Amazônia precisa de seriedade, não de “conversa de bêbados”

A discussão sobre o desmatamento na Amazônia é “conversa de bêbado”. Com esta expressão forte, o vice-presidente Hamilton Mourão, também presidente do Conselho da Amazônia, sintetizou o desconhecimento geral sobre a região, demonstrado pelos investidores estrangeiros participantes da videoconferência realizada em 9 de junho, com a participação do próprio Mourão e vários ministros. O evento foi organizado em resposta à carta enviada a embaixadas brasileiras em seis países, ameaçando represálias como a retirada de investimentos no País, caso não haja mudanças nas políticas ambiental e indígena do governo (Alerta Científico e Ambiental, 25/06/2020).

“Só no ano que vem, quando vai passar o satélite de novo, vamos poder comprovar que nossos esforços para reduzir o desmatamento na Amazônia surtiram efeito. Até lá, é conversa de bêbado: eles dizendo umas coisas e nós argumentando outras”, disse Mourão (UOL, 10/07/2020).

Segundo ele, o desconhecimento sobre a realidade amazônica é generalizado: “Os europeus, assim com a maioria dos brasileiros, desconhecem o que é a Amazônia. Basta dizer que tem quase o mesmo tamanho da União Europeia: uma tem 4,4 milhões de metros quadrados, a outra, 4,2 milhões. Não é brincadeira.”

Na conferência, Mourão ressaltou que 84% do bioma Amazônia estão preservados e, por isso, o País não precisa derrubar “nem uma árvore a mais” para aumentar a sua produção agropecuária.

De fato, ele poderia ter complementado a informação, lembrando que tal área de floresta que se encontra virtualmente intocada desde a chegada dos portugueses ao Brasil, em 1500, tem cerca de 3,5 milhões de quilômetros quadrados, equivalente ao território da Alemanha, França, Reino Unido, Irlanda, Noruega, Suécia, Finlândia, Holanda, Itália, Espanha e Portugal juntos; se fosse um país, seria o sétimo do mundo em extensão, maior que a Índia.

Ainda que, por absurdo, se fizesse uma extrapolação com as taxas de desmatamento dos últimos anos – de resto, bem menores que os níveis recordistas da primeira década do século (vide o gráfico abaixo) –, seriam necessários mais de 300 anos para se desmatar totalmente o bioma Amazônia – algo que, a propósito, só passa na cabeça dos ambientalistas mais delirantes e radicais.

Desmatamento na Amazônia Legal 1988-2018. O número oficial do INPE para 2019 foi 10.129 km2. (Fonte: INPE/PRODES.)

Esses números, que não implicam em se compactuar com ilegalidades, apenas reforçam a percepção do desconhecimento quase absoluto sobre a região, não só por estrangeiros, mas por muitos brasileiros, inclusive, os militantes que fizeram do radicalismo “verde-indígena” uma rentável atividade profissional e seus seguidores, eventualmente, bem intencionados, mas ignorantes de uma realidade que deveriam empenhar-se em conhecer melhor.

Por outro lado, Mourão apontou para uma das motivações da campanha de pressões “amazônicas”: “Não há dúvidas de que seremos em breve a maior potência agrícola do mundo. E é óbvio que aqueles que serão incomodados pelo avanço da produção brasileira buscarão de alguma forma impedir que essa produção evolua como vem ocorrendo. Então, vamos sofrer pressões. E uma dessas pressões é dizer que o Brasil está destruindo a Amazônia para produzir alimentos, o que não é uma verdade (MAPA, 09/07/2020).”

Sobre as acusações de que o governo estaria negligenciando o atendimento aos indígenas durante a pandemia de covid-19, o vice-presidente não só contrariou o dogma isolacionista prevalecente sobre os indígenas, defendendo que eles sejam “mais integrados” à sociedade, como afirmou que parte das infecções se deve aos deslocamentos realizados por eles até as cidades.

“A questão da chegada da pandemia nas terras indígenas… Não é por que têm elementos estranhos lá dentro que a pandemia chegou. As senhoras e os senhores têm que entender, na realidade amazônica, que o indígena sai de dentro da sua terra para ir até a cidade, seja para receber algum benefício, da nossa Lei Orgânica de Assistência Social, seja porque ele tem que comprar alguma coisa”, afirmou (O Estado de S. Paulo, 09/07/2020).

Na reunião, a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, deu a sua contribuição para o esclarecimento dos preocupados investidores europeus, assegurando que, hoje, apenas 2% da produção agrícola e 14% da pecuária provêm de terras situadas no bioma Amazônia.

Igualmente, ela aproveitou para mostrar a importância do projeto de lei sobre a regularização fundiária (PL 2.633/2020), que tramita no Congresso Nacional e recebeu uma crítica especial na carta dos investidores, por considerarem que ele “legaliza a ocupação [de terras públicas] e encoraja mais o desmatamento”.

“Eles queriam saber se realmente tem chance de que esse projeto for aprovado se aumentaria desmatamento na Amazônia. Muito pelo contrário, deixamos claro que isso vai dar um nome, aquelas terras terão donos. Então, eles passarão a estar dentro da legislação brasileira. Vão ter o título e, portanto, terão que cumprir as regras ambientais do governo. Com isso, acreditamos que teremos um controle maior daquela região.” – disse a ministra (MAPA, 09/07/2020).

Em entrevista anterior, Tereza Cristina também tocou nas motivações pouco ocultas da campanha contra o Brasil: “Existem outros interesses comerciais, que não são algo pontual e ligado só ao meio ambiente. Por que só o Brasil? Essa é a pergunta que a gente tem de fazer. Eu não tenho mais idade para acreditar em Papai Noel. Então, o que vejo é que existe uma desinformação, às vezes, sobre algumas coisas (Terra, 09/07/2020).”

A despeito dos esclarecimentos, ficou evidente que o problema não se restringe ao desconhecimento, embora este se mostre em proporções realmente “amazônicas”. Em entrevista ao jornal O Globo (10/07/2020), a chefe de “investimentos responsáveis” do fundo de pensão norueguês KLP, Jeanett Bergan, falou claramente: “Ficamos muito contentes com a rápida resposta do governo à nossa carta… Mas precisamos ver resultados concretos. Quando avaliamos o risco de investimento, avaliamos fatos. Então, não interessa muito o que se fala, a não ser que o discurso seja seguido de atos concretos.”

Ou seja, os índices de desmatamento e o número de queimadas deverão continuar sendo acompanhados de perto pelo aparato ambientalista-indigenista e trombeteados ao mundo, em especial, o dos altos negócios internacionais, pronto para novas chantagens e pressões sobre o Brasil.

Em outra vertente, se essa discussão pode ser rotulada como “conversa de bêbados (ricos)”, é preciso ressaltar o aspecto do absoluto subdesenvolvimento da Amazônia como um todo. Considerando os nove estados que integram a Amazônia Legal (frequente e deliberadamente confundida com o bioma Amazônia), embora representem 61% do território nacional, compreendem apenas 13% da população e 8% do PIB (Produto Interno Bruto) do País. Sem falar que nem 15% da sua população urbana têm acesso a sistemas de esgoto, e que ali vive grande parte dos 4 milhões de brasileiros que não têm sequer um vaso sanitário em casa.

Por isso, como temos insistido neste Alerta e em numerosas outras publicações, a proteção real da Amazônia não pode ser considerada separadamente do contexto da retomada de um novo projeto nacional de desenvolvimento. Este é um imperativo para o período pós-pandemia imediato, com o qual os brasileiros possam retomar as rédeas da construção do seu futuro, em vez de deixá-lo ser definido por essa exótica aliança de especuladores desligados da economia real e do bem-estar geral da sociedade com militantes profissionais, todos descompromissados com os interesses maiores dos brasileiros.

Para a Amazônia, o caminho para isso não é o da mera repressão às atividades ilegais, apesar de esta ser necessária, nem o da sua “preservação” como um gigantesco combo de jardim botânico e zoológico, como muitos parecem pensar, ingenuamente. Ao contrário, a agenda amazônica passa pelas muito atrasadas tarefas da: a) regularização fundiária (hoje demonizada); b) zoneamento ecológico-econômico; c) agregação de valor às produções e recursos locais com as melhores técnicas disponíveis; d) melhoramento e ampliação das infraestruturas necessárias para proporcionar ganhos de qualidade de vida para as populações locais; e) um grande esforço de pesquisa e desenvolvimento dos seus vastos recursos de biodiversidade, reunindo instituições de pesquisa, empresas privadas e o precioso conhecimento tradicional dos seus habitantes.

Em suma, uma espécie de Amazônia Industrial 4.0, impulso necessário para elevar os habitantes da região aos níveis de desenvolvimento permitidos pelos avanços do século XXI, juntamente com o restante do País. Tudo isso pode e deve ser feito com os necessários cuidados com o meio ambiente, mas para que esta agenda racional seja posta em prática, um pré-requisito fundamental será deixar de lado a “conversa de bêbados” repleta de mitos e a histeria, e enfocar os debataes pela ótica das necessidades e perspectivas de desenvolvimento da região.

Para tanto, dificilmente, o “bom comportamento” pregado por muitos no País, poderá ser a melhor resposta ao desafio, que exige uma efetiva harmonização de interesses e agendas entre o governo, a diplomacia e os setores produtivos e acadêmicos nacionais.

(Um artigo com informações úteis sobre a Amazônia, em língua franca, encontra-se neste link.)

 

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