Acordo climático China-EUA não é tão “histórico” assim

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O adjetivo “histórico” foi o mais empregado para qualificar o compromisso anunciado pelos presidentes da China e dos EUA, Xi Jinping e Barack Obama, para reduzir as respectivas emissões de carbono, até o período 2025-2030. As metas anunciadas são, de fato, ambiciosas: segundo o comunicado oficial da Casa Branca, Obama se comprometeu com uma redução de 26-28% sobre os níveis de 2005, até 2025; Xi prometeu que as emissões chinesas atingiriam um pico em torno de 2030, com a intenção de atingi-lo antes, e aumentar a participação das fontes não-fósseis na matriz energética para cerca de 20%, em 2030.

O anúncio foi prontamente saudado por ambientalistas, reportagens e editoriais midiáticos e outros integrantes da máquina de propaganda que tem alimentado e se alimenta do alarmismo climático, reforçada pela divulgação do mais recente “Sumário para formuladores de políticas” do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que já fixou as datas para o apocalipse climático, caso a humanidade não se empenhe a sério em cortar 80% das emissões de carbono, até 2050. Segundo a interpretação prevalecente, o “acordo histórico” entre as duas maiores economias do mundo deverá influenciar outras nações importantes a assumir compromissos semelhantes, facilitando as negociações para um acordo climático global, abrangente e vinculante, em 2015, em substituição ao fracassado Protocolo de Kyoto.

O boletim de imprensa divulgado pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF), em sua sede de Gland, Suíça, sintetizava:

O anúncio de hoje, feito pelos dois maiores emissores de carbono do mundo – China e EUA -, sobre novas metas de redução de emissões, emite um poderoso sinal político: haverá uma ação global sobre as mudanças climáticas e um acordo climático global da ONU, em 2015 (WWF, 12/11/2014).

No Brasil, o jornal Valor Econômico afirmou, em seu editorial de 13 de novembro, que

o gesto de Obama e Xi abre frestas de otimismo para a meta de se obter em 2015, na conferência de Paris, acerto robusto que detenha o ritmo de aquecimento global. Se a situação de hoje perdurar, o mundo caminha para um aumento de 3,5 a 4 graus até o fim do século. (…)

Não obstante, fogos de artifício à parte, o “acordo histórico” parece ser mais uma injeção de ar quente no balão do “aquecimentismo”, como parte do esforço político para sustentar a vasta indústria que se estabeleceu em torno do alarmismo climático. Nos últimos anos, esta tem sido bastante sacudida por sucessivos escândalos envolvendo alguns dos seus principais representantes na comunidade científica, pelo fato de que as temperaturas globais deixaram de subir desde o início do século (não previsto por nenhum dos mais de 40 modelos climáticos usados pelo IPCC em seus prognósticos) e, não menos, pela crescente percepção da falta de consistência dos prognósticos e das soluções tecnológicas propostas para enfrentar o suposto problema.

O simples fato de o acordo não ter efeito vinculante já lhe tira qualquer força real. A própria China, na conferência climática de 2009, em Copenhague, já havia anunciado a “intenção” de reduzir as suas emissões por unidade de produção econômica em 40-50%, até 2020. Apenas adiaram a data de referência por dez anos e reduziram as metas a menos da metade da “intenção” anterior.

Em entrevista à agência Reuters (12/11/2014), Li Junfeng, assessor de políticas climáticas da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reformas, a agência de planejamento do governo chinês, falou claramente: “A declaração é um sinal otimista para motivar outros países, mas o calendário com o qual a China se comprometeu não é uma meta vinculante.”

Ademais, os especialistas apontam para a dificuldade da promessa chinesa de gerar 800-1000 gigawatts de fontes nucleares, eólicas, solares e outras de “emissão zero”, até o final da próxima década, montante superior à capacidade de todas as termelétricas hoje existentes no país e próximo à atual capacidade de geração elétrica dos EUA.

No caso estadunidense, o controle do Congresso pelo Partido Republicano, a partir de janeiro, tende a dificultar bastante qualquer proposta de Obama para estabelecer metas de cortes de emissões, às quais os Republicanos são particularmente refratários. Vale lembrar que os Democratas perderam o controle do Senado, justamente, por terem perdido as recentes eleições nos estados de Kentucky e Virgínia Ocidental, onde a economia é fortemente influenciada pela exploração de carvão e o eleitorado rejeita a agenda de restrições de emissões proposta por Obama. Apesar de as emendas à Lei do Ar Limpo de 1992, referendadas pela Suprema Corte em 2007, darem ao presidente a autoridade para estabelecer certas normas reguladoras à indústria energética, para Obama, o desgaste político de confrontar o Congresso constituiria um grande embaraço para a posição internacional dos EUA nas negociações climáticas. Assim, será difícil que o país possa se apresentar em Paris, no final do próximo ano, em uma posição de liderança.

Em síntese, nada de novo sob o Sol.

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