A pretexto de corrupção, Míriam Leitão ataca Belo Monte

Belo-Monte-invasão

Em sua coluna de 16 de março (“Delcídio esclarece”), no jornal O Globo, a jornalista Míriam Leitão tira uma casquinha na crise política que abala o País e dispara um dos mais estapafúrdios ataques já feitos contra a hidrelétrica. Segundo ela, as recentes delações do senador Delcídio Amaral (sem partido-MS) indicariam que a construção de Belo Monte teria sido motivada exclusivamente pela necessidade de proporcionar grandes propinas aos partidos de sustentação dos governos encabeçados pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Diz ela:

Tudo parece lógico agora. Foram decisões viabilizadas pela corrupção e para se transformarem em dinheiro para campanha. (…) Tudo sempre pareceu esquisito em Belo Monte. O governo ignorou todas as críticas que mostravam que o empreendimento era ruim do ponto de vista econômico, fiscal, ambiental e humano. Um grupo de cientistas do governo preparou um documento mostrando que do ponto de vista climático a usina era um erro. Nada demovia a então chefe da Casa Civil, ex-ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff. O Ibama ficou contra. Na Casa Civil foi feita uma reunião que estabeleceu um prazo para sair a licença. Os técnicos do Ibama assinaram que não concordavam com a licença. Do Palácio do Planalto veio o edito: a licença tinha que sair. Publiquei tudo aqui nesta coluna, várias vezes falando do meu espanto com a forma autoritária com que tudo foi decidido.

O que diz Delcídio: “A propina de Belo Monte serviu como contribuição decisiva para as campanhas eleitorais de 2010 e 2014. O principal agente negociador do consórcio de Belo Monte foi o empreiteiro Flávio Barra da Andrade Gutierrez”. A Andrade Gutierrez fez acordo para falar o que sabe. Poderá informar mais detalhes sobre o caso Belo Monte. (…)

Há muito mais na delação de Delcídio, mas só para ficar em alguns exemplos de como ela ajuda a clarear o que era nebuloso. O que não tinha razão passa a ter. Construir uma hidrelétrica com capacidade para gerar 11 mil megawatts de energia, mas que só vai produzir 4 mil megawatts, na melhor das hipóteses, e que na seca pode chegar a apenas mil, e, para fazê-la, foi preciso passar por cima de tudo. Uma das várias colunas sobre Belo Monte que publiquei dizia: “O espantoso no leilão da hidrelétrica de Belo Monte é que as dúvidas e incertezas estão em todos os pontos”. Pois é, agora não há mais dúvidas.

Na lógica de Leitão, parece simples. De fato, uma megausina cujo custo de construção passou dos R$ 30 bilhões ofereceria inúmeras oportunidades de desvio de verbas e concessão de propinas – como, de resto, qualquer empreendimento de grande porte, envolvendo recursos públicos e/ou privados. O problema é que, com sua diatribe, a jornalista estrela das Organizações Globo tenta ofuscar a responsabilidade maior pela distorção do projeto de Belo Monte, que levou a usina a uma capacidade de geração firme pífia, de pouco mais que um terço da sua potência nominal. Ao atribuir tudo à “corrupção”, ela tenta ocultar a campanha de décadas do aparato ambientalista-indigenista internacional contra os aproveitamentos hidrelétricos no rio Xingu, em particular, e na Amazônia, em geral.

Já em 1989, o chamado Encontro de Altamira, ocorrido em fevereiro daquele ano, reuniu milhares de representantes de centenas de ONGs e de tribos indígenas de dúzias de países, com a finalidade de deflagrar a nascente campanha ambientalista-indigenista no Brasil. Em seu livro Uma demão de verde: os laços entre organizações ambientalistas, governos e grandes negócios, cuja edição em português foi publicada pela Capax Dei Editora (2008), a jornalista canadense Elaine Dewar dedica vários capítulos à organização do evento e à chegada da campanha internacional ao Brasil. Uma das primeiras vitórias da campanha foi a suspensão dos empréstimos do Banco Mundial para projetos de desenvolvimento e infraestrutura na Amazônia, o que obrigou o governo brasileiro a rever os planos de aproveitamento do rio Xingu, restando apenas o projeto da usina de Kararaô, nome depois mudado para Belo Monte, por pressões de organizações indígenas.

Posteriormente, as pressões do aparato intervencionista descrito por Dewar (e sucessivamente denunciadas pelos editores deste sítio) foram bem sucedidas em forçar uma drástica mudança do projeto original da usina, que deveria gerar cerca de 14.000 megawatts, com um reservatório três vezes maior que o atual, de apenas 516 quilômetros quadrados, o qual, se mantido, permitiria uma eficiência bem maior no uso da água ao longo dos ciclos hidrológicos, com uma potência média bastante superior. O resultado da submissão às pressões, realmente, é uma usina caríssima, que, na quarta parte do ano, irá gerar pouco mais que 1.000 megawatts.

Isso para não mencionar os enormes atrasos e prejuízos causados à obra por sucessivas invasões e sabotagens dos canteiros de obras, por indígenas e militantes mobilizados pelo aparato ambientalista-indigenista, além das incontáveis ações movidas pelo Ministério Público Federal (MPF), cujos integrantes parecem ter adotado incondicionalmente a agenda antidesenvolvimentista contrária aos grandes empreendimentos de infraestrutura.

Leitão, colunista estrela d’O Globo, da rádio CBN e da Globo News, é ambientalista por afinidades ideológicas, vínculos familiares e interesses profissionais. Em seus comentários, as questões ambientais são temas frequentes, invariavelmente, abordados sob a ótica “politicamente correta” do catastrofismo, em especial, quando se referem às mudanças climáticas ou aos grandes projetos de infraestrutura. Seu marido, o cientista político e jornalista Sérgio Abranches, é comentarista de “ecopolítica” da CBN, mantém o sítio Ecopolítica e compartilha com ela a ojeriza por grandes empreendimentos, como Belo Monte. E seus patrões, os irmãos Marinho, são notórios apoiadores da agenda ambientalista implementada no Brasil. Um deles, José Roberto, foi presidente da seção brasileira do Fundo Mundial para a Natureza (WWF-Brasil) e ainda hoje integra o seu Conselho Consultivo, além de ter vínculos com outras ONGs ambientalistas.

Porém, não se espera que Leitão ou algum dos seus correligionários “verdes” se refiram a essa outra fonte de corrupção dos processos decisórios nacionais. Infelizmente, poucas têm sido as autoridades que demonstram a coragem política de confrontar o aparato ambientalista-indigenista e seus tentáculos internacionais, cujas ações têm causado ao País prejuízos bem maiores que os contabilizados na presente campanha anticorrupção.

x

Check Also

A “retomada verde” da OTAN

Por Lorenzo Carrasco e Geraldo Luís Lino Desde a implosão da União Soviética e do ...