Terrorismo “cego”, mas com bengalas

Bruxelas-terrorismo

Os brutais ataques terroristas em Bruxelas, que se seguem a uma trágica lista de atos semelhantes ocorridos recentemente em grandes cidades, como Istambul, Jacarta, Paris e outras, têm sido abordados na mídia ocidental sob a ótica quase exclusiva do fundamentalismo islâmico. Nesta visão simplista, o fanatismo religioso é considerado a causa necessária e suficiente para explicar por que  indivíduos predominantemente jovens se dispoem a matar o maior número possível de pessoas para eles desconhecidas, com frequência, sacrificando as suas próprias vidas. Algumas análises vão além do lugar comum de que o Islã teria uma propensão intrínseca ao sectarismo e à violência, superior  às demais religiões monoteístas, e levam em conta o ambiente de escassez de perspectivas de vida e futuro dignos em que vive um grande número de jovens muçulmanos, tanto nos países islâmicos como na própria Europa, condições que os tornam mais propensos às pregações radicais e ao apelo da violência “purgativa” dos males das sociedades. No entanto, são raras as que colocam na raiz do problema as agendas políticas e econômicas dos próprios governos engajados na “guerra ao terror”, assim como as próprias causas culturais do fenômeno, sem as quais o terrorismo, dificilmente, extrapolaria de ocorrências marginais e bem menos frequentes.

Em uma recente entrevista à rede RT, o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, Kirill I, abordou o ângulo cultural do terrorismo. Segundo ele:

O terrorismo é, em primeiro lugar, um desafio filosófico. Devemos entender o que acontece com as pessoas que pegam em armas para “lutar por Deus”. Estou profundamente convencido de que o desdobramento da civilização humana, que, desgraçadamente, hoje em dia inclui a renúncia a Deus, à lei divina, à moral, é a força que provoca o surgimento do terrorismo.

Kirill afirmou ter estudado a forma de recrutamento de terroristas e se convenceu de que

se utilizam umas ideias muito nobres. A motivação se dá assim: o mundo está submergido no mal, a civilização ocidental moderna é um mal, nela expulsam a Deus, o mundo se faz ímpio, satânico e só com a tua façanha podes contribuir para a vitória sobre o mal, e é teu dever religioso (Resenha Estratégica, 17/02/2016).

Na esfera da política, um dos poucos comentaristas que escapam dos relatos semipadronizados comumente divulgados pelas agências noticiosas ocidentais e vão às raízes dos problemas é o jornalista irlandês Patrick Cockburn, correspondente do The Independent no Oriente Médio e um dos maiores conhecedores da região e suas culturas. Em seu último artigo (“Como os políticos se esquivam da culpa pelo terrorismo”), publicado em 19 de março, logo após a captura de Salah Abdeslam, um dos fugitivos dos ataques de novembro em Paris, e três dias antes da carnificina em Bruxelas, ele voltou a instigar os seus leitores a pensar no quadro mais amplo do fenômeno terrorista. Depois de criticar a falta de interesse midiático por ataques terroristas em países como o Iraque e a Síria (onde se encontra, de fato, a esmagadora maioria das vítimas), ele observa:

Na Europa, sempre houve nas mentes das pessoas uma desconexão entre as guerras no Iraque e na Síria e os ataques terroristas contra os europeus. Em parte, isto se deve ao fato de que Bagdá e Damasco sejam lugares exóticos e assustadores, e fotografias dos resultados de ataques têm sido a norma desde a invasão estadunidense de 2003. Mas há uma razão mais insidiosa de por que os europeus não façam a devida conexão entre as guerras no Oriente Médio e a ameaça à sua própria segurança. Separar as duas coisas é de interesse dos líderes políticos ocidentais, porque isto significa que o público não vê que as suas desastrosas políticas no Iraque, Afeganistão, Líbia e outros lugares, criaram as condições para o surgimento do ISIS [antiga denominação do Estado Islâmico] e das gangues terroristas como a que incluía Salah Abdeslam.

A efusão de luto oficial que comumente se segue às atrocidades, como a marcha de 40 líderes mundiais pelas ruas de Paris após a matança no [jornal satírico] Charlie Hebdo, no ano passado, ajuda a neutralizar qualquer ideia de que os fracassos políticos desses mesmos líderes possam ser, de certa maneira, responsáveis pelos massacres. Afinal de contas, tais marchas são geralmente promovidas pelos que não têm poder, para protestar e mostrar uma atitude de desafio, mas, nesse caso, a marcha serviu, simplesmente, como uma peça publicitária para desviar as atenções da inabilidade daqueles líderes de agir efetivamente e interromper as guerras no Oriente Médio, que eles fizeram muito para provocar.

Um estranho aspecto desses conflitos é que os líderes ocidentais nunca tiveram que pagar um preço político pelo seu papel em iniciá-los ou perseguir políticas que, efetivamente, inflamam a violência. O ISIS é um poder crescente na Líbia, algo que não teria acontecido se [o premier britânico] David Cameron e [o então presidente francês] Nicolas Sarkozy não tivessem ajudado a destruir o Estado líbio, ao derrubar [Muamar] Kadafi, em 2011. A Al-Qaida está se expandindo no Iêmen, onde líderes ocidentais deram um passe livre à Arábia Saudita para lançar uma campanha de bombardeios que arruinou o país.

Após o massacre de Paris, no ano passado, houve um jorro de apoio emocional à França e poucas críticas às políticas francesas na Síria e na Líbia, embora desde 2011 elas tenham favorecido o ISIS e outros movimentos salafistas-jihadistas. (…)

A Grã-Bretanha e a França estão agarradas à Arábia Saudita e às monarquias do Golfo, em suas políticas para a Síria. Eu perguntei a razão disto a um ex-negociador e ele respondeu, secamente: “Dinheiro. Eles queriam contratos sauditas.” Após a captura de Salah Abdeslam, começou-se a falar dos lapsos de segurança que lhe permitiram escapar à prisão por tanto tempo, mas isto é grandemente irrelevante, na medida em que os ataques terroristas prosseguirão enquanto o ISIS permanecer sendo um poder. Uma vez mais, a cobertura midiática, de uma ponta à outra, está permitindo que os governos ocidentais se esquivem à responsabilidade por uma falha de segurança muito pior, que são as suas próprias e desastrosas políticas.

Outro arguto observador, o estadunidense Chris Floyd, escrevendo no blog Empire Burlesque, horas após os ataques em Bruxelas, reforça os argumentos de Cockburn, em um artigo sugestivamente intitulado “Soma zero em Bruxelas: a visão selvagem que move um mundo infestado pelo terror”. Diz ele:

As atrocidades em Bruxelas – e elas são atrocidades horrendas, criminosas – não estão ocorrendo em um vácuo. Elas não estão florescendo de algum abismo imperscrutável de malevolência não motivada. Elas são uma resposta, em espécie, às atrozes violências regularmente cometidas pelas potências ocidentais em vários países do mundo. E, assim como não há justificativa para os atos de carnificina em Bruxelas (e em Paris, na Turquia e outros lugares), da mesma forma, não há justificativa para os atos de carnificina muito maiores e mais letais que estão sendo praticados pelas mais poderosas e prósperas nações da Terra, dia após dia, ano após ano.

As potências ocidentais sabem disso. Durante anos, as suas agências de inteligência – em um estudo após outro – têm confirmado que as principais causas da “radicalização” violenta entre um pequeno número de muçulmanos são as intervenções violentas em terras muçulmanas. Estas intervenções são feitas com o propósito de assegurar a dominação econômica e política de terras ricas em recursos energéticos e seus entornos estratégicos por interesses ocidentais. É flagrantemente transparente que elas não têm a menor relação com a “libertação” de pessoas de perseguições religiosas ou políticas, ou com tornar o mundo “mais seguro”. Elas se referem à dominação pura e simples.

De fato, esse aspecto é raramente questionado, embora os campeões da dominação afirmem que ela é uma coisa boa. Durante décadas, temos ouvido o argumento dos excepcionalistas estadunidenses, de que “se não fizermos isso” – quer dizer, se não dominarmos o mundo, militar e economicamente – “alguém o fará”. A implicação, claro, é a de que um “certo alguém” será muito pior do que nós mesmos, que somos divinamente abençoados e bem intencionados.

Há uma visão do mundo ferozmente primitiva subjacente a essa filosofia (que se observa quase universalmente em todo o espectro político estadunidense e naqueles países que se agarram às pegadas da dominação estadunidense). Ela diz que a dominação violenta é a única realidade nos assuntos humanos: deve-se dominar ou ser dominado. Deve-se comer ou ser comido. Deve-se matar ou ser morto. Não há alternativa. Se “nós” não dominarmos – se necessário, pela força, fazendo “o que for necessário” – é certo que alguma outra potência o fará. Dominação e poder são tudo o que existe; a única questão é como se distribuem e quem controla esta distribuição. E não há preço que não se possa pagar para obter – ou manter – esse controle. (…)

(…) Nessa visão do mundo extremamente limitada, a vida é sempre um jogo de soma zero. Dar mais oportunidades a alguém significa menos para si próprio e aos seus. Quanto mais livre alguém for, menos livre você será. Não há bastante para todos. Podem-se encontrar visões do mundo mais sofisticadas e empáticas nos pátios de escolas do ensino fundamental ou entre alcatéias de lobos.

Então, voltamos às políticas das nações ocidentais. Todas, sem exceção, se baseiam no objetivo de assegurar o controle efetivo (de qualquer forma) de recursos econômicos e estratégicos, em benefício das suas próprias estruturas de poder. (…) Aqueles que promovem essas políticas aceitam, consciente e deliberadamente, o fato de que elas, inevitavelmente, irão causar destruição no exterior e “retaliações” em casa. Eles sabem e aceitam que essas políticas irão desestabilizar o mundo, que irão radicalizar alguns dos que sofrerão por causa delas, que irão gerar menos segurança em casa, que irão drenar os orçamentos públicos e deixar os seus próprios povos mergulhados em comunidades quebradas, com infraestrutura decadente, dívidas crescentes, oportunidades encolhendo, futuros sombrios e vidas desesperançadas. (…)

As pessoas em Bruxelas – como as em Paris e como a multidão muito maior de vítimas no Iraque, Síria, Iêmen, Sudão, Somália etc. – estão, sim, “colhendo a tempestade” da política externa ocidental. Os criminosos que efetuaram os ataques mais recentes adotaram a mentalidade das nossas elites ocidentais, que ensinam ao mundo, dia após dia, que a destruição de vidas inocentes é um preço aceitável a ser pago para se atingir os seus objetivos. Pode-se e deve-se fazer “o que for preciso” – mesmo que o que for preciso for, digamos, a morte de meio milhão de crianças inocentes. Ou uma guerra de agressão que causa a morte de um milhão de pessoas inocentes. Ou o bombardeio de uma festa de casamento por um drone. Ou disparar mísseis contra um hospital. Ou estar sentado no Salão Oval – com o seu Prêmio Nobel da Paz reluzindo sobre a lareira – enquanto você seleciona os nomes das vítimas na sua “lista de mortes” semanal.

Na RT (23/03/2016), o também irlandês Finnian Cunningham bate na mesma tecla da responsabilidade das potências ocidentais. Para ele, a guerra encoberta fomentada pelos EUA e seus aliados regionais na Síria inspirou os aspirantes a jihadistas de toda a Europa a ir lutar no país árabe, e “não se espera que esses jihadistas deponham as armas, ao regressarem à Europa”. Por isso, diz, a União Europeia (UE) pode negar oficialmente qualquer ligação, mas o fato é que os países europeus têm sido cúmplices no acirramento do conflito na Síria.

E conclui: “A política criminosa encoberta da mudança de regime na Síria, da qual a UE tem sido cúmplice, em parte, está contragolpeando agora com um horrível terror nas ruas da Europa, de fato, no coração da Europa. (…) Os políticos europeus não duvidarão em recorrer a medidas de emergência mais draconianas, em função da matança, mas, em última instância, é a política criminosa da UE que se voltou contra si própria.”

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