Alta finança global: adiando o apocalipse

As medidas financeiras tomadas na semana passada, dos dois lados do Atlântico, transmitiram ao mundo a mensagem inequívoca de que os controladores do sistema financeiro internacional estão empenhados em protelar, ao máximo possível, a atual configuração do sistema, cuja instabilidade intrínseca se manifesta de forma cada vez mais evidente. Com isto, a alta finança global pretende adiar o momento do apocalipse sistêmico, em que ficará patente para todo o mundo a necessidade de uma profunda reforma da arquitetura financeira mundial, sem a qual não há qualquer possibilidade de uma reconstrução da economia global em bases sólidas.

Na Europa, depois de o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, anunciar a disposição da casa para comprar títulos de dívida governamentais dos países da zona do euro com problemas, de forma praticamente ilimitada, a corte constitucional alemã deu o sinal verde que faltava para o funcionamento do Mecanismo de Estabilidade Financeira (ESM, na sigla em inglês), embora com restrições que, na prática, limitam bastante as futuras contribuições alemãs para o fundo de resgate coletivo. Por exemplo, a participação alemã para o fundo foi limitada a 190 bilhões de euros, quantia bastante limitada para as dimensões das vulnerabilidades das demais economias do bloco europeu, principalmente, no caso da Espanha e da Itália. Outra restrição complicadora foi imposta sobre a compra de títulos pelo BCE no mercado secundário. Mesmo assim, a medida foi suficiente para aliviar as apreensões dos mercados, pois uma eventual rejeição da participação alemã no ESM poderia provocar um abalo potencialmente fatal na arquitetura financeira europeia.

Nos EUA, simultaneamene, a Reserva Federal anunciou a esperada terceira rodada de “facilitação quantitativa” (QE3, como está sendo chamada em inglês), comprometendo-se a recomprar, de forma igualmente ilimitada, até 40 bilhões de dólares mensais em ativos vinculados às hipotecas imobiliárias, num esforço de reviver o estagnado mercado imobiliário estadunidense e, por meio dele, elevar os níveis de emprego e consumo. Como o pacote não terá qualquer efeito sobre a economia física, a sua intenção real parece ser mais a de proporcionar um mínimo de estímulo aos mercados financeiros, para evitar maiores turbulências antes das eleições presidenciais de novembro próximo.

“Ninguém sabe o que fazer – e ninguém pode saber disso”

Não obstante, os próprios integrantes do olimpo financeiro se mostram pessimistas e desorientados quanto ao futuro da economia mundial. Na última reunião do Banco de Compensações Internacionais (BIS), em Basileia, no fim-de-semana de 8-9 de setembro, os presidentes dos principais bancos centrais do planeta concluíram que a crise deverá ser mais forte e prolongada do que se estimava. Em uma longa reportagem publicada em 11 de setembro, o correspondente do jornal O Estado de S. Paulo em Genebra, Jamil Chade, informa que o clima da reunião foi “pesado, pessimista e com a constatação de que projeções oficiais de crescimento serão revistas, desmentindo versões oficiais”. O mais preocupante, diz ele, “é que ninguém parece ver uma luz no fim do túnel”.

Para os bancos centrais, não há dúvida de que a economia global caminha para uma forte desaceleração, afirma Chade.

Porém, o que talvez seja ainda mais sério são a desorientação e a perplexidade reinantes entre os altos próceres financeiros, descritas pelo jornalista. Um deles chegou a afirmar: “Estamos vivendo uma nova era das finanças. A Era dos Experimentos.” Na avaliação de Chade, “o que fica cada vez mais claro é que menos gente dentro da sala parecia saber exatamente o que está ocorrendo”.

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