A "guerra das dívidas"

Na medida em que a crise econômico-financeira global se aprofunda, aumenta a percepção de que, em algum momento, os pressupostos básicos do sistema financeiro existente, cuja disfuncionalidade está escancarada para quem quiser ver, terão que ser revistos a sério, a despeito das pressões dos interesses estabelecidos na defesa dos seus “privilégios” acumulados ao longo de décadas, e até séculos. Entre eles, destacam-se os pilares centrais das finanças globais – o controle da emissão de moeda e crédito por bancos centrais sob controle ou forte influência do cartel bancário e financeiro internacional e o financiamento dos governos nacionais pelo endividamento junto a este aparato financeiro. Até há pouco restritas a debates entre os críticos do sistema, principalmente, na blogosfera, as discussões sobre alternativas reais a ele já começam a ganhar foros institucionais. Um exemplo é a recente proposta de pesquisadores do Fundo Monetário Internacional (FMI), para a adoção de uma versão atualizada do chamado Plano de Chicago, da década de 1930, proposto para podar os excessos da banca privada, separando as funções de emissão de moeda e crédito, com a exigência de que os bancos retivessem como reserva 100% dos seus depósitos.

De fato, mais e mais comentaristas, muitos deles profundos conhecedores das entranhas e do funcionamento do sistema, vinculam abertamente a magnitude e as manifestações socioeconômicas da crise à avassaladora hegemonia da financeirização da economia mundial, nas últimas décadas. Em um dramático artigo divulgado pela agência Inter Press Service (“Apocalipse da dívida e a sociedade oca”, 4/12/2012), o historiador Steve Fraser, da Universidade Columbia de Nova York, descreve os avanços paralelos da financeirização e da desindustrialização nos EUA:

(…) O “apocalipse da dívida” é, meramente, a última prestação de uma trágica história de 40 anos da espoliação do povo trabalhador estadunidense. Pensem nele como a arqueologia do declínio ou uma história de dois mundos. Enquanto uma longa geração de políticas de austeridade esvaziava o interior do país, os matemáticos, operadores e magos financeiros de Wall Street engoliam cada vez mais os recursos da nação. Foi outra Grande Migração – só que, em vez de pessoas, trilhões de dólares foram sugados da América industrial e transformados em “instrumentos financeiros” e novas e exóticas formas de riqueza. Aqui, se os estadunidenses de macacão foram as vítimas peculiares, então, a alta finança foi o que os consumiu. Agora, ela promete consumir o restante de nós.

Adiante, em dois parágrafos particularmente contundentes, Fraser demonstra que a escolha da palavra “apocalipse” para intitular o texto não foi exagero retórico:

Pela primeira vez na história estadunidense, caiu a expectativa de vida das pessoas brancas, homens e mulheres. Em particular, a expectativa de vida das menos educadas caiu cerca de quatro anos, desde 1990… Inusitadas nos EUA, esses números se aproximam do catastrófico declínio experimentado pelos homens russos nos anos desesperados que se seguiram ao colapso da URSS… Quaisquer que seja a combinação de fatores que produziu estas estatísticas sociais, ela pode ser a indicação mais crua de uma sociedade nos estertores da anorexia econômica. (…)

(…) Agora, existem mais pessoas distribuindo fichas em cassinos do que trabalhando com tornos mecânicos, e quase três vezes mais guardas de segurança do que operadores de máquinas.

Outro insider do sistema e velho conhecido dos leitores deste boletim, o ex-subsecretário do Tesouro Paul Craig Roberts, volta a colocar o dedo na ferida, em sua coluna de 1º. de dezembro (“A nossa economia e a nossa moeda em colapso”):

A economia dos EUA tem duas doenças graves, e nenhuma delas é um gasto excessivo com o bem-estar social.

Uma é a transferência (offshoring) dos empregos da classe média estadunidense, tanto nas manufaturas como nos serviços de engenharia, pesquisa, design e tecnologia de informação, postos que, anteriormente, eram preenchidos por graduados das universidades estadunidenses, mas, hoje, são enviados para o exterior ou ocupados por estrangeiros trazidos ao país com vistos temporários e dois terços dos salários.

A outra doença é a desregulamentação, especialmente, a desregulamentação financeira, que causou a crise financeira em curso e criou bancos muito grandes para quebrar, o que tem impedido o capitalismo de funcionar e fechar corporações insolventes.

Diante do rápido crescimento do coro dos críticos dos seus “privilégios”, a alta finança globalizada está consciente de que enfrenta uma ameaça existencial e, por isso, está engajada em um forte contra-ataque em várias frentes.

Uma delas é a da propaganda, com a qual conta com o apoio fundamental da chamada grande mídia, para manter em perfil baixo quaisquer críticas mais contundentes oriundas de personalidades públicas mais graduadas ou exemplos de desafios concretos à hegemonia financeira. Não por acaso, quase não se veem reportagens ou artigos de fundo sobre o bem sucedido caso da Islândia, que se recusou a repassar à população os prejuízos acarretados pelos excessos dos banqueiros privados e está se recuperando da crise de 2007-2008, bem mais rapidamente que a grande maioria dos países maiores, cujos governantes não demonstram a mesma determinação ou vontade política para confrontar os banqueiros internacionais.

Outra frente, institucional, tem como objetivo desencorajar novos eventuais desafios e punir os atrevidos que já tenham ousado fazê-lo. É o caso da Argentina, submetida a uma humilhação sem precedentes na História recente, como retribuição pela audácia de ter decretado uma moratória de sua dívida externa e forçado uma reestruturação dos seus termos, na década passada. No momento, o país austral se vê ameaçado por processos movidos por grupos como o NML Capital, um dos muitos fundos internacionais especializados em especulação com títulos de dívidas vencidas de devedores duvidosos, apropriadamente, chamados “fundos abutre” (vulture funds, em inglês). Em 2 de outubro, a fragata-escola ARA Libertad, da Marinha Argentina, foi apreendida no porto de Tema, em Gana, pelas autoridades locais, agindo a pedido do NML Capital, como garantia do pagamento dos 300 milhões de dólares em títulos que o fundo tem em seu poder. Como seria de se esperar de uma ex-colônia britânica e integrante da Comunidade Britânica de Nações, o governo ganês recusou o argumento argentino de que navios de guerra estão isentos de tais sanções, obrigando Buenos Aires a recorrer ao Tribunal Marítimo Internacional, que só deverá se pronunciar em meados de dezembro.

Em paralelo, em 23 de novembro, um juiz federal de Nova York decidiu que a Argentina depositasse em custódia 1,33 bilhão de dólares, alegadamente devidos aos “fundos abutre”, até 15 de dezembro. Alegando o risco de que as repercussões da medida atingissem o próprio sistema financeiro, o governo argentino recorreu ao Tribunal de Recursos, que a suspendeu, cinco dias depois, dando um novo prazo para a apresentação dos argumentos, até o final de fevereiro próximo (Carta Capital, 5/12/2012).

A apreensão do navio recorda os velhos métodos britânicos de cobrança, utilizando o poderio da Royal Navy, às vezes, com o apoio de outras potências coloniais, como ocorreu com o bloqueio naval imposto à Venezuela em 1902, para forçar o país a pagar dívidas em atraso. Desafortunadamente para a Argentina, até mesmo a presente debilidade militar do país, aprofundada pelas equivocadas políticas revanchistas do casal Kirchner, limita as opções de resposta a semelhante ultraje.

Por ironia, a inviabilidade do pagamento das dívidas contraídas pelos governos nacionais sob as regras vigentes da “globalização” já começa a ser admitida até mesmo por estadistas do calibre da chanceler alemã Angela Merkel, considerada a férrea guardiã da ortodoxia monetária e fiscal na União Europeia (UE). Em entrevista ao jornal Bild am Sonntag de 2 de dezembro, Merkel admitiu que os credores da dívida grega poderão ter que encarar a possibilidade de uma redução no valor dos seus títulos (um “corte de cabelo”, no jargão financeiro), embora não antes de que o programa de austeridade em vigor seja cumprido. Outro alto funcionário alemão a admitir tal possibilidade foi o igualmente rigoroso ministro da Fazenda Wolfgang Schauble.

Em uma terceira frente, para reforçar as políticas de business as usual, o secretário do Tesouro Timothy Geithner está propondo nada menos que a eliminação sumária do teto de endividamento do governo federal dos EUA, que, atualmente, precisa ser negociado periodicamente com o Congresso. Apesar de ter importância relativa, já que o Congresso tem aprovado sistematicamente as elevações dos limites, a medida daria ao governo estadunidense uma capacidade automática para contrair novas dívidas, o que facilitaria, inclusive, novas rodadas de injeções de liquidez no sistema financeiro, além das três já aprovadas.

Igualmente, em Washington, uma coorte de executivos-chefes de empresas financeiras tem se revezado no Congresso, para fazer lobby para direcionar para os setores de saúde e previdência os cortes orçamentários que estão sendo negociados com o governo federal. Na quinta-feira 29 de novembro, o senador Bernie Sanders, de Vermont, acusou esses superlobistas de promover uma nova “luta de classes” no país:

Eu acho, literalmente, além da compreensão, que tenhamos esses sujeitos de Wall Street, que receberam resgates colossais do povo do nosso país – das famílias trabalhadoras deste país -, por causa da cobiça, da inconsequência e de comportamento ilegal de Wall Street, que nos levou a essa recessão e, agora, essas mesmas pessoas estejam vindo aqui ao Congresso para dar aulas a nós e ao povo estadunidense, sobre como temos que cortar a Seguridade Social, o Medicare e o Medicaid, enquanto eles desfrutam de enormes salários e benefícios de aposentadoria (Common Dreams.org, 30/11/2012).

Um dos alvos específicos de Sanders foi o executive-chefe do Goldman Sachs, Llyod Blankfein, que tem declarado na mídia que a população estadunidense precisa “reduzir as expectativas” quanto aos programas de seguridade social e saúde pública.

E, para fechar o cerco contra as pressões reformistas, a oligarquia financeira emplacou mais um representante do banco símbolo da “globalização”, o Goldman Sachs, à frente de uma instituição chave do sistema, com a nomeação do canadense Mark Carney para presidir o Banco da Inglaterra. Carney, que dirigiu o Banco do Canadá nos últimos quatro anos, passou 13 anos no Goldman Sachs, tendo sido um dos mentores da estratégia do banco durante a crise financeira russa, em 1998, quando, ao mesmo tempo em que assessorava o governo russo, a casa apostava contra a capacidade do país para pagar suas dívidas.

Com a nomeação de Carney, o GS aumenta a constelação de ex-executivos seus instalada em altos postos financeiros e políticos europeus, que pode ser apreciada na lista seguinte:

– Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE);

– Mario Monti, primeiro-ministro da Itália;

– Lucas Papademos, primeiro-ministro da Grécia;

– Petros Christodoulou, chefe da agência de administração da dívida grega;

– Antonio Borges, ex-chefe do Departamento da Europa do Fundo Monetário Internacional (FMI ) (deixou o cargo na semana passada);

– Peter Sutherland, ex-procurador-geral da Irlanda, teve um papel importante na negociação do pacote de resgate ao país.

Como se percebe, a extensão da contraofensiva da alta finança é proporcional aos estragos provocados na economia global. Resta ver como reagirão os governos nacionais.

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