A ONU e o “desenvolvimento sustentável” pós-2015

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, anunciou, no final de julho, a criação de um grupo de alto nível para elaborar um plano de ação para estabelecer as metas de desenvolvimento sustentável após 2015. O grupo será integrado por um painel internacional de 26 especialistas, sob a coordenação do primeiro-ministro britânico David Cameron, o presidente da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono, e a presidente da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf. A iniciativa foi uma das decisões aprovadas na conferência Rio+20, em junho último.

A data de 2015 se refere ao ano determinado para o cumprimento das chamadas Metas de Desenvolvimento do Milênio (MDM), estabelecidas pela assembléia geral da ONU, em 2000, para a erradicação da pobreza extrema e da fome, redução da mortalidade infantil e de doenças infecciosas, universalização da educação primária e promoção dos direitos das mulheres. Segundo o boletim de imprensa da ONU (31/07/2012), o grupo deverá reunir-se pela primeira vez ao final de setembro e apresentar o seu relatório durante o primeiro semestre de 2013.

Entre os especialistas convidados, está a economista brasileira Vanessa Petrelli Corrêa, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

O relatório a ser elaborado pelo grupo deverá incluir:

– a) recomendações sobre a visão e formato de uma agenda de desenvolvimento pós-2015, que ajude a responder aos desafios globais do século XXI, com base nas MDM e visando à redução da pobreza;

– b) princípios chave para a reformatação da parceria global para o desenvolvimento e o reforço dos mecanismos de responsabilização;

– c) recomendações sobre como construir e sustentar um amplo consenso político sobre uma agenda de desenvolvimento pós-2015, que seja ambiciosa, mas atingível, estabelecida em torno das três dimensões do crescimento econômico, igualdade social e sustentabilidade ambiental, e levando em conta os desafios particulares dos países em situações de conflito e pós-conflito.

Em paralelo com a iniciativa, em 9 de agosto, o secretário-geral anunciou a criação da Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável (Sustainable Development Solutions Network), uma rede internacional independente de centros de pesquisa, universidades e instituições técnicas, que “trabalhará com as partes interessadas, inclusive empresariais, a sociedade civil, agências da ONU e outras organizações internacionais, para identificar e compartilhar os melhores caminhos para se atingir o desenvolvimento sustentável”. O projeto será coordenado pelo economista estadunidense Jeffrey Sachs, diretor do Instituto da Terra da Universidade Columbia e assessor especial de Ban Ki-moon para as MDM, e deverá atuar em coordenação com o painel de especialistas criado dias antes.

“Os objetivos pós-2015 ajudarão o mundo a enfocar os desafios vitais do desenvolvimento sustentável e a Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável será uma forma inovadora de agregar experiência, nos campi, universidades, centros de pesquisa científica e divisões tecnológicas empresariais, em todo o mundo”, disse o secretário-geral.

O magnata Ted Turner, fundador da rede CNN e da Fundação das Nações Unidas, será um dos coordenadores do programa. “Nós precisamos de soluções de desenvolvimento baseadas na ciência, e precisamos delas já. O futuro do planeta e de seus habitantes está em jogo. A nova Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável tem o objetivo de promover ações inteligentes e efetivas, antes que seja tarde demais”, disse ele.

Por si só, a presença de Sachs e Turner, ambos integrantes do alto escalão do aparato ambientalista internacional, na coordenação do novo programa da ONU, já sugere uma forte inclinação da pauta de trabalhos na direção das diretrizes ambientalistas, comumente voltadas para restringir o desenvolvimento dos países que ainda não atingiram o primeiro escalão da modernização econômica. O primeiro, que ganhou uma duvidosa notoriedade na década de 1990, como assessor dos governos da Bolívia e de ex-membros da URSS para a aplicação das políticas ultraliberais que devastaram as economias daqueles países, é um entusiasmado propagandista da agenda da “descarbonização” da economia mundial. Em um artigo divulgado pelo Project Syndicate, em 27 de julho último (“O nosso verão de verdade no clima”), ele faz coro com os alarmistas que têm atribuído ao aquecimento global supostamente causado pelo homem os extremos meteorológicos observados no Hemisfério Norte:

As evidências são sólidas e se acumulam rapidamente. A Humanidade está se colocando em um perigo crescente, por meio das mudanças climáticas induzidas pelo homem. Como uma comunidade global, precisaremos mover-nos rápida e resolutamente, no próximo quarto de século, de uma economia baseada em combustíveis fósseis para novas tecnologias energéticas de baixo carbono e de ponta. O público global está pronto para ouvir esta mensagem e atuar com base nela. Porém, os políticos em toda parte são tímidos, especialmente, porque as companhias de petróleo e carvão são tão poderosas politicamente. O bem-estar e, até mesmo, a sobrevivência humana dependerão de que as evidências científicas e o know-how tecnológico triunfem sobre a cobiça míope, a timidez política e a corrente contínua de propaganda anticientífica corporativa.

Diante de semelhante manifestação de desonestidade intelectual, por parte do principal coordenador do programa da ONU, é um tanto difícil esperar-se que a iniciativa possa produzir algum resultado realmente útil para a grande maioria da Humanidade.

Por sua vez, Turner é um ativo financiador do ambientalismo, tendo criado a Fundação Turner, em 1990, para apoiar as causas ambientalistas e o controle demográfico. Além disto, participa na direção de várias grandes ONGs, como o Environmental Defense Fund (EDF). Em uma entrevista ao sítio Grist.org, em dezembro de 2008, ele explicitou ideias semelhantes:

(…) Eu acho que a situação das mudanças climáticas globais é uma questão de vida ou morte para nós, que nós temos que resolver já. Mesmo se [o conhecimento científico sobre] o aquecimento global estiver errado por algum motivo, pelo menos, nós teremos um ar limpo com isto. E [com uma economia de energia limpa] daremos emprego a milhões. Todas as pessoas empregadas, que ficarão na rua quando a indústria automobilística quebrar, poderão achar bons empregos com altos salários, construindo moinhos de vento [windmills, no original – gll]. Estaremos passando, de subsidiar uma indústria de chaminés, que está morrendo, para a energia elétrica limpa, renovável e produzida localmente. Será fantástico para a nossa economia.

Como se percebe, se Sachs e Turner conseguirem imprimir suas ideias e propostas delirantes na pauta do programa, a iniciativa tende a resultar em propostas para uma agenda que representará qualquer coisa, menos desenvolvimento.

Resta esperar que os trabalhos da comissão de especialistas sejam mais realistas e orientados para as necessidades concretas da Humanidade. Por exemplo, a urgente necessidade de uma reforma no sistema financeiro internacional, que, em sua forma atual, constitui, de longe, o maior fator de insustentabilidade (sem aspas) da economia mundial, apesar de ser comumente ignorado pelas pautas ambientalistas. Outras urgências seriam o abandono da insana agenda da “descarbonização” e da ilusão de que seja possível abastecer sociedades urbanizadas e industrializadas com fontes energéticas de baixa eficiência, como a solar, eólica e outras favoritas dos “verdes”. Em vez disto, é necessário que sejam apoiadas e ampliadas as pesquisas sobre novas fontes energéticas, como reatores nucleares avançados (por exemplo, viabilizando o uso do tório como combustível), as reações nucleares de baixa energia (a anteriormente chamada “fusão a frio”), a energia do vácuo quântico (ou zero-point energy, em inglês) e outras. Juntamente com um aproveitamento mais eficiente dos combustíveis fósseis, esses são atalhos do caminho que leva a um futuro promissor para a Humanidade, e não o dos moinhos de vento propostos pelos paladinos do fundamentalismo ambientalista.

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