A Amazônia não precisa de um “MIT verde”

É fato notório que o Brasil tem se posicionado nas discussões internacionais sobre o meio ambiente de uma maneira eminentemente defensiva e reativa, com uma aceitação quase passiva da falaciosa ideia de que a conservação dos seus biomas em um estado quase pristino, principalmente, a Amazônia, seria fundamental para um ilusório “equilíbrio ecológico” do planeta, a começar pelo clima global.

Nesse contexto, ocorre uma supervalorização da relevância dos biomas da região – Amazônia, Cerrado e Pantanal – para a dinâmica ecológica global, da qual não há evidências de que seja superior, por exemplo, à das florestas boreais do Hemisfério Norte. Estas se espalham por 12 países e cobrem uma área quase cinco vezes maior que a área preservada da Floresta Amazônica (por sua vez, maior que a de todos os países europeus que financiam e instrumentalizam o ambientalismo político para as suas agendas particulares). Também chamada taiga, a floresta boreal costuma ser afetada todos os anos por enormes incêndios, em especial, na Sibéria, sem que receba sequer uma fração da atenção e da publicidade conferida aos seus equivalentes amazônicos.

O corolário tem sido a virtual demonização de todo tipo de atividades econômicas modernas – infraestruturas, indústrias baseadas nos recursos da região, mineração etc. –, sem as quais será impossível erguer de forma sustentável os índices socioeconômicos da população amazônica, os mais baixos do País.

Um fator dos mais relevantes é a reduzida participação dos amazônidas em tais debates, especialmente, de representantes dos seus setores produtivos e científicos, que melhor conhecem as peculiaridades e necessidades da região.

No momento, está em marcha uma iniciativa internacional denominada Painel Científico para a Amazônia (SPA, na sigla em inglês), que pretende constituir-se em uma versão ad hoc do badalado Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão que representa um suposto “consenso científico” sobre a influência humana na dinâmica climática global. Como de hábito, chama a atenção a sua escassez de integrantes provenientes de instituições amazônicas brasileiras.

O copresidente do SPA, o conhecido climatologista Carlos Nobre, está empenhado na criação do que chama o Instituto de Tecnologia da Amazônia, cuja sigla AmIT é deliberadamente composta para sugerir uma vinculação com o MIT (Massachusetts Institute of Technology) estadunidense, com o qual Nobre está se consultando. Segundo ele, a intenção é enfocar a atuação do AmIT em dois conceitos: o desenvolvimento da bioeconomia baseada na ideia da “floresta em pé” e o empoderamento social da população amazônica. Como afirmou em uma recente entrevista: “Esse empoderamento social das populações amazônicas será baseado em educação de qualidade, no padrão MIT, e na criação de condições de desenvolvimento para a implantação muito rápida e efetiva dessa nova economia da floresta em pé, gerando uma grande quantidade de novos produtos, em quantidade suficiente para alimentar essa nova bioeconomia (UOL, 17/01/2023).”

Nas propostas do SPA, observa-se uma ausência conspícua de atividades produtivas como a mineração, implementação de infraestrutura energética e viária e outras, imprescindíveis a uma economia moderna.

A ideia de se engajar o conhecimento científico mais avançado nas iniciativas de desenvolvimento da Amazônia é antiga. Na década de 1970, ganhou destaque o Projeto Aripuanã, cujo corolário seria a criação de uma cidade científica capaz de realizar “o levantamento do capital natural da região, apontando as alternativas não predatórias de seu aproveitamento racional”, utilizando a pesquisa “como instrumento para o desenvolvimento da região e a preservação do ecossistema”, como consta de um relatório da época. Com o apoio do governo federal, a Cidade Científica Humboldt começou a ser construída em Aripuanã (MT), em 1973, mas por vários motivos, o projeto foi desativado menos de três anos depois, vítima da quase incurável dificuldade nacional de dar continuidade a projetos e empreitadas de longo prazo durante uma sequência de administrações, agravada por um déficit de capacidade de pensamento complexo entre os nossos homens públicos.

Todavia, o que não faltam em toda a Amazônia Legal são instituições científicas qualificadas para o engajamento em um amplo projeto de desenvolvimento regional, que ultrapasse os mandatos dos ocupantes temporários de cargos políticos, integre efetivamente a região ao restante do Brasil e, principalmente, contemple uma elevação substancial dos níveis de vida da população amazônica em conjunto. Orientação para a qual seria apropriada a expressão “Amazônia Industrial”, para não ficar restrita aos desdobramentos da bioeconomia, sem dúvida, relevante para tais pretensões, mas de maneira alguma excludente das demais atividades próprias de uma economia moderna.

Para citar apenas algumas: Embrapa Amazônia; Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA); Museu Paraense Emílio Goeldi; Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA – ex-Centro de Biotecnologia da Amazônia); Fiocruz; Instituto Evandro Chagas; universidades federais e estaduais; e outras.

Em síntese, a Amazônia não tem necessidade do “MIT verde” do Dr. Nobre e sua agenda limitadora das potencialidades da região.

Por outro lado, salta aos olhos que uma iniciativa de tais proporções não pode prescindir de uma firme liderança institucional do Estado e do concurso de maciços investimentos públicos, sempre que possível, em combinação com investimentos privados, em estreita sinergia com todos os agentes estaduais e municipais e interesses privados da região, aí incluídas as populações tradicionais. A participação do Estado é não menos crucial para permitir a superação racional dos inevitáveis problemas socioambientais de todo esforço de desenvolvimento, sem permitir que sejam considerados como obstáculos quase intransponíveis por tecnocratas ideologicamente motivados, como ocorre atualmente.

A propósito de uma das instituições citadas, o CBA, reproduzimos a seguir um artigo relevante sobre a dimensão dos problemas que precisam ser enfrentados para a implementação de uma nova visão capaz de superar efetivamente os desafios da região.

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