A falência da Wirecard e a “sociedade sem dinheiro”

A Wirecard AG, empresa de serviços financeiros e pagamentos digitais de Munique, entrou com um pedido de insolvência. Não é mais capaz de honrar as suas obrigações financeiras. Até ontem, era uma das 30 principais empresas alemãs listadas na Bolsa DAX de Frankfurt. Na véspera da insolvência, o valor de suas ações despencou de 100 para 5 euros. Esta é a primeira falência de uma empresa DAX.

“É um escândalo sem precedentes no mundo das finanças”, disse o ministro da Economia alemão Peter Altmaier.

A necessidade de reforma do setor de serviços de pagamento será urgentemente levada ao conhecimento do Conselho Europeu, que está sob a Presidência alemã desde 1° de julho. Apesar de constituir um importante setor financeiro, é tratado como atividade “tecnológica” e, portanto, fora da área bancária, submetida a controles mais rigorosos.

As atividades de algumas filiais da empresa, como a de Londres, foram suspensas. Muitos cidadãos tiveram a desagradável surpresa de ter os seus cartões de crédito gerenciados pela Wirecard temporariamente bloqueados.

Fundada em 2002, antes de dar o grande salto, a empresa ofereceu seus serviços a sítios de apostas, um negócio online em rápido crescimento e que, mais tarde, experimentou uma grande expansão em muitos países, especialmente, na Ásia. Na Alemanha, a Wirecard ganhou o gerenciamento dos sistemas de pagamento eletrônico de grandes empresas comerciais e financeiras, como a gigante de seguros Allianz, a rede de supermercados Aldi e outras. Igualmente, criou um banco, o Wirecard Bank AG, com centenas de milhares de correntistas que usam o seu cartão de débito. Já em 2018 e 2019, certas agências regionais da Baviera suspeitavam do seu envolvimento em operações de lavagem de dinheiro, mas sem qualquer consequência.

A Wirecard é um provedor de serviços de pagamento (PSP), cujos clientes incluem também as bandeiras Visa e Mastercard. Um PSP oferece serviços online a instituições, lojas e comerciantes, para que aceitem pagamentos eletrônicos, principalmente, por cartão de crédito. Normalmente, ele pode se conectar a vários bancos, cartões e sistemas de pagamento. Isto torna o comerciante menos dependente de instituições financeiras e livre da tarefa de estabelecer diretamente esses vínculos, em especial, quando opera em âmbito internacional.

Ainda é cedo para se conhecer totalmente as verdadeiras causas e da falência. Aparentemente, cerca de € 2 bilhões registrados nos ativos da empresa seriam nada mais do que “ar quente”, apesar de corresponderem a cerca de um quarto de todo o balanço societário. Este montante teria sido depositado em dois bancos nas Filipinas, que, no entanto, negam qualquer contato com a Wirecard. Porém, a dívida de € 3,5 bilhões registrada no balanço é verdadeira. Agora, os investigadores alemães acusam os dirigentes da empresa de falsificar volumes de negócios com receitas falsas, para atrair investidores e clientes. Alguns falam em uma “fraude bem elaborada e refinada”. Na Itália, definiríamos toda a questão com termos mais precisos: um grande golpe.

Outra vez, é certo que as agências de controle e supervisão interna e externa falharam miseravelmente. A auditoria da empresa era feita pela conhecida a agência internacional Ernst & Young, que afirma ter sido “enganada” – justificativa um tanto tardia.

Os relatórios do caso se concentraram quase que exclusivamente na auditoria interna, que, apesar de certas dúvidas expressas também em anos anteriores, aprovou as declarações financeiras de 2018. Mas, acima de tudo, falhou o papel de controle das autoridades públicas alemãs: o Corpo de Supervisão dos Auditores (Abschlussprüferaufsichtstelle), uma agência pequena demais, e a Autarquia Federal de Supervisão Financeira (BaFin, na sigla em alemão), equivalente à Consob italiana e à CVM brasileira. De fato, parece que a Wirecard conseguiu desviar as investigações anteriores que manifestaram dúvidas concretas sobre a solidez e a veracidade das suas declarações financeiras.

Em uma audiência no Parlamento alemão (Bundestag), a BaFin revelou uma falha importante no sistema de controle financeiro alemão, uma brecha legislativa que permitiria à Wirecard obter a licença para a criação do seu banco, mas ao mesmo tempo escapar às regras de supervisão bancária, incluindo a obrigação de manter uma reserva de capital para cobrir eventuais prejuízos.

Este caso bastante perturbador recoloca à mesa a urgência da separação dos bancos comerciais dos de investimento. Se a regra existisse, o Wirecard Bank teria sido separado da empresa controladora e sujeito aos controles do sistema bancário. Como resultado, os seus correntistas receberiam garantias automáticas para os depósitos de até € 100 mil.

Isso coloca em pauta a necessidade de se reforçarem as medidas de controle da União Europeia (UE), para superar a resistência e os obstáculos geralmente colocados por países individuais, na supervisão das atividades bancárias e financeiras e na luta contra a sonegação de impostos e a lavagem de dinheiro.

Enquanto isso, também surgiram questões importantes sobre a segurança do sistema de pagamentos via PSP e à proteção e as garantias dos recursos dos cidadãos administrados por esses métodos. Esta não é uma questão trivial. Como em toda parte, inclusive na Itália, há uma tendência a se limitarem os pagamentos em dinheiro e substituí-los pelo uso digital de cartões de crédito online. É preciso uma pausa para se refletir.

É desnecessário dizer que a Wirecard foi uma das principais promotoras da “sociedade sem dinheiro”, a ser totalmente implementada em pouco tempo. A perspectiva pode ser interessante, mas com a condição de que os governos individuais possam garantir que uma repetição do caso Wirecard não volte a ocorrer.

x

Check Also

Mobilização econômica já!

Por Jonathan Tennenbaum, de Berlim Em certas ocasiões, uma nação precisa lançar um plano de ...