A “retomada verde” da OTAN

Por Lorenzo Carrasco e Geraldo Luís Lino

Desde a implosão da União Soviética e do Pacto de Varsóvia, em 1991, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ficou sem a razão de ser precípua da sua criação, em 1949, e passou a uma busca frenética por novos demônios existenciais para justificar a sua continuidade como uma supertecnocracia militar liderada pelos EUA, ou melhor, atrelada aos interesses do chamado Eastern Establishment deste país e seus parceiros oligárquicos europeus.

Entre outras missões, desde então, a Aliança Atlântica foi oficialmente mobilizada para esmagar a Iugoslávia e a Líbia, invadir o Afeganistão, combater piratas no Oceano Índico e o Estado Islâmico e manter um cerco permanente e cada vez mais agressivo contra a Federação Russa, além de atuar extraoficialmente nas invasões do Iraque e da Síria, invariavelmente, sob a batuta de Washington.

Em essência, a OTAN foi convertida em uma “gendarmeria global” com uma agenda própria, nem sempre necessitada do aval do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Ademais das missões de cunho estritamente militar, a nova agenda incluía ações humanitárias e o combate ao terrorismo, ao narcotráfico, às agressões ao meio ambiente e às ameaças à democracia. Ou seja, o seu novo campo de operações passou a ser praticamente o mundo inteiro, como observou oportunamente o então ministro da Defesa Nelson Jobim, em Lisboa, em 2010, no seminário “O Futuro da Comunidade Transatlântica”, promovido pelo Instituto de Defesa Nacional de Portugal, quando colocou com clareza as preocupações brasileiras com a pretendida expansão da área de atuação da Aliança.

Em sua apresentação, Jobim apresentou um slide extraído diretamente de um documento de orientação da OTAN (observe-se o ano assinalado no texto original):

NATO 2020: assured security; dynamic engagement… desdobrar e sustentar capacidades expedicionárias para operações militares além da área abrangida pelo tratado quando requerido para impedir um ataque na área abrangida pelo tratado ou para proteger os direitos e outros interesses vitais dos membros da aliança [grifos no slide].

E comentou, sem meias palavras: “No que toca ao ‘novo conceito estratégico’ da organização, é patente a similaridade entre as propostas em estudo e a agenda internacional dos Estados Unidos – o que, a bem da verdade, não constitui propriamente surpresa (Resenha Estratégica, 15/09/2010).”

Tais considerações vêm à tona novamente, diante do artigo assinado pelo secretário-geral da OTAN, o norueguês Jens Stoltenberg, com o sugestivo título “OTAN deve combater as mudanças climáticas”. No texto, originalmente publicado no jornal alemão Die Welt de 27 de setembro (disponível em inglês no sítio da organização), ele fala da “responsabilidade de enfrentar a ameaça que as mudanças climáticas representam para a nossa segurança compartilhada”.

Segundo Stoltenberg,

as mudanças climáticas ameaçam a nossa segurança. Então, a OTAN deve fazer mais para entender plenamente e integrar as mudanças climáticas em todos os aspectos do nosso trabalho, desde o nosso planejamento militar até à maneira como exercitamos e treinamos as nossas forças armadas. (…) A OTAN também deve estar preparada para reagir a desastres relacionados ao clima, assim como fizemos durante a crise da Covid-19. (…)

As mudanças climáticas estão tornando o mundo mais perigoso. A tarefa da OTAN é preservar a paz e manter-nos seguros. Então, para cumprir a nossa principal responsabilidade, a OTAN deve ajudar a limitar as mudanças climáticas, para a nossa segurança atual e para a segurança das futuras gerações.

Se a menção à “segurança das futuras gerações” fez o leitor recordar o celebrado conceito de “desenvolvimento sustentável”, não terá sido coincidência. O primeiro cargo público de Stoltenberg foi, precisamente, o de ministro do Meio Ambiente, em 1990-91, na terceira gestão da primeira-ministra Gro-Harlem Brundtland, ex-coordenadora da Comissão Brundtland das Nações Unidas, cujo relatório Nosso futuro comum (1987) lançou o conceito e as diretrizes da agenda ambiental para as décadas seguintes.

No atual contexto global, que combina o desespero do Establishment dos EUA com a inexorável deterioração da sua posição hegemônica, a agenda da “financeirização” das questões ambientais e a consequente histeria internacional referente à situação da Amazônia, os brasileiros devem colocar as barbas de molho e prestar a devida atenção às prescientes advertências do ex-ministro Jobim.

Uma demonstração ostensiva de que tais preocupações não são exageradas foi a afirmativa do candidato do Partido Democrata às eleições presidenciais de novembro, Joe Biden, proferidas no primeiro debate com o presidente Donald Trump, em 29 de setembro:

As florestas tropicais do Brasil estão sendo destruídas. Mais carbono é absorvido naquela floresta do que é emitido pelos Estados Unidos. Vou garantir que vários países se juntem e digam [ao Brasil]: ‘Aqui estão US$ 20 bilhões. Parem de destruir a floresta e, se não fizerem isso, vocês terão consequências econômicas significativas.’ (Valor Econômico, 30/09/2020.)

Como se sabe, Biden e sua companheira de chapa, senadora Kamala Harris, estão totalmente alinhados com a visão neomalthusiana da “Grande Retomada” (Great Restart) proposta pelas elites econômicas globais reunidas no Fórum Econômico Mundial, na qual a temática ambiental será um elemento crucial, com a chamada “Retomada Verde” (Green Restart).

E vale recordar também as palavras do general estadunidense Patrick Hughes, então diretor da Defense Intelligence Agency (DIA), em uma palestra no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), em 1998, na qual afirmou explicitamente que uma das hipóteses de conflito do Pentágono para as décadas seguintes seria uma intervenção na Amazônia brasileira, para evitar “danos ambientais” que ameaçassem os interesses dos EUA (O Globo, 15/04/1998).

Nesse cenário, reiteramos que o Brasil não pode adotar uma posição defensiva de “apaziguamento” frente a uma investida internacional que mal consegue disfarçar o seu cunho neocolonialista, e para a qual os fatos reais sobre a situação ambiental brasileira valem incomparavelmente menos do que a narrativa catastrofista já consolidada em âmbito internacional pela estrutura de poder mundial que controla o aparato ambientalista-indigenista.

Ademais, é um erro palmar supor que o país-líder da OTAN poderá atuar como contrapeso para a ofensiva – até porque é um dos seus polos.

Assim, é imperativo que o País considere os seus interesses de defesa em um âmbito maior, incluindo, possivelmente, uma articulação com parceiros relevantes do grupo BRICS, às voltas com problemas análogos.

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