorridas em junho de 2013 e ameaçam deflagrar novas ondas de protestos, inclusive, durante a Copa do Mundo, em junho-julho.

As deficiências da rede viária também se exacerbam diante das necessidades de transporte da supersafra de grãos que o País deverá colher este ano, gerando repetidamente cenas como as quilométricas filas de caminhões aguardando para deixar as suas cargas nos principais portos, que, com frequência, obriga os caminhoneiros a esperas que ultrapassam 24 horas.

Por ironia, grande parte desses problemas tem origem nos incentivos concedidos pelo governo federal em sua estratégia para o enfrentamento da crise de 2008, que se baseou na concessão maciça de créditos e incentivos direcionados, preferencialmente, ao consumo das famílias, como as reduções de IPI para automóveis e eletrodomésticos. Desafortunadamente, o que deveria ser uma medida com objetivos e prazos limitados acabou se convertendo em orientação semipermanente, voltada para a obtenção de vantagens políticas de curto prazo, sem a contrapartida de sequer um vestígio das mudanças substantivas requeridas para que a economia brasileira possa emergir da virtual estagnação em que se encontra, principalmente, nos seus setores de maior capacidade de agregação de valores.

Ademais, o setor financeiro continua dando as cartas na determinação das prioridades das políticas públicas, como se observa pela prioridade absoluta conferida no orçamento federal ao serviço da dívida pública e a utilização recorrente dos juros estratosféricos como quase exclusivo instrumento de política monetária.

Para complicar, setores diversos das elites dirigentes nacionais têm visões opostas e de difícil conciliação sobre a situação do País, o que dificulta qualquer tipo de entendimento sobre um diagnóstico dos problemas e o estabelecimento de uma agenda estratégica para enfrentá-los. Uma reportagem publicada em 11 de fevereiro, pelo jornal O Estado de S. Paulo, traz uma oportuna demonstração de tais desencontros.

Nela, dirigentes de quatro das mais importantes entidades empresariais brasileiras discordam entre si sobre a confiança do setor empresarial nos rumos do País, enquanto um ministro de Estado se limita a apontar as críticas como “manifestações de campanha política”.

Na reportagem, o presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Pedro Passos, atribui os resultados ruins da indústria em 2013 ao que chamou “ambiente econômico prejudicado”, afirmando, ainda, que “o clima de confiança do empresariado não existe, acabou”.

Com ele, fez coro o presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Humberto Barbato: “Há uma falta de segurança sobre o que vai ser a economia brasileira nos próximos meses, mais especificamente em relação às regras para o setor elétrico. A apreensão é grande.”

Já o diretor-secretário da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Carlos Pastoriza, reconheceu avanços na inserção social, mas afirmou que o modelo econômico “nos rouba competitividade sistêmica como País”. Segundo ele, a indústria de transformação, “que é o motor do desenvolvimento”, caminha para ser apenas montadora ou importadora porque a produção local não é competitiva. “Estamos céticos em relação ao desejo da classe política de fazer reformas para mudar esse quadro”, diz. “Teria de começar com a reforma mãe, que é a reforma política.” Para ele, o problema é antigo e vem de muito antes do atual governo.

Em entrevista à Rádio Jovem Pan, na véspera, Barbato afirmou que as mudanças precisariam “começar pela reforma política”, com medidas como o fim da reeleição. Em suas palavras, o Brasil precisa de “políticos comprometidos com um projeto de País e não simplesmente com seu projeto de poder”.

A voz dissidente, em um caso típico de quem toma a árvore pela floresta, veio do presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Moan, para quem “de forma alguma, perdemos a confiança no governo”. Segundo ele, graças a medidas rápidas e eficazes que ajudaram o País a criar maior demanda no mercado, o setor escapou de impactos da crise internacional nos últimos dois anos. “Tivemos crises fortes nos Estados Unidos e na Europa e recuo de crescimento da China, os três principais compradores de produtos brasileiros. O governo brasileiro minimizou possíveis consequências ao setor automotivo e à economia como um todo.”

Quanto ao governo, a resposta aos lamentos dos empresários foi dada pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, afirmando que tais críticas não passam de “um instrumento de campanha eleitoral antecipada”. Na verdade, tal definição se aplicaria melhor à manutenção de um modelo que mantém a indústria e os setores de infraestrutura em permanente sangria.

One comment

  1. Caro Geraldo,
    De fato estamos diante de uma crise profunda e as fofocas é que depois da copa vai piorar, depois das eleições mais ainda…Somente uma revolução…Um abraço,

x

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