A quem interessa reescrever a história da II Guerra Mundial?

“Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado.”
(George Orwell, 1984.)

Desde o ano passado, autoridades de países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e políticos da União Europeia (UE) têm se empenhado em mudar o entendimento aceito sobre a II Guerra Mundial (1939-1945), em uma insidiosa tentativa de corresponsabilizar a União Soviética (URSS) de Josef Stálin pelo conflito, colocando-a em pé de igualdade com a Alemanha nazista de Adolf Hitler. A intenção é clara: denegrir a Federação Russa, considerada herdeira da URSS, como a potência que, juntamente com a China, encabeça o esforço de construção de uma nova ordem mundial cooperativa e não hegemônica, em tudo contrária à agenda hegemônica encarnada nos EUA e na OTAN. Para tanto, nada melhor que aplicar a presciente observação de George Orwell sobre a manipulação permanente dos fatos históricos em favor de uma estratégia de dominação, função exercida pelo Ministério da Verdade da Oceania, na sua obra-prima de 1949, leitura mais atual do que nunca. Não por acaso, o núcleo da Oceania era constituído pelo Império Britânico e a América, em aliança provisória com a Eurásia (resto da Europa e Rússia) para uma guerra contra a Lestásia (China, Japão, Coreia e Índia), ou vice-versa.

Em 23 de agosto de 2019, completaram-se 80 anos da assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop entre a URSS e a Alemanha, que assegurou a partição da Polônia entre as duas potências totalitárias, após a invasão alemã de 1º de setembro de 1939, e deu a Stálin 22 meses a mais para preparar-se para a investida nazista sabidamente inevitável. Na ocasião, o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, ressuscitou o infame “Dia da Fita Negra” (Black Ribbon Day), polêmica celebração criada em 2009 pelo Parlamento Europeu, a qual distribuía entre a Alemanha e a URSS a responsabilidade pela eclosão do devastador conflito global. Em seu discurso, Trudeau afirmou que o pacto tinha a intenção de “dividir a Europa Central e Oriental” e preparou o palco para “as espantosas atrocidades que esses regimes cometeriam”. Na sua esteira, acrescentou, “eles roubaram países da sua autonomia, forçaram famílias a deixar seus lares e esfacelaram comunidades, inclusive judeus e ciganos e outras”.

No mês seguinte, em 19 de setembro, por uma ampla maioria de 535 votos contra 66 e 52 abstenções, o Parlamento Europeu aprovou outra resolução revisionista, proposta pela Polônia, ressaltando “que a II Guerra Mundial, a guerra mais devastadora na história da Europa, foi iniciada como um resultado imediato do notório Tratado de Não-Agressão nazista-soviético de 23 de agosto de 1939, também conhecido como Pacto Molotov-Ribbentrop, e seus protocolos secretos, pelos quais dois regimes totalitários que compartilhavam o objetivo da conquista mundial dividiram a Europa em duas zonas de influência”.

Entre uma data e outra, para a celebração dos 80 anos do início do conflito, o governo polonês recusou-se a convidar o presidente russo Vladimir Putin, embora estivessem presentes os chefes de Estado e de governo da agressora original, a Alemanha – respectivamente, o presidente Frank-Walter Steinmeier e a chanceler Angela Merkel. Em um agressivo discurso em Westerplatte, cidade portuária do Báltico onde foram disparados os primeiros tiros da guerra, o presidente polonês Andrzej Duda referiu-se às inócuas tentativas de “apaziguamento” de Hitler pelo Reino Unido e a França e comparou o expansionismo nazista com a atitude atual da Rússia: “Ainda somos confrontados, mesmo na Europa, com o retorno de tendências imperialistas, tentativas de mudar fronteiras pela força, assaltos a outros Estados, tomando suas terras, escravizando cidadãos (New York Times01/09/2019).”

Em janeiro, a mesma desconsideração se repetiu na celebração dos 75 anos da libertação do notório campo de prisioneiros de Auschwitz-Birkenau pelo Exército soviético, em 27 de janeiro de 1945. Outra vez, Putin foi diplomaticamente rechaçado como “persona non grata”, embora tenha participado da quinta edição do Fórum Mundial sobre o Holocausto, em Jerusalém, planejada para coincidir com a data simbólica sobre o campo de extermínio. Em um artigo publicado na revista online Politico (24/01/2020) o premier Mateusz Morawiecki disparou: “Longe de ser uma libertadora, a União Soviética foi uma facilitadora da Alemanha nazista e perpetradora de seus próprios crimes, antes e depois de Auschwitz.”

Em Jerusalém, o vice-presidente estadunidense Mike Pence não fez qualquer menção à nacionalidade dos combatentes que libertaram os prisioneiros restantes no campo de extermínio, limitando-se a observar que “soldados estadunidenses libertaram a Europa da tirania”.

Mas a embaixada dos EUA em Copenhague, a revista alemã Der Spiegel e, de novo, a Politico, foram mais longe, chegando a afirmar que Auschwitz-Birkenau havia sido libertado por militares estadunidenses, sendo obrigadas a se retratarem posteriormente (RT, 27/01/2020).

Em um artigo publicado em 1º de setembro, o renomado historiador canadense Michael Jabara Carley, professor da Universidade de Montreal, criticou duramente as declarações de Trudeau: “É ‘história falsa’ [fake history, no original] politicamente motivada; de fato, é um monte de mentiras (Strategic-Culture Foundation, 01/09/2019).”

No texto, Carley discorre sobre as insistentes tentativas soviéticas, encabeçadas pelo comissário de Assuntos Estrangeiros, Maxim Litvinov, para criar uma frente de oposição às pretensões expansionistas de Hitler com as principais potências europeias e os EUA, todas frustradas. Em suas palavras:

Em cada caso, os EUA, a França e a Grã-Bretanha interromperam promissoras discussões com a URSS. Por que esses governos fariam algo que, em retrospecto, é tão aparentemente incompreensível? Por que o anticomunismo e a sovietofobia, entre as elites governantes estadunidenses, francesas e britânicas, eram motivos mais fortes do que a percepção de perigo da Alemanha nazista. Ao contrário, em grande medida, essas elites eram simpáticas a Hitler. O fascismo era um baluarte montado em defesa do capitalismo, contra a disseminação do comunismo e contra a extensão da influência soviética na Europa. (…)

Deixem-me ser claro. As evidências documentais não deixam dúvidas, o governo soviético ofereceu acordos de segurança coletiva e assistência mútua à França, Grã-Bretanha, Polônia, Romênia, Checoslováquia e até mesmo à Itália fascista, e em todos os casos eles foram rejeitados e, de fato, rechaçados com desprezo no caso da Polônia, a grande sabotadora da segurança coletiva no caminho que levou à guerra em 1939… No outono de 1936, todos os esforços soviéticos em prol da assistência mútua haviam fracassado e a URSS se viu isolada. Ninguém queria aliar-se com Moscou contra a Alemanha nazista; todas as potências europeias acima citadas entabularam negociações com Berlim, para manter o lobo longe das suas portas. Sim, até mesmo a Checoslováquia. A ideia, explícita e implícita, era desviar as ambições de Hitler rumo ao Leste, contra a URSS.

Em um artigo posterior, publicado em 12 de janeiro no sítio da Strategic Culture Foundation, Carley descreve em detalhes as negociações entre a URSS e a Polônia, destacando a atitude oportunista e abertamente pró-Alemanha de Varsóvia, durante a crise da Checoslováquia, que resultou na invasão do país pelas forças de Hitler, após a capitulação franco-britânica em Munique, em setembro de 1938. No ano seguinte, escreve, a Polônia teria tido uma última oportunidade de livrar-se da agressão nazista, mas Varsóvia recusou-se a qualquer acordo envolvendo os soviéticos. Ainda assim, estes insistiram junto à França e à Grã-Bretanha, quase até as vésperas da guerra, em agosto, mas as procrastinações de Paris e Londres, finalmente, levaram Moscou a buscar um entendimento com Berlim, em uma tentativa quase desesperada de Stálin para ganhar tempo para preparar-se para a investida no Leste, já delineada por Hitler em seu livro Minha luta (Mein Kampf), publicado em 1925.

Por sua vez, Putin não ficou inerte diante das provocações. Em uma reunião com chefes de Estado da Comunidade dos Estados Independentes (CEI), em São Petersburgo, em 20 de dezembro, ele listou uma série de documentos históricos reunidos pelo governo russo, para contextualizar a assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, que, mostram os registros, foi o último de uma série de acordos do gênero firmados com a Alemanha nazista. A saber: Polônia (1934); Grã-Bretanha (Acordo Naval de 1935 e acordo Chamberlain-Hitler, em setembro de 1938); França (dezembro de 1938); Lituânia (março de 1939); e Letônia (junho de 1939).

Quatro dias depois, em uma conferência no Ministério da Defesa, em Moscou, Putin elevou o tom das denúncias contra Varsóvia, acusando o embaixador polonês em Berlim em 1938, Josef Lipski, de compartilhar das ideias antissemitas de Hitler, tendo prometido ao Führer erigir-lhe uma estátua em Varsóvia, se levasse adiante os seus planos de expulsar os judeus europeus para a África. A resposta polonesa foi convocar para esclarecimentos o embaixador russo em Varsóvia, Sergei Andreyev, que sustentou as declarações de Putin (RT, 28/12/2019).

Em janeiro, durante o tradicional discurso anual sobre o Estado da Nação, na Assembleia Federal (o Senado do Parlamento russo), Putin anunciou a criação de um vasto arquivo de documentos, fotos e filmes sobre a II Guerra Mundial, que será aberto à consulta geral de quaisquer interessados, russos e estrangeiros. Evidentemente, a iniciativa foi recebida entre os altos círculos do Establishment ocidental como sendo a tentativa própria de Putin de “reescrever a história” do conflito.

O papel da URSS na guerra

Diminuir o papel da União Soviética na II Guerra Mundial tem sido um hobby favorito nas potências ocidentais, desde que a aliança vitoriosa no conflito se converteu na disputa ideológica da Guerra Fria. A tarefa foi facilitada pela hegemonia militar e econômica estadunidense no pós-guerra, a impossibilidade momentânea de acesso aos arquivos soviéticos e a imagem construída pela indústria cinematográfica ocidental, quase invariavelmente apresentando os EUA e, em menor grau, o Reino Unido, como os grandes responsáveis pela vitória contra o nazifascismo.

Além de praticamente ignorarem os enormes sacrifícios feitos pela URSS, graças a Hollywood, as gerações ocidentais do pós-guerra tendem a exagerar largamente a relevância das façanhas militares anglo-americanas, a exemplo do desembarque na Normandia, em junho de 1944 (o celebrado Dia-D), comum e erroneamente apontado como o ponto de inflexão da guerra. Na verdade, incomparavelmente mais relevantes foram as vitórias soviéticas sobre a Wehrmacht, em Stalingrado e Kursk, no ano anterior, que quebraram e reverteram o ímpeto da ofensiva alemã no Leste, além da crucial Operação Bagration, iniciada 16 dias após o Dia-D.

Em meados de 1944, a Wehrmacht tinha 228 divisões no Leste, contra 58 em toda a frente ocidental entre os Bálcãs e o Norte da Itália e a Noruega, sendo apenas 11 na França. Quando os Aliados desembarcaram 175 mil homens na Normandia, em 6 de junho, eles se depararam inicialmente com apenas cerca de 80 mil combatentes alemães. Com os reforços de ambos os lados, em meados de julho, quando os atacantes conseguiram finalmente abrir caminho para o interior da França, estes números atingiram 1,3 milhão contra 380 mil (após seis semanas de combates, foram 120 mil baixas aliadas e 113 mil alemãs, entre mortos, desaparecidos e feridos). Na Operação Bagration, iniciada em 22 de junho, as forças soviéticas alinharam 2,4 milhões de homens contra os 700 mil do ainda poderoso Grupo de Exército Centro alemão, que foi praticamente aniquilado em quase dois meses de combates ferozes, que causaram 450 mil baixas alemãs (mortos, desaparecidos e capturados) e 770 mil soviéticas (180 mil mortos e desaparecidos).

As estimativas de mortes na II Guerra Mundial variam entre 70 milhões e 85 milhões de pessoas, das quais 50-56 milhões decorrentes das operações militares e outras 19-28 milhões como consequência de fome e doenças ocasionadas pela devastação (21-25 milhões de militares e 50-55 milhões de civis). A URSS, com quase 27 milhões de mortes, e a China, com 17 milhões, respondem por quase dois terços do total de militares e civis mortos no conflito. As perdas alemãs somaram 7,3 milhões; as japonesas, 3,1 milhões; as estadunidenses, 420 mil; e as britânicas, 451 mil (embora os indianos tenham perdido 87 mil militares e cerca de 3 milhões de civis, principalmente, devido à fome e doenças).

Apenas em Stalingrado, Kursk e na Operação Bagration, as baixas fatais soviéticas superaram o total combinado das mortes militares e civis anglo-americanas em toda a guerra.

Por outro lado, cerca de 80% do esforço bélico e das baixas sofridas pela Wehrmacht durante a guerra ocorreram na Frente Leste, diante do Exército Vermelho.

Nada disso serve como biombo para as atrocidades cometidas ou ensejadas pelo regime de Stálin, antes mesmo da entrada oficial da URSS na guerra, caso do chamado Massacre de Katyn, quando 22 mil oficiais e intelectuais poloneses foram assassinados pela NKVD, a polícia secreta soviética, em 1940. Ou a insidiosa interrupção do avanço do Exército Vermelho às portas de Varsóvia, enquanto a Wehrmacht suprimia com ferocidade o levante dos patriotas poloneses, em agosto-setembro de 1944, deixando 15 mil militares e mais de 150 mil civis mortos, além de literalmente demolir a cidade. Em ambos os casos, o ditador soviético agiu com calculada e implacável frieza, visando a eliminar uma parcela importante das elites do país que pretendia incorporar futuramente à órbita da URSS.

Não obstante, equiparar exclusivamente a União Soviética à Alemanha nazista, na responsabilidade pela guerra mais sangrenta da História, deixando de lado as contribuições diretas e indiretas de outros governos para o expansionismo de Hitler, não passa de má-fé intelectual combinada com cabotinice política.

Como deixar de lado, por exemplo, as tergiversações e manobras oportunistas britânicas, francesas e polonesas, que pouco fizeram para se opor efetivamente às mais que anunciadas intenções do Führer, ou até as apoiaram sem muito disfarce?

Como ocultar as contribuições cruciais para a construção da máquina política e militar nazista, feitas por bancos e empresas ocidentais, parte das quais, inclusive, mantidas durante a guerra?

Como omitir dos relatos históricos os acordos feitos ao final da guerra, tanto na Alemanha como no Japão, para preservar grande parte das respectivas estruturas de poder que haviam levado os dois países à guerra, com vistas ao iminente confronto com a URSS, arreglos que configuraram as estruturas hegemônicas ainda hoje vigentes (envolvendo, inclusive, a reciclagem de grande parte do butim amealhado por nazistas e japoneses nos países ocupados, no sistema financeiro anglo-americano)?

Embora a II Guerra Mundial tenha terminado há quase 75 anos, a história real do conflito apenas começou a ser devidamente esmiuçada e entendida nas décadas recentes, com o acesso a arquivos e documentos antes inacessíveis, tanto na antiga URSS, como nos países ocidentais, graças a novas gerações de pesquisadores com uma visão menos influenciada pela versão maniqueísta e simplista de uma guerra da civilização contra a barbárie. As recentes tentativas dos establishments da OTAN e da UE, de reforçar essa visão obsoleta e anti-histórica, vão na contramão do arejamento histórico.

Nesse sentido, talvez, a melhor síntese das responsabilidades pela guerra seja a do respeitado historiador inglês A.J.P. Taylor, em seu celebrado (e polêmico) livro As origens da Segunda Guerra Mundial, de 1961: “Retrospectivamente, embora muitos fossem culpados, nenhum foi inocente. A finalidade da atividade política é proporcionar paz e prosperidade, e quanto a isso todos os estadistas falharam, qualquer que fosse a razão.”

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