A respeito de se reescrever a História

Luis Edmundo Nava Lara*

O artigo de Geraldo Luís Lino sobre o atual empenho das potências hegemônicas e alguns aliados, para reescrever a história da II Guerra Mundial (“A quem interessa reescrever a história da II Guerra Mundial?”) me fez refletir sobre este fenômeno, que já vem de algum tempo. Desde que Hollywood deixou de fazer cinema, se quer refazer a História e vale refletir sobre o quanto esta História estaria repetindo-se nos nossos dias.

Transportemo-nos a 1939, ao dia 26 de setembro. Para a Alemanha e para o mundo, era um dia de grande ansiedade. O que Adolf Hitler dirá sobre a Checoslováquia? Para a Alemanha nazista – cuidado, não digo apenas Alemanha, refiro-me à Alemanha nazista –, a Checoslováquia era um Estado bárbaro, terrorista, que havia submetido à tortura os habitantes de origem alemã dos Sudetos. Hitler era um perfeito imbecil – embora a perfeição seja impossível –, pois se houve um lugar onde Mozart teve a liberdade para compor, foi na “bárbara” Praga, belíssima cidade que amo mais que à própria Viena. Neste pequeno parágrafo, temos nada menos que as justificativas hoje empregadas para destruir Estados. Não foram essas as acusações contra a Líbia de Muamar Kadafi, contra a Iugoslávia de Milosevic, contra o Iraque de Saddam Hussein, contra a Síria de Assad? Se está reescrevendo a História ou ela está sendo repetida deliberadamente?

O que disse Hitler, em seu discurso daquele dia? Simplesmente, que, em 1º de outubro, tomaria os Sudetos à força; as concessões haviam terminado.

Em seguida ao discurso, o premier britânico Neville Chamberlain e seu colega francês Édouard Daladier correram às pressas para apaziguar o Führer, sem que lograssem, em 29 de setembro, arrancar-lhe uma assinatura com a qual se comprometesse a não atacar a Checoslováquia. Mas o restante da Checoslováquia não lhes interessava. As terras que cediam a Hitler abarcavam todas as fortificações do país, e invadi-lo não requereria da máquina bélica nazista um esforço demasiado; em troca, receberiam um Estado industrializado, um dos mais fortes da Europa – vale recordar o nome das indústrias Skoda.

Por sua vez, o governo polonês – tampouco, digo Polônia – sustenta, hoje, que tanto a Alemanha de Hitler como a União Soviética de Stálin foram as responsáveis pela deflagração da II Guerra Mundial. Preconceituosa invenção, pois não tem nada de embasamento histórico: é simplesmente hipocrisia.

“Minha tarefa é dura. Desde o começo das dificuldades pelas quais atravessamos, não deixei um só dia de trabalhar com todas as minhas forças para a salvaguarda da paz e dos interesses vitais da França. Amanhã, continuarei esse esforço, com o pensamento de que estou de pleno acordo com toda a nação.” Isto foi dito por Daladier, em seu discurso pelo rádio de 29 de setembro, como nos relata Henry Noguéres, em seu livro Munich: la farsa de una paz.

No dia seguinte, foi a vez de Chamberlain: “Quando volte [à Grã-Bretanha], espero poder dizer então, como Hotspur, em Henrique IV: ‘Em meio a esses espinhos – o perigo –, colhemos esta flor, a segurança.”

O diplomata checo Jan Mazaryk advertiu os negociadores franceses e britânicos: “Se tiverem sacrificado meu país para salvar a paz do mundo, eu serei o primeiro a dar-lhes a minha aprovação. Se não… senhores, que Deus tenha piedade de suas almas. O presidente da Checoslováquia, [Eduard] Benes, pediu encarecidamente que não seja feito nada em Munique, sem que a Checoslováquia possa ser ouvida.”

Hitler, por sua vez, como relata o chanceler italiano, conde Galeazzo Ciano, dizia a Mussolini: “Por outro lado, chegará um dia em que nós, unidos, deveremos bater-nos contra a França e a Inglaterra. Portanto, é bom que esta eventualidade – a tomada da Checoslováquia – se realize quando o Duce e eu mesmo ainda estamos jovens e cheios de vigor, e nos encontramos à frente dos nossos dois países.”

Em 29 de setembro, se realiza a conferência dos “Quatro Grandes” – França, Grã-Bretanha, Alemanha e Itália. Nenhum representante da URSS. Simplesmente, foi mantida de lado, sem se importarem com o fato de que os soviéticos eram os únicos dispostos a apoiar militarmente a Checoslováquia. Apesar dos esforços russos para frear Hitler, não “apaziguá-lo”, eles sempre foram ignorados. A URSS reclamava da França e da Grã-Bretanha, que não haviam feito nada para conseguir acordos com a Polônia e a Romênia, para que as tropas soviéticas pudessem dirigir-se à Checoslováquia. Sem tais acordos, a ajuda militar seria impossível e, se tentassem passar à força, os soviéticos seriam vistos como agressores. Moscou já havia conseguido a permissão de Bucareste para que seus aviões cruzassem o espaço aéreo romeno, e teria sido possível estender a permissão para a passagem de tropas, se Paris se empenhasse nisto – mas não o fez. Conseguir a autorização da Polônia era impossível: Varsóvia já havia traçado as suas linhas às escuras e não permitiria que qualquer intervenção soviética as bloqueasse.

Para a conferência, Hitler recebeu uma proposta italiana para se chegar a um acordo no mesmo dia. Em realidade, a proposta havia sido elaborada pela parte alemã e transmitida ao Duce para que, por sua vez, a oferecesse às outras potências. Não havia nada de novo nela, exceto que era apresentada pelo ditador italiano: em essência, pedia a evacuação da região dos Sudetos a partir de 1º de outubro, e que a Grã-Bretanha e a França garantissem que estaria concluída até o dia 10 daquele mês.

Este último ponto fez com que Chamberlain descobrisse, com assombro, que teria que notificar os checoslovacos, e ali não havia nenhum representante deles. Hitler disse, simplesmente, que não tinha nada a ver com eles, mas que podiam convidá-los – e que ficassem reunidos em uma sala separada. Com esta comovedora indulgência, franceses e britânicos mandaram buscar Vojtech Mastny e Mazaryk – e, efetivamente, os encerraram numa sala, onde iam comunicando-lhes os desdobramentos da conferência.

A paz estava salva. Chamberlain e Daladier foram recebidos em seus países como verdadeiros heróis, com manifestações multitudinárias, propostas para que lhes erigissem monumentos e outras bajulações. Ao descer em Londres, Chamberlain proferiu a frase que se tornaria famosa: “Eu penso que é a paz para o nosso tempo.”

Como se pode imaginar, esse entusiasmo não era compartilhado por todos. Para Moscou, se havia garantido a guerra. O Vaticano, a quem tanto e de forma tão mentirosa se lhes atribui simpatias com Hitler, estava consternado pelo tratamento à Checoslováquia. O papa Pio XII estava assombrado com o fato de que a Checoslováquia não havia sido levada em conta para nada – bem, entregaram-lhe às pressas uma cópia do acordo acertado em Munique. Hitler havia ludibriado a França e a Grã-Bretanha. A mensagem papal ao governo italiano foi: “Essa paz foi construída com subterfúgios e às expensas de um débil que sequer foi consultado! É uma paz injusta e a cujas negociações não foram convidadas todas as partes. Vocês podem dizer isto, de minha parte, ao governo italiano.”

Em 30 de setembro, data luminosa e cheia de júbilo pela paz naqueles tempos, pouco depois das 23h00, a Polônia enviou um ultimato a Praga, com vencimento em 12 horas: os territórios checos habitados por uma suposta maioria polonesa (na região de Teschen, na Silésia) teriam que ser cedidos à Polônia, além de territórios que esta considerasse convenientes. Os abutres começavam a voar em torno do cadáver. A Polônia foi o primeiro. Quatro dias antes, Moscou havia advertido Varsóvia que, se a Polônia atacasse a Checoslováquia, o pacto de não-agressão soviético-polonês estaria morto. Isto não importou em nada ao chanceler Josef Beck, e colocou à prova o acordo das quatro potências. Que garantias havia para a Checoslováquia? Nenhuma, e o governo polonês o sabia. Em 1º de outubro, ao mesmo tempo em que as tropas alemãs iniciavam a ocupação dos Sudetos, as polonesas ocupavam a Silésia. O grande acordo de Munique vinha abaixo e a euforia se transformava em desconcerto e estupor.

Quando o atual governo polonês proclama que tanto a Alemanha como a URSS são responsáveis pela II Guerra Mundial, isto não passa de hipocrisia. A História se converte, em demasiadas ocasiões, em um instrumento para que um certo país se converta em vítima, mas com dignidade, ou em vencedor orgulhoso; mas a História não busca mais que a verdade. E, como diz um ditado brasileiro, decerto, muito preciso: a verdadeira inimiga da verdade não é a mentira, mas a hipocrisia.

O que nos resta de tudo isso? O desprezo absoluto pelo direito internacional. A violação de pactos, acordos e tratados foi generalizada. Em Nuremberg, observou-se que cerca de 70 deles haviam sido violados. Isto é grave. E, agora, encontramo-nos em uma situação similar, na qual nenhum tratado é digno de respeito. Este é o problema que deveria realmente preocupar o Parlamento Europeu e os europarlamentares poloneses, pois a conversão do direito de um Estado específico em direito internacional, a ser obedecido por todo o mundo, é algo muito grave para a civilização.

O Tratado de Versalhes foi a verdadeira origem da II Guerra Mundial. Após a queda do Império Austro-Húngaro, voltaram ao concerto das nações países como a Checoslováquia e a Hungria, criando problemas adicionais, como a presença de cidadãos alemães nos Sudetos, que, embora numerosos, não eram maioria em toda a região. Quanto à presença polonesa na Silésia, região posteriormente convertida na joia da coroa nazista, também era questionável que pudesse ser considerada majoritária.

Hoje, algo parecido ocorre com os curdos. Fala-se de um “Curdistão”, em uma região em que muitas vezes não existe um único curdo e, em outros lugares, na melhor das hipóteses, há curdos que não são maioria, nem compartilham a mesma religião ou o mesmo idioma entre eles. Somente falta dizer que o mundo atual não é o da II Guerra Mundial, nem sequer o da Guerra Fria.

* O autor é membro do conselho editorial da Capax Dei Editora e correspondente da Resenha Estratégica na Cidade do México.

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