Atmosfera de crise no Mid-Atlantic Club

Em meados de agosto, o Mid-Atlantic Club realizou o seu almoço de verão anual, em Bonn, Alemanha. Como nas ocasiões anteriores, personalidades da política e empresariais, militares retirados e diplomatas, além de numerosos convidados, alemães e estrangeiros, ali compareceram para uma troca informal de ideias sobre a situação europeia e mundial e a posição da Alemanha. Desta vez, o orador convidado foi Alex Voss, eurodeputado pela União Democrata Cristã (CDU) desde 2009, que apresentou um olhar interno sobre o trabalho do Parlamento Europeu. As suas observações se concentraram na crise do euro, na redução da dívida da Grécia e nos esforços europeus de reforma econômica e financeira.

No discurso de abertura, Friedhelm Ost, consultor de negócios e ex-secretário de Estado do Escritório Federal de Imprensa do governo do chanceler Helmut Kohl (CDU, 1982-1998), refletiu muito da tensão atual que envolve as lideranças políticas do bloco europeu. Tensão esta que pode ser percebida em uma série de propostas contraditórias para uma solução da crise da dívida e do euro (segundo Ost, “de repente, parece que temos 80 milhões de especialistas em divisas na Alemanha”), nas cifras preocupantes relativas à dívida alemã (“os montantes reais da dívida de estado estão acima de 2 trilhões de euros, além de um déficit orçamentário de 5 trilhões”), pagamentos de juros anuais de mais de 60 bilhões e somente 40 bilhões para projetos de investimentos públicos (“É esse o nosso futuro?”, indagou, ressaltando que “o crescimento econômico deste ano na Alemanha não será superior a 0,3%.”).

Os aspectos realmente preocupantes da exposição foram suavizados por Ost, com ironia e bom humor, e não foi por acaso que ele se referiu à sátira “Fotos de viagem”, do escritor do século XIX Heinrich Heine, uma cáustica descrição do caráter provinciano dos alemães. Por fim, Ost ironizou a chamada “transição energética” na Alemanha, que já absorveu um total de 300 bilhões de euros em investimentos, observando que “os únicos que estão realmente engordando com as usinas eólicas são as raposas, que comem os pássaros mortos pelas pás dos aerogeradores”.

Após o irônico discurso de Ost, Voss teve problemas para discorrer sobre o caminho a ser seguido pela Europa, o destino da Grécia e o funcionamento dos “guarda-chuvas de segurança financeira”. Para começar, ele reclamou do grande número de atividades que envolvem o trabalho dos eurodeputados: “Quanto tempo sobra, para um eurodeputado envolvido em uma infinidade de obrigações, entre Bruxelas, Estrasburgo e Bonn, pensar sobre possíveis soluções, bem como sobre a crise do euro? Isto nos traz à mente o conhecido ditado, ‘não perca de vista a floresta por causa das árvores’.”

Voss defendeu a preservação do euro e ressaltou as diferenças entre as diversas economias nacionais e as respectivas produtividades, quando da criação da moeda comum – desequilíbrios que se refletiram nas distorções que emergiram com a inauguração da zona do euro. O parlamentar exortou os gregos a se engajarem em profundas reformas e discorreu sobre as tensões ideológicas entre deputados de diferentes partidos, dizendo que “não há lugar para diálogos transpartidários fora do Parlamento Europeu”. Indiretamente, ele confirmou que há um crescente ressentimento entre várias nações europeias, instigado pela propaganda midiática. Um exemplo foi uma recente edição do jornal italiano Il Giornale, de propriedade do ex-premier Silvio Berlusconi, que colocou no cabeçalho da matéria principal a expressão “Quarto Reich”, para designar a decisão da chanceler alemã Angela Merkel de não adquirir títulos de dívida de Estados europeus ofertados pelo Banco Central Europeu (BCE).

O eurodeputado se mostrou muito crítico em relação à Alemanha e à França, por terem “forçado” a anulação da legislação do bloco europeu, em benefício próprio, em especial, para garantir que nenhuma sanção fosse aplicada à “pecadora” Alemanha após 2005, quando o país violou o limite de dívida do bloco por três anos seguidos. Igualmente, ele também ressaltou a sua preocupação com as possíveis consequências do alto desemprego entre os jovens na Espanha e na Grécia, e com a crescente radicalização dos protestos em reação aos “remédios radicais” impostos a tais países.

Ost observou que a crise do euro lembra uma situação em que se precisa optar entre a “peste e a cólera”. A pergunta é: quais são os custos de um “fracasso” e quanto vale um “não-fracasso” do projeto do euro? Para ele, as lideranças políticas dos vários países europeus deveriam usar os seus poderes para defender o “Bem Comum” na luta contra a “imprudência do mercado financeiro” – comentário feito pelo economista Paul Kirchhoff, em um artigo publicado no jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung de 12 de julho último.

Tal estratégia deveria incluir um pacote de medidas que compreenda: o isolamento dos “produtos financeiros tóxicos” no mercado financeiro internacional; a supervisão dos bancos; uma solução efetiva para a crise das dívidas; o fortalecimento da inovação tecnológica na economia real; e a criação de empregos para os jovens, fazendo-se uso da experiência alemã (o “sistema educacional dual”). Sem estas medidas, ressaltou, não será possível superar, definitivamente, a crise na Europa. Isto só será bem sucedido se as pessoas forem “incluídas” na busca da solução e se elas sentirem que restrições efetivas são impostas à “presunção dos mercados”, além de entenderem que não há qualquer tabu a respeito da efetiva reorganização do sistema financeiro global.

Em síntese, o que pode ser sentido, neste verão especialmente quente de 2012, é um estado de ânimo estranhamente contraditório, tenso e um tanto perplexo entre as elites europeias.

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