Autismo estratégico no Planalto

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O jornal O Globo informou hoje que a presidente Dilma Rousseff declinou do convite do governo da Federação Russa para participar do desfile do Dia da Vitória, em Moscou, para não deixar de comparecer ao casamento do seu cardiologista, em São Paulo (SP), na mesma data. O jornal também afirmou que ela não veio ao Rio de Janeiro (RJ), para a celebração oficial no Monumento aos Mortos da II Guerra Mundial, por recomendação dos chefes militares, que temiam manifestações de militares da reserva contrários à presidente.

Ninguém pode menosprezar a importância dos amigos verdadeiros, em particular, em casos de pessoas que ocupam altos postos de poder, meio geralmente povoado por áulicos, sicofantas, interesseiros ou, simplesmente, auxiliares temerosos de apresentar a realidade aos chefes. Menos ainda no caso da mandatária, tida como uma pessoa fechada e de trato difícil. Todavia, com todo o respeito ao Dr. Roberto Kalil, a presidente tinha uma elevada razão de Estado para viajar à capital russa, onde dividiria o palanque com o anfitrião, Vladimir Putin, e seu colega chinês, Xi Jinping, seus parceiros no grupo BRICS.

Em Moscou, os dois líderes assistiram ao maior desfile militar de todos os tempos, o qual contou com a presença de tropas de 12 países (inclusive chinesas e indianas) e, segundo um comentarista estadunidense, transmitiram ao mundo a mensagem firme e simbólica de que “uma nova ordem mundial muito diferente está emergindo dos escombros do período pós-Guerra Fria”.

Em especial, a celebração na Praça Vermelha representou a manifestação de um exército de cidadãos na defesa de um Estado soberano e cristão. Isto foi simbolizado tanto pelo ministro da Defesa Sergei Shoigu, fazendo o sinal da cruz ao abrir o desfile militar, como pelo desfile dos “regimentos dos imortais”, que reuniu mais de 400 mil civis de todas as idades, a maioria portando retratos de parentes já falecidos que lutaram na guerra – inclusive, com a presença de Putin, levando o retrato de seu pai, um simples soldado.

Ao trocar Moscou por São Paulo, Dilma (que tampouco escapou de vaias e protestos na capital paulista) reforçou a deplorável mensagem que o seu fragilizado governo está transmitindo ao mundo: a de que o Brasil está abandonando qualquer pretensão de atuar como um “global player” e recolhendo-se ao paroquialismo atávico em uma certa parcela das suas elites dirigentes – e, possivelmente, voltando a submeter-se ao hegemon de plantão.

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