Brasil: a urgência de um reinício e de um projeto de Nação

Uma considerável parcela dos erros cometidos pelo governo do presidente Jair Bolsonaro, nos seus proverbiais 100 primeiros dias de mandato, se deve a uma leitura equivocada dos motivos da sua vitória eleitoral em 2018. Em especial, a crença de que o Brasil estaria sequioso por uma agenda econômica ultraliberal, como a proposta pelo pré-anunciado ministro da Economia Paulo Guedes, e que a rejeição da agenda identitária por grande parte população implicaria na adoção acrítica e no atacado de toda a pauta dos grupos neopentecostais que apoiaram maciçamente o candidato do PSL. Ainda mais preocupante é o abandono da política exterior independente do Brasil, em particular, em relação a Washington e Tel Aviv, apelando para uma agenda apenas ideológica que ignora os verdadeiros interesses nacionais.

Nada mais equivocado. Bolsonaro foi eleito, predominantemente, pela somatória da rejeição ao PT e aos escândalos de corrupção, o desgaste da classe política em geral, a crescente sensação de impunidade e insegurança pública, os efeitos de quatro anos de recessão e, sim, o cansaço com os excessos da agenda “politicamente correta” e o anseio pela retomada de valores pátrios, cívicos e espirituais. Sem se esquecer que grande parte da população identificou o então candidato Bolsonaro com as Forças Armadas, a instituição de maior índice de credibilidade do País.

Não obstante, nada disso significou uma carta branca para que o novo mandatário e alguns de seus ministros governassem ao seu talante e com pouca interlocução com a sociedade e seus representantes, fora dos empolgados e ruidosos grupos sectários que o apoiam incondicionalmente. E, não menos, para que a imposição de questionáveis diretrizes ideológicas à formulação de políticas em setores estratégicos, como a política exterior e a educação, se colocassem acima dos interesses permanentes do Estado e da sociedade, prejudicando conquistas consolidadas ao longo de décadas de esforços públicos e privados.

Sobretudo, falta ao governo a avaliação correta das circunstâncias do momento vivido pelo País e do cenário de rápidas mudanças globais no qual ele se insere, resultando na ausência de qualquer orientação estratégica moldada na realidade. Particularmente, inexiste uma agenda realista de enfrentamento da gravíssima crise socioeconômica, que entra no quinto ano e cuja reversão exigirá muito mais do que os míticos investimentos à espera da reforma da Previdência, pauta monotemática do Ministério da Economia.

Como demonstrou o presidente Franklin Roosevelt, ao assumir o governo dos EUA em 1933, em meio à Grande Depressão e com um em três estadunidenses adultos desempregados, não é possível sair de uma recessão forte sem pesados investimentos públicos em atividades multiplicadoras de valores, principalmente, infraestrutura física. Investimentos privados não puxam a uma recuperação, mas a reforçam, indo a reboque da sinalização de investimentos públicos. Lembrando que Roosevelt investiu duramente contra os banqueiros e rentistas (que chamava genericamente de “banksters”) responsáveis pela crise de 1929, hoje, de novo, promotores da crescente e escandalosa desigualdade econômica e social que afeta todo o planeta, levando outra vez o sistema financeiro mundial à beira do colapso.

O Brasil tem quase 30 milhões de desempregados, subempregados e desalentados, mas também quase 40% de capacidade ociosa na indústria, o que oferece uma grande margem de manobra para investimentos públicos sem subprodutos inflacionários. O obstáculo maior está na orientação pró-rentista da política econômica, quase exclusivamente voltada para o serviço da dívida pública, óbice que tem obstaculizado a plena decolagem da economia desde o início da década de 1990, inclusive, com a captura de setores da classe média para a jogatina financeira. Enquanto esta for a prioridade da ação do governo, a prometida recuperação não passará de ilusionismo.

Por isso, é urgente um reinício do governo, com uma pauta que considere essa realidade e a necessidade de transmitir à população um sentido de projeto nacional, que lhe proporcione um norte e um propósito comum. Caso contrário, mensagens no Twitter e cintos de segurança afivelados poderão não ser suficientes para enfrentar as violentas turbulências que se prenunciam.

x

Check Also

Brasil: a urgência de um “Momento Hamilton”

Após a família Mesquita, no tradicional “Estadão”, coube aos irmãos Marinho utilizarem um editorial de O Globo ...