A competição EUA-Europa na pesquisa cerebral: qual é o objetivo, mais supercomputadores?

Por Anno Hellenbroich, de Wiesbaden

Em janeiro deste ano, a Comissão Europeia decidiu financiar o maior “centro experimental para desenvolver modelos cerebrais mais detalhados”, de modo a compreender “como o cérebro humano funciona”. O nome da iniciativa é Projeto Cérebro Humano (PCH). Mais de 1 bilhão de euros serão investidos ao longo dos próximos dez anos e mais de 80 institutos de pesquisa europeus deverão colaborar no que pode ser chamado de o maior projeto piloto científico europeu da atualidade.

Em abril, o presidente dos EUA, Barack Obama, anunciou o programa BRAIN Initiative (Iniciativa Cérebro), com um orçamento inicial de 100 milhões de dólares. De acordo com o diário britânico The Guardian (2/04/2013), a estimativa é de que sejam gastos cerca de 3 bilhões de dólares nos próximos dez anos. Todavia, a questão que deve ser colocada diante de tais projetos gigantes é: essa grande pesquisa transatlântica, que pretende entender como “funcionam os nossos cérebros”, poderá, realmente, produzir os resultados pretendidos?

Tenho que começar com uma confissão: não sou especialista no campo da pesquisa cerebral. Porém, dadas as colossais “falhas” dos especialistas nas áreas da pesquisa e modelagem climática e dos ditos “prognósticos” dos especialistas sobre o desenvolvimento da economia global nos últimos anos, talvez, não haja razão para preocupar-me com possíveis equívocos. Contudo, quarenta anos atrás, eu completei o curso de Medicina, que incluía o estudo de Física e Química Experimental básica, Anatomia, Patologia, Histologia e tudo o que era necessário para os estudos clínicos. Mas eu decidi não seguir a carreira médica, pois, assim como muitos dos meus amigos, considerei que as consequências da crise energética da época (o “choque do petróleo” da década de 1970) e da crise da dívida da América Latina impactariam a economia global de tal forma que, em breve, os fundamentos éticos da prática médica seriam drasticamente afetados. No pior caso, o princípio da “triagem” destruiria a ética do Juramento de Hipócrates (“Prescreverei tratamentos para o bem dos meus pacientes, de acordo com a minha capacidade e julgamento, e nunca farei mal a ninguém.”). Desde então, tenho devotado os meus esforços para apoiar uma mudança das condições culturais e políticas, sobre o que tenho escrito repetidamente.

Há uma anedota muito oportuna sobre Ludwig van Beethoven (1770-1827), que Johann Andreas Stumpff (1769-1846), um construtor de harpas britânico que visitou o grande compositor nos seus últimos anos de vida, registrou em um rascunho biográfico, anos depois. Havia conhecidas tensões entre Ludwig e o seu irmão mais novo, Nikolaus Johann, a quem, em um determinado período de dificuldades financeiras, pediu um empréstimo. Nikolaus era um farmacêutico e um Gutsbesitzer (proprietário de terras), título com o qual, frequentemente, assinava as suas cartas dirigidas a Ludwig. Um dia, o compositor respondeu irritado a uma carta de Nikolaus, que havia sido assinada com tal título soberbo, e atribuiu a si próprio um título inédito: Hirnbesitzer (proprietário de um cérebro). Ou seja: um dos mais criativos compositores de todos os tempos já tinha consciência, há séculos, de ser “possuidor de um cérebro”. Portanto, o que os pesquisadores da atualidade estão procurando?

O Projeto Cérebro Humano

No resumo executivo do Projeto Cérebro Humano, lê-se:

Podemos obter insights fundamentais sobre o que significa ser humano, desenvolver novos tratamentos para doenças cerebrais e construir novas e revolucionárias Tecnologias de Informação e Comunicação (ICT, na sigla inglesa).

Uma primeira impressão: quem não concordaria com que uma profunda compreensão do que significa “ser humano” e que o desenvolvimento de novos “tratamentos de doenças” sejam positivos? Entretanto, na medida em que avançamos na leitura da apresentação do projeto, mais desconfortáveis nos sentimos: ao que parece, todos os esforços de pesquisa serão direcionados, de algum modo, para um modelo de supercomputador, de modo a constituir uma supercoleção de informações. Todas as palavras-chave – “tecnologia de nuvem”, “novas tecnologias de computadores”, “revolucionar as ICT” – estão presentes no texto, que afirma ainda que todas as informações existentes deverão ser reunidas e integradas. (E o que têm feito todos os pesquisadores, todos esses anos?) Por que os cientistas não estão estudando o que outros fizeram nos seus campos de pesquisas específicos? Nada contra os esforços de colaboração, mas, como existem milhares de trabalhos publicados sobre o cérebro e os computadores, a questão é: qual é a verdadeira hipótese que está guiando a pesquisa sobre o cérebro e a mente humana?

Igualmente, o texto afirma: “Neste relatório, argumentamos que a convergência entre o ICT e a biologia atingiu um ponto em que pode transformar sonhos (insights sobre o que significa ser humano, novos tratamentos de doenças e novas ICTs) em realidade”. Em seguida, o documento lista áreas e objetivos como sendo a nova base para as pesquisas do cérebro: reunir informações sobre

dados estratégicos selecionados, por exemplo, para o desenvolvimento de modelos cerebrais; trabalhos sobre princípios matemáticos implícitos na organização do cérebro; prover novas plataformas de ICT para neurologistas, pesquisadores clínicos e desenvolvedores de tecnologia; e desenvolver protótipos tecnológicos, que sejam aplicáveis à neurociência básica, medicina e tecnologia de computadores.

Por um lado, tais objetivos parecem ser muito amplos e demasiadamente genéricos; por exemplo, quando dizem ter a intenção de entender “o que significa ser humano” , o que é algo subjetivo demais para se ouvir de um neurocientista, especialmente, quando ele sugere ser capaz de dar uma resposta final sobre tal questão fundamental.

Por outro lado, parece que a pesquisa é muito baseada no reducionismo, que domina a prática científica mundial há meio século. Ou seja, parece fundamentar-se no equivocado pressuposto de que uma máquina criada pelo homem, o computador, sendo transformado num mecanismo mais rápidos, capaz de efetuar mais e mais operações por segundo e, eventualmente, capaz de imitar processos vivos (a chamada “computação neuromórfica”), seria capaz de nos proporcionar uma melhor compreensão sobre o funcionamento do pensamento e da geração de ideias.

O Projeto BRAIN

O presidente Obama anunciou o Projeto BRAIN (acrônimo em inglês para “Pesquisas Cerebrais por meio de Neurotecnologias Inovadoras Avançadas”), com a efusiva afirmativa: “A iniciativa BRAIN dará aos cientistas os instrumentos de que precisam para formular uma imagem panorâmica do cérebro e para entender como pensamos, aprendemos e lembramos”.

Sim, eu penso que este é um objetivo maravilhoso, mas não seria muito ambicioso? O objetivo é criar um mapa de todos os circuitos funcionais do cérebro humano – os movimentos altamente sofisticados dos sinais eletroquímicos entre neurônios e sinapses, que possibilitam a transmissão de dados pelo corpo. Estimativas calculam a existência de 86 bilhões de neurônios, com incontáveis microcircuitos, no cérebro humano. Como poderemos “medir” isto sem criar “artefatos”?

Um dos artigos críticos escritos sobre os dois projetos afirmou sobre o Projeto BRAIN:

(…) Com o que se parecerá um mapa completo do cérebro? Como tomaremos conhecimento dele quando estiver pronto? Como a dinâmica natureza do cérebro será contabilizada? Irão os registros da atividade de todos os neurônios de um dado cérebro produzir um entendimento sobre o seu comportamento, bem como sobre doenças?

O artigo do Guardian de 2 de abril cita o neurocientista Donald Stein, para quem “a tecnologia deve seguir os conceitos, e não o contrário”. Além disto, a revista científica alemã Spektrum publicou, na edição de 8 de novembro de 2011, um comentário crítico sobre o método de investigação do PCH e seu diretor, professor Henry Markram. Para a revista, a abordagem adotada pelo PCH está subvertendo o modo usual de construção de modelos e simulações de aplicação científica: normalmente, se deve provar uma hipótese com a ajuda de simulações. Entretanto, o PCH espera que, ao se colocarem mais e mais dados no modelo, seja possível atingir um ponto de compreensão do funcionamento cerebral – animus ex machina.

Contudo, já existem muitas pesquisas clínicas brilhantes, em especial, na área de ferimentos de sensores orgânicos (olhos, por exemplo), nas quais, com a ajuda de novas tecnologias (incluindo nanotecnologias e dispositivos computadorizados), auxílios eficientes e melhoramentos têm sido proporcionados aos pacientes, ao mesmo tempo em que se tem logrado obter um profundo conhecimento sobre o “paralelismo psicofisiológico” de células nervosas e cerebrais. Se estes projetos receberem mais atenção e apoio financeiro, como parte dos esforços do PCH, os benefícios seriam ainda mais positivos.

A grande animação com que se têm promovido os projetos PCH e BRAIN, com mais de 1 bilhão de euros em investimentos, me faz lembrar dos efeitos do livro de Norbert Wiener, Cybernetics: Or Control and Communication in the Animal and the Machine (Cibernética: ou o controle e a comunicação no animal e na máquina), lançado em 1948, e do de John von Neumann, publicado pouco antes de sua morte, The Computer and the Brain (O computador e o cérebro). Tais obras suscitaram grandes debates, mas podem não ter conseguido nos fazer entender os processos do pensamento criativo, que concebo como sendo “a formação da concepção”, e o desenvolvimento da personalidade moral do ser humano. Particularmente, eu aprecio muito o progresso que temos alcançado em tecnologias medicinais e de neurociência. Mas me parece que ainda há muito reducionismo envolvido em tais projetos. Uma abordagem mais moderada nas pesquisas neurocientíficas podem levar a melhores resultados. O trocadilho de Beethoven sobre “possuir um cérebro” (e ele concebia o “cérebro” como sendo a sua genialidade) está, provavelmente, mais perto da verdade do que percebe a maioria das pessoas.

One comment

  1. A ciência atual é burocrática e o seu único objetivo é continuar a existir. Ou seja, publico para continuar publicando. Nenhum problema real guia a maioria das pesquisas, o que vale é criar um produto consumível a curto prazo. Isso sem falar nos lobbies das corporações e nas universidades que emitem diplomas como cartórios. Boa parte dos trabalhos hoje são lixo.

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