Biden e a farsa da “liderança climática”

A agenda de “liderança climática” dos EUA, tentativamente exercitada na cúpula virtual convocada pelo presidente Joe Biden, em 22-23 de abril, não passa de um elaborado jogo de cena. Basicamente, ela tem dois objetivos: 1) compensar parcialmente a perda de hegemonia estratégica frente à emergência do eixo eurasiático – China, Rússia, Irã etc. – como o novo centro de gravidade geoestratégico e geoeconômico do mundo; 2) atuar como uma peça-chave do esforço de preservação do “sistema dólar”, com a “financeirização” da agenda ambiental/climática – igualmente, elemento fundamental do “Grande Reset” propagandeado pelos grupos oligárquicos representados no Fórum Econômico Mundial.

As metas apresentadas por Biden, de redução de 50% das emissões de carbono dos EUA até 2030, são inviáveis com as tecnologias existentes e, mesmo com a introdução de novas tecnologias energéticas avançadas – fusão nuclear, “fusão a frio”, reatores de fissão avançados, hidrogênio e outras -, não seria possível promover nesse período uma substituição em massa das atuais fontes termelétricas, que respondem por três quartos da geração elétrica estadunidense.

O próprio enviado especial para o Clima da Presidência estadunidense, John Kerry, admite que as metas são inócuas, além de dependerem de novas tecnologias (vide https://www.air.tv/watch?v=6tRJuGO9TGGK48F5zKITNw). No vídeo, Kerry também afirma que, mesmo que sejas atingidas as chamadas emissões “líquidas zero”, ainda será preciso retirar dióxido de carbono (CO2) da atmosfera (aliás, alguém precisa informá-lo de que sem o gás não existiria vida na Terra, já que é o principal alimento para a fotossíntese das plantas).

Igualmente, a Agência Internacional de Energia (AIE) afirma que a metade dos cortes de emissões necessários para atingir a “neutralidade de carbono” até 2050 dependerá de tecnologias ainda não disponíveis (O Globo, 24/04/2021).

Por sua vez, países como a China, Rússia, Índia e outros, grandemente dependentes de combustíveis fósseis para a geração elétrica ou a sua pauta de exportações, estão fazendo o mesmo jogo de cena, pelos seus próprios interesses. As metas de “neutralidade de carbono” (conceito já por si questionável) foram fixadas para meados do século e aceitas como tais, pelo motivo óbvio da imprevisibilidade dos acontecimentos mundiais nas próximas três décadas, inclusive, pela introdução em uso comercial das tecnologias avançadas citadas anteriormente. E outro fator que não se pode descartar é uma desqualificação/desmoralização do cenário catastrofista sobre o clima global, por exemplo, em função do provável período de frio ocasionado pelo Ciclo Solar 25, o mais fraco em dois séculos e cujos efeitos deverão durar até a década de 2030.

Um aspecto que precisa ser ressaltado é o desenvolvimento de tecnologias energéticas avançadas nas potências industrializadas, com grandes investimentos públicos, privados e, com frequência, de parcerias público-privadas. E aqui, não nos referimos às fontes chamadas “alternativas”, como eólica, solar e outras, mas fontes de alta densidade energética como as citadas anteriormente. Independentemente dos motivos com os quais se está justificando a agenda da “descarbonização” da matriz energética mundial, algumas dessas tecnologias poderão entrar em uso comercial ainda nesta década e, por sua eficiência potencial, tendem a se impor gradativamente sobre as fontes energéticas convencionais.

Neste aspecto, o Brasil está extremamente atrasado, devido ao escasso interesse das elites nacionais pela ciência, tecnologia e inovação, o qual se reflete na queda livre dos investimentos públicos na área desde 2010, bastante acentuados no atual governo. É, portanto, crucial que o País estabeleça no curto prazo um programa mínimo de pesquisas em tais áreas, para não ficar muito para trás nessa corrida tecnológica, desconhecida da grande maioria dos brasileiros.

As pressões internacionais sobre o Brasil deverão continuar em níveis elevados, apesar de o discurso do presidente Jair Bolsonaro na cúpula de 22 de abril ter sido ponderado o suficiente para reduzir momentaneamente o nível de atritos com o governo dos EUA. Não obstante, o País cometerá um grave equívoco se insistir na linha de solicitar pagamentos pelos imaginários “serviços ambientais” que prestaria ao planeta, para que as suas políticas ambientais e de desenvolvimento não dependam de recursos externos, invariavelmente atados a condicionantes diversos, em geral, lesivos à soberania e aos interesses nacionais. Ademais, é preciso um grande esforço de propaganda e político para que o País possa confrontar efetivamente a narrativa que o apresenta ao mundo como o “vilão ambiental número um” do planeta. Para tanto, é de todo conveniente uma aproximação com países em desenvolvimento às voltas com problemas análogos ou semalhantes, em especial, na América Latina, África e Ásia, com os quais possa estabelecer uma frente comum em favor de um desenvolvimento socioeconômico autêntico, que vá além das metas vagas dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, uma bela carta de boas intenções com efetividade reduzida.

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