A falta que faz um projeto nacional

Dos mais oportunos o artigo do general Eduardo Villas Bôas, publicado no “Estadão” de 10 de julho. Curto e incisivo, começando pelo título – “Carecemos de um projeto nacional” -, o ex-comandante do Exército usa apenas 438 palavras para definir o grande dilema do Brasil, que se torna ainda mais premente para a orientação do País para o período pós-pandemia, no qual a palavra de ordem terá que ser uma reconstrução inclusiva e solidária.

Em um momento em que os responsáveis pelo comando da economia insistem na desgastada tecla das “reformas”, com amplo apoio das lideranças políticas e empresariais, do setor financeiro e da grande mídia, em meio às ruidosas e raivosas divisões da sociedade em grupos sectários e incapazes de diálogo, a mensagem de Villas Bôas é de suma relevância. Ainda mais, considerando-se o seu precário estado físico, depauperado por uma brutal doença degenerativa, condição que ressalta o seu esforço para manifestar uma profunda preocupação com o destino do País.

Na abertura, Villas Bôas define os imensos potenciais brasileiros:

Somos um país com mais de 200 milhões de habitantes, cuja população contém em si própria riquezas geradas desde 1500, decorrentes da miscigenação em que as três raças se mesclaram, cada uma delas aportando características ímpares. A criatividade, a alegria de viver, a tolerância, a adaptabilidade, a resiliência, a religiosidade, o sentido de família, o patriotismo, enfim, esses e outros atributos são como uma vasta produção de frutos, à espera de serem colhidos e colocados na grande cesta da nacionalidade brasileira.

Esse enorme cartel de singularidades vive sobre uma base física que metaforicamente constitui uma arca plena de riquezas, sobre as quais estamos sentados, desconhecendo o conteúdo e tampouco sabendo como abri-la.

E repete a pergunta feita por tantos outros estudiosos e pensadores da trajetória nacional: “O que nos falta para que se produza uma mobilização da vontade e das capacidades no sentido de soberanamente os utilizemos atendendo prioritariamente às necessidades do nosso povo?”

A resposta remete à renúncia a toda e qualquer ideia de um projeto de Nação pelas elites dirigentes da chamada “Nova República” (em especial, a partir de 1990), que atrelaram o Brasil ao comboio exclusivista da “globalização” financeira e seus símbolos “identitários” divisivos, adotados como substitutos de um empenho sinérgico em favor do Bem Comum:

Infelizmente, nossa sociedade se deixou impregnar por esquemas mentais que nos são estranhos, depois de 50 anos em que, a despeito das precariedades, trazíamos conosco um senso de grandeza, aliado a uma ideologia de desenvolvimento e a um sentido de progresso.

Infelizmente, a partir de então – anos oitenta – não atentamos a que nós estávamos deixando fracionar, inicialmente por interesses alheios travestidos de ideologias e, quando elas fracassaram, permitimos que esquemas mentais alheios à nossa natureza viessem a nos dividir ainda mais, a ponto de o ser humano não mais fosse valorizado como tal, passando a que sua essência, para ser reconhecida, dependesse da militância em prol de um desses grupos onde se abrigam.

Caímos num fosso, em cujo interior andamos em círculo, progressivamente nos afundando sem dispor de ferramentas que nos tornem possível dele sair, de maneira a que recuperemos a capacidade de vislumbrar o horizonte e nele identificar indicações dos rumos a seguir com vistas no futuro. Em outras palavras, carecemos de um projeto nacional que nos possibilite ter um olhar em direção ao interesse comum, capaz de nos livrar da prevalência do individualismo, do imediatismo e dos interesses grupais ou corporativos.

O seu apelo é direto: “A elaboração de um projeto de nação nos traz uma oportunidade para buscarmos sinergia entre todos que integram a sociedade brasileira e, colocando o interesse coletivo como referência, encontrarmos os caminhos que conduzam à paz e à prosperidade.”

A questão crucial é que uma tal iniciativa não tem qualquer possibilidade de prosperar sem um princípio de mobilização total liderado pelo Estado, algo que passa a anos-luz de distância da agenda monotemática e monocórdia da atual equipe econômica do Governo. Recordem-se os surtos de apoplexia do seu líder, com a mera possibilidade de implementação do Plano Pró-Brasil da Casa Civil da Presidência da República, que poderia vir a ser o embrião do esforço necessário.

Definitivamente, o Brasil não terá condições mínimas de enfrentar as tempestuosas condições do pós-pandemia, com a insistência no “dever de casa” voltado para atrair o apetite dos míticos “investidores”. É preciso recuperar as capacidades creditícias e produtivas do País. Acima de tudo, como ressalta o general Villas Bôas, é preciso recuperar a sinergia de esforços em favor do Bem Comum.

Em essência, não há substituto para um novo projeto nacional de desenvolvimento. A menos que se queira correr o risco de mergulhar o País em um cenário de caos econômico e social verdadeiramente sem precedentes.

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