A bolha das criptomoedas

Perdemos a bolha das criptomoedas! Nos últimos anos, temos experimentado os efeitos devastadores de bolhas financeiras de todos os tipos, desde as “pirâmides” até os tradicionais “esquemas Ponzi” e outros organizados em cima de títulos e produtos financeiros exóticos e difíceis de se entender. As criptomoedas representam um risco potencialmente maior, pois combinam os efeitos das finanças de alto risco e fora de controle com as medidas monetárias desestabilizadoras. Em outras palavras, no caso de uma implosão de bolhas monetárias, não haveria apenas falências em cadeia e possíveis resgates com dinheiro público, mas também potenciais situações caóticas nos mercados de câmbio.

Em primeiro lugar, é apropriado afastar algumas teorias falsas. O primeiro é o teorema da “soma zero”, segundo o qual nem mesmo as especulações mais extravagantes representam problemas em si mesmas , uma vez que em cada transação financeira uma parte ganha e a outra perde. Em outras palavras, os problemas eles seriam um “assunto deles”. A realidade é bem diferente, quando as dimensões envolvidas são tais que atingem a categoria de “sistêmicas”, ou seja, quando os prejuízos e quebras colocam em risco a estabilidade de todo o sistema. Foi o que ocorreu de forma avassaladora na Grande Crise de 2008-09, quando bancos, seguradoras e fundos financeiros “grandes demais para falir” colocaram o sistema global em risco, forçando governos e bancos centrais a intervir para cobrir os buracos.

A segunda teoria é aquela segundo a qual os capitais utilizados nas operações financeiras e monetárias, especialmente as especulativas, seriam limitados e contidos, em relação aos recursos realmente pertencentes às operadoras. Desde há tempos, com os processo de “alavancagem”, esse axioma não se aplica mais. Pequenos montantes de recursos financeiros iniciais podem mobilizar uma quantidade de operações que pode exceder centenas de vezes as garantias subjacentes. Também neste caso assume-se que os valores nominais nunca terão que ser pagos, mas apenas os resultados líquidos das transações financeiras. Todavia, mesmo este teorema não se sustenta no caso de uma crise séria, como se viu, recentemente, embora em pequena escala, na falência do fundo de hedge Archegos Capital Management (ver o nosso artigo na Resenha Estratégica – 28/04/2021).

Nas últimas semanas, presenciamos uma volatilidade perigosa nos valores relacionados às criptomoedas, principalmente, ao bitcoin e à ether. Desde o início de 2021, os valores do bitcoin aumentaram vertiginosamente, impulsionados pela Coinbase de Wall Street, a primeira plataforma do mundo para a negociação de moedas digitais. A avaliação inicial do bitcoin foi de quase 100 bilhões de dólares, muito maor que os grandes bancos e corporações internacionais já listados há muito tempo na Bolsa de Nova York.

Em abril, o bitcoin atingiu o pico de 65 mil dólares, um aumento de 450% desde o início de 2021. Então, em um dia turbulento de maio, caiu para 30 mil dólares, permanecendo por algum tempo abaixo de 40 mil.

Essas mudanças repentinas são sintomas de uma doença grave. Ao contrário de uma ação qualquer, as criptomoedas não têm um valor intrínseco. Ações ou títulos, por exemplo, refletem um certo valor real na forma de infraestrutura ou produção, que lhes proporcionam um “lastro”. As ações, a um determinado preço, tornam-se atrativas para outros investidores. Por outro lado, o valor das criptomoedas depende apenas dos comportamentos envolvidos e das decisões de quem as possui ou deseja negociá-las.

Por algum tempo, elas têm sido um problema sério para governos e bancos centrais, pois estão fora de seu controle e operam, na verdade, de forma desregulamentada, tendo o mercado de criptomoedas atingido 2,2 trilhões de dólares em capitalização – já é uma cifra impressionante.

Nos Estados Unidos, o Departamento de Estado está planejando grandes ações de controle, depois que algumas criptomoedas aparentemente foram usadas por grandes instituições financeiras em operações de lavagem de dinheiro. O novo diretor do Escritório do Controlador da Moeda (OCC), Michael J. Hsu, anunciou uma revisão da política regulatória de criptomoedas. Ele acabou de substituir seu antecessor indicado por Donald Trump, que, aliás, provinha da Coinbase. Nesse contexto, por razões ainda não esclarecidas, o dono da corporação de tecnologia Tesla, Elon Musk, o primeiro a aceitar pagamentos de seus veículos com bitcoins, também voltou atrás repentinamente.

Falando em nome do Banco Central Europeu (BCE), a diretora-executiva Isabel Schnabel foi muito clara, em uma recente entrevista à revista alemã Der Spiegel: “Em nossa opinião, é errado descrever o bitcoin como uma moeda, porque ele não satisfaz as propriedades básicas de uma moeda. É um ativo especulativo sem valor subjacente reconhecível e está sujeito a grandes oscilações de preço… A preocupação é que a confiança nas criptomoedas pode evaporar rapidamente, causando perturbações nos mercados financeiros. É um sistema muito frágil.”

Anteriormente, a presidente do BCE, Christine Lagarde, já havia dito: “É imperativo que uma atividade semelhante ao dinheiro, realizada por um ator privado, esteja sujeita às mesmas regras e mecanismos de controle que o euro.”

O Banco Popular da China, o banco central chinês, está preparando regras para regular e supervisionar as criptomoedas, também para “evitar que a especulação com elas cause grandes riscos financeiros”. As instituições bancárias chinesas recusaram pagamentoe em criptomoedas. Isto também se aplica às “stable coins”, criptomoedas que deveriam ter uma contrapartida na moeda tradicional, como o dólar ou o yuan, e que tencionam tornar-se novos instrumentos de pagamentos alternativos.

Na Argentina, no início de abril, o banco central exigiu que todos os bancos privados do país divulgassem os nomes dos cidadãos que possuem contas em criptomoedas ou que as usam para operações de compra e venda. As autoridades de Buenos Aires estão tentando impedir a fuga de capitais e as criptomoedas se tornariam uma nova ferramenta para operações semelhantes. Algumas criptomoedas também se tornaram um substituto do ouro, para investimentos anônimos com o objetivo de proteção contra a inflação e a desvalorização da moeda nacional.

Até mesmo a Turquia, que até recentemente apoiava as moedas digitais, interveio por meio do seu banco central, banindo as criptomoedas como meio de pagamento.

Em última análise, todos os governos e seus bancos centrais enfrentam o maior desafio desde a criação dos Estados nacionais, e isto também se aplica à União Europeia. A soberania monetária permanece em mãos públicas ou será suplantada por interesses privados? Para os governos, deixar o controle das moedas em mãos privadas teria consequências piores do que a falta de controle sobre o sistema financeiro. Muitas críticas podem e devem ser feitas sobre o comportamento excessivamente permissivo dos bancos centrais no passado, mas recorde-se que eles sempre funcionam como emprestadores de dinheiro e fiadores de último recurso – algo que as criptomoedas nunca serão.

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